Fritz Müller: o correspondente de Charles Darwin no Brasil

Naturalista alemão que viveu até sua morte em Blumenau (SC), após deixar o continente europeu, manteve uma amizade epistolar com o autor de “A Evolução das Espécies” por quase 20 anos. Trocadas com regularidade constante, cartas trazem informações científicas, desenhos e revelam a admiração mútua entre os cientistas

O britânico Chales Darwin (E) e o alemão radicado no Brasil Fritz Müller (D): troca de cartas teve como ponto de partida a icônica obra “A Origem das Espécies” | Foto: Montagem/Reprodução – domínio público, Reprodução/Edipro e Reprodução – domínio público

Marília Noleto

“Prezado senhor

Desde que lhe escrevi há poucos dias atrás e enviei três cópias do seu livro, tenho lido a tradução inglesa e não posso negar a mim mesmo o prazer de expressar mais uma vez ao senhor, minha admiração. Eu posso, mas não farei, repetir meu agradecimento pela maneira muito honorável pela qual o senhor frequentemente menciona o meu nome; mas posso sinceramente dizer que vejo a publicação do seu ensaio com uma das maiores honras que jamais me foram conferidas. Nada pode ser mais profundo e surpreendente que suas observações sobre o desenvolvimento e a classificação. Estou muito alegre que o senhor adicionou sua justificação com relação a metamorfoses dos insetos; pois sua conclusão parece agora estar no mais alto grau de probabilidade. Tenho relido muitas partes, especialmente aquela sobre Cirripedes, com o mais vivo interesse. (…) Que admirável ilustração proporciona para toda minha doutrina! Um homem precisa sem dúvida ser um fanático em favor dos separados atos da criação, se ele não for completamente hesitante depois de ler seu ensaio; receio porém, que seu ensaio seja muito profundo para os leitores ingleses, exceto para uns poucos selecionados”.

Fritz Müller em seus últimos anos de vida | Foto: Domínio público

O trecho acima é o registro de uma amizade que superou primeiro a distância, e depois o tempo.  Charles Darwin (1809-1882) e Fritz Müller (1822-1897) nunca se conheceram. Mas a paixão que tinham em comum e a curiosidade insaciável pelas coisas da natureza fizeram com que suas vidas se cruzassem e mantivessem ligadas por bem traçadas linhas. O “encontro” se deu na época em que na Europa assistia-se a uma revolução no conhecimento científico da História Natural. Com a publicação do livro a “Origem das Espécies”, em 1859, Charles Robert Darwin, naturalista britânico, reconhecido pelos seus estudos em Geologia, Zoologia e outras áreas, desafiava os poderes estabelecidos pela ciência, religião e política da época para explicar a natureza e a evolução dos seres vivos pela seleção natural.

Esse turbilhão que fez tremer os pilares do conhecimento científico e que desafiava princípios considerados “sagrados” até então, acenderam uma faísca na mente investigativa e no espírito rebelde de Fritz Müller. “Ele tinha uma tendência ‘anarquista’ na época”, diz com uma contagiante gargalhada o escritor e publicitário Hugo Brokes. O goiano natural de Pirenópolis é um dos cinco bisnetos vivos do alemão que cruzou o oceano e rumou para os trópicos tomado pelo espírito de aventura. Hugo era neto da primogênita de Fritz Müller, a única de suas filhas a nascer na Alemanha e que veio para o Brasil com o alemão ainda bebê.

Já radicado no Brasil, o naturalista constatou, ao estudar espécies de crustáceos (camarões, lagostas, siris), que, embora diferentes nas fases adultas, os animais tinham as fases larvais muito parecidas. O que, segundo pressupôs Fritz Müller, era uma evidência incomumente convincente de que toda a diversidade de crustáceos originara-se de um ancestral comum, que sofrera diferenciação das formas adultas por seleção natural. A partir destas constatações do desenvolvimento embrionário de crustáceos, Fritz Müller publicou, em Leipzig, em 1864, na Alemanha, o livro “Für Darwin” (“Pró-Darwin”), com uma série de teorias e dados que corroboravam as ideias darwinistas. De imediato, a publicação ganhou enorme repercussão no meio científico e, consequentemente, acabou chegando às mãos de Darwin. Após ler o livro, o britânico entrou em contato com Fritz Müller, dando início à correspondência entre eles.

