Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Fundamentos da liberdade (3)

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem decaiu por conta da desobediência, e o pecado original cometido tornou o que naturalmente é bom em um ser humano falho. Adão o provou, Eva idem; nós os seguimos, pois somos “filhos de Adão e filhas de Eva”. Não há, pois, país perfeito porque não há governante perfeito, em decorrência não há aliado perfeito.  João Camilo de Oliveira Torres: “o governante – seja qual for o regime político e o sistema de governo – está sujeito a erros e enganos de toda sorte”. Afinal, pela doutrina cristã do pecado original, todos estamos sujeitos a enganos e erros de toda sorte e por conta do pecado é que foi inventado o “regime legal”

Enfim, o mundo em que vivemos não é um Paraíso, como bem nos alertou o editorial deste Jornal Opção na Ed. 2262, de 18/11/2018, depois de constatar que vive o Brasil um momento que pode levar a maior abertura que nos livre do peso das ideologias.

Kirk fez uma crítica ao horror da devastação que o mundo moderno criou

Os fundamentos do conservadorismo de Kirk analisados por Alex Catharino como diálogo entre T.S. Eliot e Kirk

“É a liberdade individual, para escolher bem ou mal, que tem de ser defendida”. “Libertar um homem” é “libertá-lo de obstáculos — preconceitos, tirania, discriminação — para que” exerça “seu próprio livre-arbítrio. Não” significa “dizer-lhe como usar sua liberdade”. (…)

Os textos entre aspas são de Isaiah Berlin – adverte o editorialista, ressaltando ser “Berlin é um sólido adversário da ideia de que é possível “construir” sociedades e indivíduos perfeitos e dos que defendem a tese de que se deve sacrificar o presente na busca por um futuro que não se sabe qual será. Numa carta para a escritora irlandesa Elizabeth Bowen, escreveu, citando Kant, que “da madeira torta da humanidade jamais se fez nada reto”. A busca pelo melhor, como a democracia, é crucial, mas a procura obsessiva pelo paraíso, sacrificando indivíduos e gerações, tende a levar ao inferno (à ditadura, por exemplo). Fruir a vida real, sabendo que é a possível — e claro que se está tratando das sociedades abertas —, é o que importa. O futuro, sabe-se, nem a Deus pertence.”

Como católico, há uma só afirmação acima que não endossaria – pois creio na onisciência do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, a quem cabe toda a potestade no mundo ontem, hoje e sempre. De resto, vê o cronista neste editorial um marco de ação pedagógica para um país que recebeu uma profunda, vasta e, espera-se, duradoura guinada para uma atitude mais conservadora.

Não custa relembrar-nos que, em última instância, a liberdade é um dom de Deus ao homem, conforme a filosofia escolástica – uma conclusão a que nos leva o estudioso Anderson Machado R. Alves[i], fundamentada numa lição de Hegel, que afirmava “que o homem fosse livre em si e por si, segundo a própria substancia, que fosse nascido livre como homem, isso não soube nem Platão, nem Aristóteles,  nem  Cícero  e  nem  menos  os  juristas  romanos, ainda  que  esse  conceito  seja a fonte do direito. No princípio cristão por primeira vez o espírito individual pessoal é essencialmente de valor infinito, absoluto; Deus quer que todos os homens sejam ajudados”. E Machado R. Alves conclui:

“A liberdade entendida exclusivamente como mera capacidade de eleição (“libertas a coactione”) é um modo correto de se explicar a liberdade, mas é apenas um dos seus aspectos mais superficiais. A liberdade significa efetivamente domínio sobre os próprios atos, ausência de constrição, mas tal capacidade deve haver um porquê. A filosofia moderna tende a se contentar com o aspecto fenomenológico da liberdade (com a consciência da liberdade ou com a experiência da mesma), mas não entra a fundo na sua explicação.
“A liberdade de eleição tem sua razão no ato de ser humano, que informa todas as suas capacidades, principalmente as potências superiores. Dito ato de ser é a grande descoberta da filosofia de Santo Tomás de Aquino e nos ajuda a compreender também a esse difícil e apaixonante tema filosófico: a liberdade humana.  O ato de ser humano é único, uma novidade radical, que diferencia o homem dos animais e dos demais entes criados desprovidos de razão e se manifesta na possibilidade de a vontade humana determinar o seu fim último e os meios com os quais pretende alcançá-lo.
“A modernidade produziu uma enorme redução no conceito de liberdade, ainda que tenha discutido abundantemente sobre o tema. De modo que se pode dizer que se a liberdade é entendida somente como a capacidade de escolha de meios, sem que haja um autêntico fim, resulta que todas as escolhas humanas se tornam indiferentes e pode parecer lógica a afirmação de que “o homem é condenado a ser livre” 43 (Sartre).  Se a liberdade é uma conquista que a civilização ocidental deve ao Cristianismo, tal como afirmava Hegel, podemos dizer que a redescoberta do seu sentido também é tarefa urgente dos cristãos e dos filósofos que buscam as causas últimas de todas as coisas.”

