Gabriel Nascente comemora 60 anos de poesia… escrevendo poesia e ensaios filosóficos
13 junho 2026 às 21h00

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Adalto Alves
Especial para o Jornal Opção
A mensagem enviada pelo celular não obteve resposta, ficou no vácuo, mas a ligação foi atendida quase que prontamente. Gabriel Nascente estava em um sebo, procurando novidades nas estantes de poesia, sem sucesso. A propósito, aliás, meu convite para um encontro tinha o objetivo de celebrar os 60 anos de lançamento do primeiro livro do poeta, “Os Gatos”. Não se trata, como se diz, de matéria factual, uma vez que a data correta é o dia 11 de janeiro (de 1966). Como a poesia não brotou, de repente, no primeiro livro, tendo sido cultivada de algum modo, um pouco antes, em um processo misterioso, não custa lembrar que ela permanece ativa nas teclas de uma pequena Olivetti. Sim, Gabriel Nascente não gosta de celular nem de computador. Ele usa as mãos para confeccionar as palavras que vão parar em arquivos de papel, empilhados em variadas formas de rascunhos, anotações, rabiscos e colagens.
Em seu escritório-biblioteca, com vista privilegiada para o Museu Pedro Ludovico, de onde afirma que vigia o espírito do Velho, um poema em construção repousa em página pensa no cilindro da máquina que reflete o mundo em sua sonoridade peculiar. Uma delas, por sinal. O bardo tem mais duas em casa, outras tantas em outros lugares, em um número total de sete, abastecidas com fitas de nylon adquiridas em papelarias de cidades do interior. Um especialista em manutenção será bem-vindo nos momentos de maior apuro. Já “Os Gatos”, que marca a estreia de Gabriel Nascente no universo literário, foi redigido, no sentido literal, com os dedos esgrimindo o lápis no caderno. Detalhe: atrás da caixa d’água da Escola Técnica de Goiânia, durante as aulas cabuladas de aritmética. Para quem desconhece o significado de cabular uma aula, a saída é procurar no dicionário da rebeldia.
Poeta fabricou submarino de madeira
Gabriel Nascente insiste que foi um aluno indisciplinado, do tipo que praticou extravagâncias na adolescência, como fabricar um submarino de madeira que, por suposto, afundou na represa do Jaó e quase levou a bordo um marujo de traquinagem, Joãozinho Batista.
A memória prodigiosa deste poeta de 76 anos rebobina o plano de uma viagem para a África que lhe custou uma fuga, pegando carona, da polícia. “Eu comprei uma espingarda nas lojas Carajá, usando uma assinatura forjada do meu pai.” Indisciplina parece pouco para o tamanho dessa audácia. O teste para o safári se deu em uma área de mata, atrás do Instituto Araguaia e perto do Córrego Botafogo. Os dois disparos da arma de fogo pegaram de surpresa um homem que se banhava nas águas mansas do Córrego. A debandada da gurizada fez com que o candidato a meliante fosse parar em Anápolis, onde foi resgatado em um latão de lixo no mercado, com medo de um castigo severamente aplicado.
A dura sina é admitir que a poesia, a mais difícil de fazer, no mercado de consumo é a mais desprestigiada das artes. De todos os prêmios que recebeu, o mais importante, sem dúvida, é o leitor contemporâneo. Tu conheces, leitor, o monstro delicado.
Perto disso, escrever poesia era bico. O estudante de Eletrotécnica usou uma redação com tema livre, na aula de Português, para experimentar um poema em prosa, chamado “Nordeste”, que desencadeou reações de vaias e aplausos.
O júbilo predominou em outra leitura do mesmo texto no teatro da escola, quando foi convidado para a abertura de uma peça. Depois, ele soltou o verbo. “‘Os Gatos’ saiu de uma jatada”, assume o autor que, jura, não havia lido nenhum livro de poesia antes de cometer a façanha, impulsionada pelo trauma da morte do pai (ele conclui a essa altura dos acontecimentos). Seu Antônio Estrela Nascente contraiu a doença de Chagas em Urutaí e partiu em 1958, aos 36 anos de idade. O fato que Gabriel chama de um “desencadeamento psicológico”, até então incubado no inconsciente, serviu-lhe um encaminhamento para uma consulta psiquiátrica.