A partir deste contato, passam a  trocar regularmente, por meio das epístolas, elogios, ideias, informações e até mesmo pequenos mimos, peculiares a naturalistas, como sementes, folhas e flores. Só foram “apresentados” por fotos e por textos científicos, o que não os impediu de manterem uma profícua interlocução de ideias científicas e diálogos amistosos por quase vinte anos. E o que começou como uma relação objetiva e racional entre cientistas evoluiu para uma terna camaradagem.

O publicitário e escritor goiano Hugo Brockes, bisneto de Fritz Müller . Nas mãos, o livro “Dear Mr. Darwin”, de Cezar Zillig, lançado em comemoração ao centenário da morte do naturalista

A primeira carta de que se tem registro da comunicação entre os dois é datada de 10 de agosto de 1865 e foi escrita por Darwin. No entanto, fica evidente no manuscrito que já se escreviam antes, pois o britânico dá a entender que o “blumenauense” já sabia de suas más condições de saúde. Darwin comenta com Fritz que havia enviado recentemente, pelo correio, “um artigo sobre trepadeiras, como experiência, para ver se chega às suas mãos”, corroborando a hipótese de que existiram cartas anteriores a que se tem registro. O epistolário, segundo Hugo Brockes, compreende 26 cartas que estavam em Blumenau e 56 que estavam com a sua avó, que se mudou para Goiás com o marido e o cunhado.

Desde então, a família sabia da importância de se guardar as epístolas. “O clima aqui na época era muito úmido, nada adequado para a conservação das cartas. Ela [avó de Brockes] resolveu vender. Um advogado, Carlos Pereira de Magalhães, que estava negociando umas terras do meu pai, se prontificou a encontrar um comprador. Ele entrou em contato com o Mackenzie, de São Paulo, que intermediou a venda para a Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Acredito que essas cartas se perderam com a transferência da sede da universidade para o lado oposto da ilha de Manhattan”, cogita Hugo Brockes.

Boa parte desse precioso material histórico foi compilado no livro “Dear Mr Darwin”, de Cezar Zillig, requintadamente editado em alusão ao centenário de Fritz Müller. No volume, encontram-se 39 cartas – e/ou fragmentos delas – de Charles Darwin a Fritz Müller e 34 cartas do “blumenauense” para o britânico. A correspondência encerrou-se com a última carta de Darwin para Fritz Müller em 4 de abril de 1882 (dela há apenas um fragmento), quinze dias antes do seu falecimento. Fritz Müller morreu 15 anos depois, aos 75 anos, em Blumenau, em 21 de maio de 1897.

“Príncipe observador da natureza do Brasil”

Johann Friedrich Theodor Müller, ou simplesmente Fritz Müller, teve uma história de vida fascinante – repleta de lances dramáticos, sofrimentos (como o suicídio da filha Rosa, sua predileta), lutas, esperanças e desenganos -, que já despertou o interesse de historiadores, cientistas e admiradores – como Edgar Roquette Pinto (1979), José Ferreira da Silva (1931, 1971), Friesen Nascimento (2000) e Cezar Zillig (1997, 2004). Parte significativa dessa história começou quando, aos 30 anos, Fritz Müller decidiu deixar a Alemanha. Formado, mas sem ânimo para seguir na profissão, queria tomar outro rumo. Desde jovem, nutria um fascínio pelos trópicos, alimentado por relatos de cientistas viajantes, como Alexandre Von Humbolt e Carl Friedrich Philipp von Martius.

Uma série de outras situações forçaram esse interesse além-mar: a Revolução Francesa de 1848 e a Comuna de Paris, a onda emigratória que tomou conta da Alemanha e as fascinantes histórias de vida livre e repleta de riquezas no Novo Mundo. Nesse contexto, o Brasil e toda sua natureza exuberante avultaram-se como um dos destinos de maior interesse. Mas foram os imbróglios familiares que fizeram com Fritz Müller cortasse definitivamente os laços com terra natal. “A história era muito complicada, porque meu bisavô era ateu e seu pai era pastor protestante. Diferenças que os colocavam constantemente em conflito. Frtitz Müller era tão radical em suas ideias que se negou a fazer o juramento de formatura no curso de Medicina. Ele se recusou a pronunciar a palavra <Deus>. Resultado: acabou ficando sem o diploma do curso. Ele queria ser médico de navio porque sabia que, trabalhando a bordo, poderia conhecer o mundo”, conta Brockes. O desgosto do pai de Fritz Müller ficou ainda maior quando o jovem se apaixonou por uma camponesa, Karoline; união da qual nasceu um neto ilegítimo, e logo o primeiro. O pastor Müller jamais conheceu a menina.