Neste terceiro artigo da série “Fundamentos…”, gostaria de voltar o olhar ao escritor norte-americano Russell Kirk[ii], apoiado no livro do analista brasileiro Alex Catharino. Antes, porém, lembremo-nos da lição de Santo Tomás de Aquino, revivida por Anderson R. Alves[iii]:

“Em Santo Tomás de Aquino a noção de liberdade não é unívoca ou equívoca, mas sim análoga, ou seja, se refere a diversos tipos de realidades. É aplicada aos diversos entes espirituais, que possuem inteligência e vontade: Deus, os anjos e os homens. E ao mesmo tempo a própria liberdade humana apresenta uma diversidade de significados análogos. Pois pode se referir à liberdade de escolha, também chamada de livre arbítrio ou liberdade psicológica pela tradição filosófica e teológica; à liberdade moral (chamada de Libertas Major por Santo Agostinho) e a liberdade mais radical do ser humano, também chamada de “liberdade fundamental”, uma vez que se refere principalmente à abertura transcendental da inteligência e da vontade humanas à verdade e ao bem.” 

Kirk acreditava, como T.S. Eliot, que contra a "terra desolada" de nossa grotesca civilização era necessário um conservadorismo filosófico

Russell Kirk (1918-1994) uma pitada de transcendência e menos ceticismo no conservadorismo

A recente retomada do pensamento conservador, como já disse antes, nos possibilitou conhecer o trabalho de muitos escritores estrangeiros e a minha pergunta sobre João Camilo, em um artigo desta série, pode ter resposta mais completa se atentarmos ao ensino de Alex Catharino:

“O recente avanço do conservadorismo kirkiano em nosso país não representa a contaminação do pensamento brasileiro por um corpo estranho. Por um lado, obras do autor foram citadas por João Camilo de Oliveira Torres e por Ubiratan Borges de Macedo [amigo e mentor de Catharino].
“Por outro lado, o tipo de mentalidade conservadora advogada por Russell Kirk guarda inúmeras semelhanças com os princípios essenciais defendidos por alguns pensadores nacionais
.”

Catharino lista, em seguida, as personalidades e os trabalhos intelectuais de conservadores que cobrem o período de 1756 aos anos 2000, no Brasil, destacando José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu; Silvestre Pinheiro Ferreira, Bernardo Pereira de Vasconcellos, Paulino José Sorares de Sousa, o visconde de Uruguai; José Antonio Pimenta Bueno, o marquês de São Vicente; José de Alencar, Joaquim Nabuco, Gustavo Corção, Gilberto Freyre, Plínio Corrêa de Oliveira, José Pedro Galvão de Sousa e Dom Lourenço de Almeida Prado.

É uma lista significativa para o interessado em conhecer as raízes do nosso conservadorismo, que ainda conforme ao pensamento de Kirk, na citação de Catharino:

(…) “Diferente do socialismo, do anarquismo e até mesmo do liberalismo, o conservadorismo não oferece um padrão universal de política a ser adotado em toda parte”; isso porque “os conservadores pregam que as instituições sociais sempre devem diferir, consideravelmente, de Nação para Nação, pois a política de qualquer território deve ser produto da religião dominante, dos costumes ancestrais e das experiências históricas do país[iv].

Procurando situar o leitor no mundo conturbado, o mundo da “terra desolada” (Eliot), Kirk responde à pergunta que ele retoricamente se fez: “O que é tudo isso – esse mundo confuso de coisas materiais resplandecentes e de pavorosa decadência pessoal e social?”