O médico Walter Massi, da Clínica Isabela, na Praça do Ratinho, homenageado mais tarde no poema “Nunca lhe direi adeus”, foi generoso no diagnóstico e, em vez de abalar uma vocação com o sintoma de uma doença, vaticinou que o garoto sofria mesmo era de poesia em estado bruto ou latente. A lapidação da gema viria, inevitavelmente, com o buril do tempo. Mais do que isso, o psiquiatra gentil declarou que seriam amigos daí em diante e assinou um cheque para ajudar na publicação do livro.
7 Letras vai publicar “Os Gatos”
Gabriel não se intimidava em pedir colaborações para fins editoriais a professores, empresários, fazendeiros e outros voluntários, com o caderno valioso a tiracolo. Juntou parte do dinheiro para a impressão. A boa notícia é que a Editora 7 Letras prepara uma edição comemorativa, para breve, no Rio de Janeiro.
O lançamento, na Livraria Bazar Oió, de “Os Gatos” colocou Gabriel diante de seus leitores pela primeira vez. “A poesia me escolheu, não fui eu que a procurei”, entende ele.
Apaixonado por cinema, o rapazola sonhava talvez com outras cenas e cenários na existência. Para quem ajudava na marcenaria do pai (que não o brindou com o nome completo de Gabriel Estrela Nascente, mas de Gabriel José, quem sabe mencionando o carpinteiro da Bíblia) e depois na loja de bicicleta do padrasto, chegando a trabalhar com a instalação de antenas de TV, ele foi mais longe do que esperava. Ao pisar na redação do jornal “Cinco de Março”, do pioneiro Batista Custódio, na tentativa de uma resenha e ser recebido por Javier Godinho, Gabriel ampliava as possibilidades oferecidas pelo texto, ainda sem saber, no futuro desempenho como periodista (conforme alega).
Ensaios filosóficos e romance
As editorias se sucederam em sua trajetória tanto quanto as editoras. Das redações goianas, exercendo diferentes funções, de repórter a cronista, alcançou o prestígio nacional da “Folha de S. Paulo”. O memorial dessas temporadas encontra-se arquivado na casa de Inhumas, cidade natal de sua mulher, Maria D’Lourdes, com quem teve dois filhos, Vanessa e Thiago, que lhes deram três netos. Gabriel também é funcionário público aposentado. Nessa caminhada, claro, não deixou de se dedicar à autoria dos livros. Atualmente, são mais de 80 acumulados em listas que sobrepõem, só de poesia, mais de 15 mil páginas. Com novidades despontando no horizonte. O primeiro volume de ensaios filosóficos, “O Costureiro das Sombras”, está prestes a vir a público pela Editora Batel, com direito a ocupação da Livraria Travessa na capital carioca.
O romance “A Cova dos Leões” mereceu uma segunda edição pela Editora Kelps. “A Carta que o Vento Escreveu”, em formatação, tem proposta da Contato Comunicação. Com o subtítulo de “Memorial Ecológico do Bosque dos Buritis”, contará com ilustrações do artista plástico Nonato Coelho. Iniciado há mais de 20 anos, foi descoberto nos alfarrábios durante uma reportagem para uma emissora de televisão. Depois de retomado, ultrapassa com facilidade a marca promissora dos 100 cantos, sendo cada canto uma missiva ou carta, se preferir. Algumas delas surgiram em caminhadas pela Praça Cívica. Pois é, o poeta escreve, inclusive, andando (na Grécia antiga, seria aluno, peripatético, de Sócrates, Platão e Aristóteles). Não bastasse a insônia que o empurra para a escrita nas madrugadas.