Capa do livro A Origem das Espécies, de 1859

Pois eis que Fritz Müller veio parar em terras tupiniquins, instalando-se na colônia que havia acabado de ser fundada por um de seus compadres – Hermann Bruno Otto Blumenau. A colônia era justamente Blumenau, em Santa Catarina. Não como cientista financiado, e sim como mais um rosto na multidão de colonos que disputavam espaço numa embarcação lotada. Os primeiros anos por aqui foram de muitas provações, em nada se assemelhando ao conforto e a erudição que Fritz Müller partilhava na Europa. Precisou desbravar a floresta, lavrar a terra para o cultivo, construir a sua casa e atuar como único médico da colônia em condições precárias. A companheira Karoline, sempre cordata, jamais reclamou da situação. Transcorridos quatro anos, ele foi lecionar Matemática em Desterro (Florianópolis/SC), onde permaneceu trabalhando onze anos como professor – ao mesmo tempo em que realizou inúmeras observações na floresta e no litoral catarinense.

No litoral do Brasil Imperial, Fritz Müller conheceu o livro de Darwin. A cópia de “A Origem das Espécies” chegou por intermédio de Max Schultze, professor alemão de Zoologia. Enquanto Darwin e seus colaboradores, no debate com outros coletivos (como o corpo científico da Igreja da Inglaterra), buscavam uma nova linha de pensamento para explicar, bem como orientar a formulação e a investigação de problemas, sobre a evolução dos seres vivos, Fritz Müller, confinado ao sul do Equador, corroborava a hipótese da seleção natural, estudando crustáceos em Desterro.

Aqui formou família e viveu por mais 45 anos, se tornando um pioneiro paradigmático da colonização germânica no sul do País. Racionalista e agnóstico, sofreu muito para se adaptar. Em seus escritos, elogiava qualidades nos negros que eram impedidas pela escravidão e via no índio um ser humano e não um selvagem a ser exterminado, como postulavam alguns de seus patrícios. Partidário, abraçou as lutas políticas nos primeiros anos da República brasileira, tomando partido na luta federalista, o que lhe custou o emprego na prefeitura de Blumenau. O espírito rebelde e contestador parece ter sido herdado por Hugo Brockes, que foi preso e torturado durante a ditadura por sua militância política. “Fui um dos primeiros a denunciar a tortura em Goiás”, recorda-se. Fritz Müller nunca mais voltou para a Alemanha. “Não troco meu mato pela civilizada Alemanha”, dizia, orgulhoso até o fim de sua decisão.

Habilidades línguas e desenhos

Por diversas vezes, Darwin fez questão de ressaltar o inglês “impecável” de Fritz Müller. “Estou muito obrigado por sua interessante carta, escrita em um tão bom inglês, sobre as plantas trepadeiras”, escrevia o britânico em carta de 20 de setembro de 1865. Em outubro do mesmo ano, voltou a comentar: “O senhor escreve um inglês tão bom como se fora britânico”. Segundo o bisneto Hugo Brockes, “Fritz tinha uma facilidade imensa para aprender novas línguas. Ele correspondia com outras pessoas em 19 idiomas. E aprendeu sozinho.”

As cartas entre os cientistas levavam muito mais que literatura. Fritz Müller tinha uma habilidade excepcional para o desenho e ilustrava os seus escritos com figuras esmeradas. Tal capricho não passou despercebido por Darwin. “Me sinto culpado pelo senhor ter dissipado seu precioso tempo fazendo tão belos desenhos para meu entretenimento.” Em carta anterior, Darwin já havia agradecido os “elegantes desenhos” da planta de baunilha que Fritz Müller enviara. Graças a essa habilidade, além de sua dedicação, Fritz caiu nas graças do seu professor de Anatomia Comparada e Fisiologia, Johannes Müller, tido pelos demais alunos da faculdade como severo e inacessível.

É interessante perceber que claramente formou-se uma rede de contato entre os cientistas, que tinham vários amigos em comum. Entre eles, os professores Hildebrand (Freiburg), Agassi (Cambridge Mass.), Ernest Haeckel, Weimann (Freiburg) e Milne Edwards. Também é interessante verificar que a correspondência destinava-se basicamente à troca de experiências entre os dois cientistas, mas também instigação e estímulo mútuo.

