Hilda Mendonça e o difícil ofício de contar histórias

A técnica despojada da condensa, entre linguagem e símbolos, toda uma mescla de caracteres humanos, ao longo da construção elaborada de sua narrativa ficcional

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Quando terminei a leitura dos dez contos que compõem o belo volume, intitulado “Redemoinho do Tempo”, de Hilda Mendonça (1939-2021), lembrei-me de que há muito tempo havia afirmado, peremptoriamente, diante de uma circunstância similar, que a arte não é apenas uma representação estática das emoções do homem, nem de suas ações. Toda a sua magnitude e misteriosa aspiração residem no gesto factual, sim, e na reflexiva compreensão do mundo, mas de tal modo que a sua concepção fique imediatamente sujeita ao exercício da técnica. Ou seja, os nossos sentimentos sozinhos pouco ou quase nada nos adiantam em nossa necessidade e vontade de criar, ou de expressar.

Hilda Mendonça, com seu estilo cristalizado, sua técnica despojada, vem socorrer-me nesta afirmativa, pois condensa, entre linguagem e símbolos, toda uma mescla de caracteres humanos, ao longo da construção elaborada de sua narrativa ficcional. Quer dizer, não resvala na banalidade meramente descritiva. Conhece muito bem as exigências técnicas dos gêneros (e a escritora mineira transita em vários deles) em que se manifesta criativamente e, “et pour cause”, se propõe a revelar aos seus leitores.

Os dez contos que formam o corpo deste livro, ao mesmo tempo em que são histórias díspares e isoladas entre si, também podem ser fragmentos de uma história única, cujo universo precípuo, motivador, estará sempre reduzido ao universo incompreensível e avassalador das personagens descritas em cada circunstância. Fato que, de certa maneira, aproxima o livro de “Vidas Secas” do nosso grande Graciliano Ramos. Em síntese, uma procura desesperada (o “leitmotiv” da escritora) de salvar-se, partindo da compreensão e aceitação do que está perdido, do que está supostamente perdido, numa tentativa de fragmentação de seu discurso narrativo.

No conto “Fantasmas noturnos” há um trecho bastante esclarecedor:

“Papai está roncando. Que ingenuidade! Ah, se ele soubesse quem será o lobisomem e quem será a mula-sem-cabeça desta noite! Também, papai só gosta de dormir e trabalhar. Será que ele não tem medo? Nem sei o que ele pensa! E essa diaba de noite que não acaba mais! E esse danado de sol dorminhoco! Queria ver o lobisomem Olegário na frente dele, só para ter certeza se ele ainda continuava a dormir. Também, o sol nunca viu essas coisas! A lua, sim, ela sabe. E como sabe. É ela quem vê as monstruosidades que aqui acontecem…”

A divagação é de uma menininha angustiada pela ausência do sono, pelo medo de fantasmas, completamente à mercê de sua própria precariedade, a sonhar acordada com o raiar do dia, esse benfazejo espantador de lobisomens e mulas-sem-cabeça que povoam as mentes e os corações férteis dessas criaturinhas a que chamamos de crianças.

Em “O retrato”, outro conto com nuanças autobiográficas, a necessidade de uma recomposição simbólica imediata, via personagem/narrador, eclode de forma quase idêntica à do primeiro caso, aludido no parágrafo anterior: “À noite rezávamos pelo defunto daquele dia, e íamos dormir, ou melhor, iam. Eu passava a noite em claro. Modo de dizer, pois a lamparina estava sempre apagada.”

Em Hilda Mendonça, transparentemente, cristalinamente, todos os percalços e obstáculos da vida retratada, por meio do suporte da ideação lírica, não deixam o campo das hipóteses oníricas para assumirem posturas ou compromissos com a realidade vivida. Tudo é a verdade de uma suposta mentira. A sua responsabilidade criativa resulta do apenas exercício de sinceridade. E essa capacidade fluídica, muito bem caracterizada nos fantasmas, espíritos-do-outro-mundo, mulas-sem-cabeça, geralmente permeia a sua técnica discursiva, no que concerne ao texto literário. A autora que é também professora, folclorista e poetisa se compraz diante da sua própria (re)criação de ser e de haver sido, enquanto identidade e fantasia.

Hilda Mendonça: escritora

Em “Puberdade interiorana”, como em “Enlace matrimonial”, do ponto de vista formal, podemos captar alguma despreocupação inventiva na lide da angústia das frustrações sexuais, porque foi embutida na formação dos seres que compõem seu universo, de ficção ou não. Mas o resultado final é bastante positivo.

Já no conto “Olho por olho”, temos a chave de todo o mistério — aqui apresentado mais em forma de indignação do que de busca de uma possível revelação —, o mesmo mistério que Hilda descerra, gradualmente, ao longo dessas peças uniformes, uníssonas, com toda a sua carga de emotiva sutileza.

Eis-nos, portanto, diante de uma universalidade de valores estéticos, tão bem delineados na simplicidade da província: argila e catarse da contista que surgiu um dia e há muitos anos — plena de voo — para o difícil ofício de contar histórias. Hilda, que não está mais entre nós, deixou-nos seguramente um legado precioso: foi professora completa, dentro e fora das salas de aula, e escritora de recursos cada vez mais raros entre os escritores das novas gerações.

João Carlos Taveira, poeta, ensaísta e crítico mineiro radicado em Brasília, é colaborador do Jornal Opção.

5 respostas para “Hilda Mendonça e o difícil ofício de contar histórias”

  1. Avatar jose carlos gentili disse:

    O ilustre crítico literário João Carlos Taveira rememora a saudosa escritora Hilda Mendonça, que imensa saudade nos deixou na Capital Federal.
    Parabéns, Taveira, por esta justa homenagem.

  2. Avatar J.PeixotoJr disse:

    Dá gosto ler apreciação de livro por Taveira.

  3. Avatar João Carlos Taveira disse:

    Caros amigos e confrades José Carlos Gentili e José Peixoto Júnior, como é bom ter vocês como amigos! Além de tudo, são generosos em suas avaliações. Obrigado, e boa semana para ambos. Boa noite!

  4. Avatar Regina disse:

    Que lindo e fantástico comentário de uma pessoa magnífica que nos deixou sem avisar, deixou tantos órfãos

  5. Avatar João Carlos Taveira disse:

    Obrigado, Regina, pela visita ao texto sobre a nossa Hilda Mendonça. Sucesso nas homenagens que você está preparando para comemorar um ano de saudades da escritora e nossa amiga querida. Parabéns!

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