“Descobri que é um real, não obstante os vícios: um mundo real, em que ainda podemos desenvolver e exercitar as virtudes possíveis da coragem, da prudência, da temperança e da justiça; a própria fé, a esperança e a caridade. Sofrereis quedas no mundo, Deus sabe; mas também podereis gozar de triunfos. É um mundo em que tanta coisa pode ser feita que ninguém deveria estar entediado.”

Apoiado na leitura que Russell Kirk fez do poeta T. S. Eliot em “A era de T. S. Eliot”, Alex Catharino provê ao leitor interessado no Conservadorismo uma introdução ao pensamento kirkiano, integrando o legado intelectual como testemunho pessoal.

Assim, ele apresenta no primeiro capítulo uma sintética biografia de Kirk; o segundo é dedicado às linhas gerais do pensamento cultural e político kirkiano; no terceiro, Catharino fala da influência e do lugar do pensamento de Eliot no conservadorismo de Kirk; os dois próximos capítulos são dedicados à análise da obra de Eliot feita por Kirk e algumas amostras desses textos.

Apesar do caráter didático do livro, o Sr. Catharino contribui e inova trazendo ao leitor uma rica seleção bibliográfica como sugestão de leituras ao estudante conservador.

Em síntese, “ao pôr em diálogo poesia, literatura, história das ideias e filosofia, Kirk constrói uma obra que é um encontro ente moral, política e estética”, como afirma Luiz Felipe Pondé no prefácio a este “O peregrino na terra desolada” de Alex Catharino. E o trabalho de Catharino é admirável por tornar-se um guia para aqueles que desejam se iniciar no estudo do conservadorismo, tornando-se “um refinado percurso que ele [Catharino] constrói nessa obra que está diante de seus olhos”, afirma Pondé. E Catharino conclui entre outras coisas que:

“Ao recusar o ceticismo e se abrir para a transcendência, o conservadorismo kirkiano sabe que `nossa esperança não se encontra no momento presente, muito embora a ação correta no presente seja o meio para a imortalidade´, pois, nessa perspectiva, “se nos faltar compreensão do passado pessoal e do passado histórico, o presente momento não tem sentido”.

Nessa busca existencial e intelectual da verdade, Russell Kirk asseverou que:

“Dos nossos atos passageiros, aqui e agora, depende a união com a divindade: por Cristo, participamos da eternidade. Caso isso não exista, somos fantasmas realizando um ritual de dança; caso isso venha a faltar, temos apenas o conhecimento da experiência privada e do empirismo social, que falham quando deles precisamos. Acreditemos no que nos foi dito, de que somos espíritos aprisionados a ser libertos somente pelo amor de Deus e pelo amor ao próximo.[v]

Enfim, considera o cronista que aqui mais um pilar, um fundamento se ergue para a vida do peregrino em busca do valor da liberdade, isto é, buscar entender e compartilhar dessa ideia que Catharino nos diz terem nutrido Eliot e Kirk que acreditavam que em nossa “grotesca civilização era necessário um conservadorismo filosófico que transcendesse a conveniência, o pragmatismo e a corrupção dos partidos.”

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor de “O rio incontornável” (poemas), Editora Mondrongo, 2017.

[i] Synesis, v. 3, n. 2, 2011, p. 16. ISSN 1984-6754 http://seer.ucp.br/seer/index.php/synesis/index

[ii] KIRK, Russel. cit. por Alex Catharino em “Russell Kirk, “O peregrino na terra desolada”, prefácio de Luiz Felipe Pondé. São Paulo: É Realizações, 2015. 136 p.

[iii] Cf. Nota i. “O fundamento da liberdade humana em Santo Tomás de Aquino”; Autor: ALVES, Anderson Machado R. Publicado por: Universidade Católica de Petrópolis; Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. URL persistente: http://hdl.handle.net/10316.2/33033
http://dx.doi.org/10.14195/1984-6754_3-2_1Accessed :20-Nov-2018 14:07:12digitalis.uc.ptimpactum.uc.pt

[iv] CATHARINO, Alex, Obra citada acima, pág. 123.

[v] CATHARINO, Alex, ob.cit., p. 125; KIRK, Russell. “A era de T.S. Eliot: A imaginação moral do século XX”. Trad. de Márcia Xavier de Brito, São Paulo, É Realizações, 2011, p. 481.

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