Nova edição de “A Origem das Espécies”

Nova edição de “A Origem das Espécies” | Foto:: Reprodução/Edipro

O leitor brasileiro tem sorte. Acaba de sair uma nova edição do livro “A Origem das Espécies” (Edipro, 480 páginas), de Charles Darwin. A tradução é de Daniel Moreira Miranda.

A editora informa: “Esta nova tradução de ‘A Origem das Espécies’ destaca-se por ter sido elaborada com base na primeira edição do texto, de 1859, que depois passaria por alterações do próprio autor em consequência das inúmeras pressões da imprensa e da comunidade científica do século 19. Sem cortes e censuras, este volume traz a teoria darwinista original, em vez de seguir a prática de tomar como base a sexta edição da obra, então já amplamente alterada.

A pesquisa de Darwin foi tão rigorosa e precisa em seu primeiro manuscrito que, hoje, estas hipóteses são comprovadas pela comunidade científica. Com prefácio e notas do doutor Nelio Bizzo, um dos maiores especialistas em darwinismo no Brasil, esta edição realça a importância histórica desta que é a principal obra da biologia de todos os tempos”.

 “Prezado Mr. Darwin”

Estátua de Charles Darwin no Museu de História Natural de Londres | Foto: Wikkimedia Comons

A troca de cartas entre Charles Darwin e Fritz Müller durou 16 anos e alguns meses. Em meio a suas atribuladas rotinas, mantiveram o hábito de escrever cartas que permitem a nós, da posteridade, conhecer os detalhes da intimidade que existiu entre essas duas privilegiadas mentes humanas.

Os escritos abaixo foram extraídos de “Dear Mr. Darwin”, de Cezar Zillig, que baseou-se essencialmente na tradução de outras duas obras capitais: “Fritz Müller – Werke, Briefe und Leben”, de Alfred Möller (sobrinho de Fritz Müller), e “Life and Letters de Charles Darwin”, de Francis Darwin, filho do britânico.

As traduções procuraram manter-se o mais próximo possível dos textos originais, o que permite que o leitor adentre nesse universo tão particular, deleitando-se com a “atmosfera emocional” e “sabor literário” criado pelos autores.

Confira:

A FRITZ MÜLLER

Don, 10 de agosto de 1865

Meu caro senhor,

Estive por um longo período tão doente, que somente agora acabo de ter ouvido as leituras de suas obras sobre espécies, que me foi feita em voz alta. Agora, o senhor me permita lhe agradecer cordialmente pelo grande interesse com o qual eu li. O senhor fez um admirável serviço pela causa em que ambos acreditamos. Muitos de seus argumentos me parecem excelentes, e muitos de seus fatos, maravilhosos. Dos últimos, nada me surpreendeu mais do que as duas formas de machos. Ultimamente tenho investigado casos de plantas dimórfas e gostaria muito de lhe enviar um ou dois de meus artigos, desde que eu saiba como. Enviei recentemente pelo correio, um artigo sobre plantas trepadeiras, como experiência, para ver se ele lhe chega às mãos. Um dos pontos que mais me impressionou no seu trabalho, é sobre a diferença no aparelho de respiração aérea de diversas formas. Este ponto me parece muito importante quando eu considerei anteriormente o aparelho elétrico dos peixes. Suas observações sobre a classificação e a embriologia, me parece muito bons e originais. Eles mostram que há um maravilhoso campo de investigação sobre o desenvolvimento dos crustáceos e nada me convenceu tão plenamente de que deveremos obter admiráveis resultados no âmbito da História Natural no curso de poucos anos. Que fantásticas cadeias de estruturas os crustáceos apresentam e quão bem adaptados eles são, segundo suas investigações! Até ler seu livro, eu nada sabia sobre os Rhizocephalos; verifique meu relato e ilustrações sobre Anelasma, pois me parece que este último cirripede é um belo elo de conexão com os Rhizocephalos.

                Se o senhor tiver alguma oportunidade, sendo um habilidoso dissecador, eu gostaria muito que o senhor desse uma olhada no orifício da base do primeiro par de cirros nos cirripedes, e no curioso órgão que ele contém, e descobri qual é a sua natureza; suponho que eu esteja errado, embora não possa me sentir totalmente satisfeito com as observações de Krohn. Ainda, se o senhor encontrar algumas espécies de Scalpellum, procure por machos complementares; recentemente um autor alemão duvidou de minhas observações sem razão alguma, exceto que os fatos lhe pareceram tão estranhos. Permita-me novamente, agradecer-lhe cordialmente pelo prazer que tive derivado de seu trabalho e expressar minha sincera admiração pelas suas valiosas pesquisas. Creia-me, caro senhor, com sincero respeito, seu muito fiel,

C L Darwin

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A CHARLES DARWIN

 Desterro, Brasil, 10 de outubro de 1865

Venerável Senhor!