“As Ilhas do Relâmpago”, a quem interessar possa, subintitulado “O Acendedor de Prantos”, datado de 1996, continua inédito. “Escrevo tanto que perdi o controle”, admite o escriba que virou verbete de enciclopédias. Um mergulho em seus papéis, agrupados muitas vezes em caixas de papelão que estocam de cartas a bilhetes, pode resultar em uma surpresa tão completa quanto esquecida. Com certeza, o escafandrista jamais irá se defrontar com uma reportagem policial, única editoria na qual evitou colocar os pés, ou um soneto. O leitor contumaz de Augusto dos Anjos (que avalia um placar de 20 a 0 sobre Olavo Bilac e Castro Alves) não escala esse Everest da rima e da métrica por considerar que o desafio exige um talento que ele não tem.
Esquecido pela AGL e pela UBE
Resta considerar que o poeta Gabriel, diante da vastidão de sua obra, é um profissional renomado, reconhecido e rico. Ledo engano, diria o Ivo. Gabriel ressente-se de ocupar um lugar marginalizado pelas Universidades e entidades culturais. Membro da Academia Goiana de Letras, nunca foi convidado para uma palestra por lá. Como não foi convidado para participar da feira do livro promovida pela União Brasileira de Escritores, há poucos dias. Não foi celebrado por ocasião de seu meio século de poesia. Não possui uma tese que defenda seu trabalho nos cursos especializados. Seus títulos não costumam frequentar os sebos. Com a experiência de quem passou por lançamentos de grande porte, ele reconhece que os volumes naturais de Goiás estão confinados ao fundo de quintal.
Em paralelo, Gabriel não se sente representado pelas redes sociais que pululam no que ele chama de infernet, “ferramenta de trabalho preciosa e paradoxal, que rescende a fedentina de um esgoto a céu aberto em todos os aspectos, principalmente na castração intelectual.” Ele não está ausente do plano cibernético. Seu nome circula em determinados domínios. Mas ele recusa o apego alucinatório deste auditório de fantasmas. O poeta é um devorador de livros à moda antiga. Preferencialmente ensaios literários, crítica e teoria poética e biografias diversas. É o conselho que deixa para os jovens poetas: “Amar exaustivamente a leitura, senão a poesia não é nada.” O fenômeno das novas livrarias no Brasil e um surto inesperado de nostalgia o deixam com esperança no amanhã.
Embora, há menos de um mês, tenha sido exonerado do cargo, que exerceu por 17 anos, de assessor cultural do Tribunal de Justiça. O afastamento ocorreu de uma forma que ele classifica como isento de cavalheirismo, dignidade e coleguismo. Âncora de eventos culturais e responsável pela agenda de exposições, ele colaborou com a inauguração da Pinacoteca Desembargador Camargo Neto, do Espaço Cultural Goiandira do Couto e do Pergolado Otavinho Arantes. A deselegância alardeada nos bastidores mina, mas não seca a fonte de quem vendeu seu peixe em verso e prosa nas ruas, botecos, hotéis, boates, feiras, mercados, bordéis, cinemas, aviões, no corpo a corpo com quem desconhecia o manancial que jorrou a partir de “Os Gatos”.

Enquanto se identifica com os versos de Ferreira Gullar e manifesta predileção por Murilo Mendes sobre Carlos Drummond de Andrade, consciente do porte e do garbo de Manuel Bandeira, do modo como enaltece Graciliano Ramos sobre Jorge Amado sem deixar de reverenciar José Lins do Rego, Gabriel Nascente sugere que na literatura os maiores rivais são os mortos. “Eles não param de crescer.” A dura sina é admitir que a poesia, a mais difícil de fazer, no mercado de consumo é a mais desprestigiada das artes. De todos os prêmios que recebeu, o mais importante, sem dúvida, é o leitor contemporâneo. Tu conheces, leitor, o monstro delicado.
Há quem postule que chegou a hora de Gabriel Nascente, assim como Bernardo Élis, ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Claro, se a ABL voltar a ser “de Letras”.