                Ontem recebi sua amistosa carta de 10 de agosto, e me sinto lisonjeado com o interesse que o senhor demonstrou pelo meu pequeno livro sobre as espécies; considero-me sobejamente recompensado por ele ter-lhe proporcionado alguma satisfação. Agradeço de coração, o senhor ter me enviado sua fotografia; estou feliz em possuí-la e espero logo estar em condições de enviar-lhe a minha; no momento não tenho foto alguma. Aceito com gratidão a oferta que o senhor me fez de enviar sua obra de orquídeas, que eu gostaria muito de ler; como os livros sempre perdem algo de seu interesse através das traduções, eu preferira a edição britânica à alemã. Quando sua carta chegou, eu justamente escrevia a últimas linhas de um ensaio sobre o xilema das plantas trepadeiras. Na suposição que ele venha a lhe interessar, envio-lhe em anexo. Quando o senhor tiver feito uso dele, queira por gentileza enviar ao Professor Max Schultze da Universidade de Bonn, ou caso o senhor tenha um tradutor, talvez o trabalho poderia ser publicado em alguma revista inglesa. Por seu lado, Professor Max Schultze vai lhe remeter um pequeno ensaio sobre uma notável esponja, que será publicado em seu arquivo sobre anatomia microscópica. Quando, em anos passados, iniciei a estudar as esponjas das nossas costas, encontrei grandes dificuldades de empregar sua teoria nesta classe. Há, como o senhor sabe, espículas, calcáreas em algumas esponjas e espinhos com sílica tenham se transformado em calcáreas ou vice-versa. Às vezes, suas formas são tão semelhantes que mal se pode supor que elas tenham origens independentes; por outro lado, parecia muito improvável que as espículas eram formadas de substâncias orgânicas e posteriormente, em alguns dos descendentes as espículas incrustavam com sílica, e outros com substâncias calcáreas. Fui fortalecido nesta opinião através da descoberta da espécie que trato em meio ensaio, o qual tem belas espículas córneas de considerável tamanho…

… Minhas crianças cultivam uma planta da Linum usitatissimun e, nesta, minha filha Rosa notou que a ponta do caule, o qual antes da abertura da flor estava um tanto curvado, possuía um movimento revolucionário próprio, que acompanha o sol, ou seja, uma vez que vivemos no Hemisfério Sul, era um movimento anti-horário. Encontrei o fato confirmado e que uma revolução se completava num período de mais ou menos oito horas; o movimento era bastante irregular; às vezes permanecia toda uma hora imóvel e então era tão rápido, que ao manter este compasso completaria o círculo em 2 a 3 horas. Os próximos dias foram muito ventosos, de tal maneira que não pude prosseguir minhas observações.

Com relação ao Anelasma, o senhor deve ter deduzido das minhas primeiras cartas, que eu também considero como um bonito elo entre os Cirripedien e os Rhizocephalen ou os Cirripedia suctoria (?) . como eles são chamados por Lilljeborg, embora eles não possuam nem cirros nem qualquer espécie de “aparelhos suctores”.

Com o desejo de que esta carta possa lhe encontrar em bom estado de saúde, sou, nobre senhor, com sincera e elevada consideração, se fiel

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A FRITZ MÜLLER

Down-Bromley, Kent S. E. 23 de Agosto de 1866

Meu caro senhor, tenho sido muito negligente em não ter lhe agradecido mais cedo por sua preciosa carta de primeiro de junho. Muitos dos fatos que o senhor menciona, são muito curiosos e interessantes, e caso eu venha a publicar um suplemento do meu livro sobre orquídeas, deverei fazer uso de alguns deles. Estou muito surpreso sobre o que o senhor diz sobre as grandes flores que produz mal as sementes. Estou especialmente interessado no caso de uma das Epidendreae que tem pólen para ser removido por insetos e outros para a autofertilização.

Sua carta com elegantes desenhos e flores secas é um bonito objeto. O caso da Bourlingtonia é inteiramente novo. Quanto ao curso dos vasos nos vários órgãos da florouso dizer quesua interpretação pode estar certa, e tenho pequena dúvida que a minha estav errada…

C L Darwing

P.S.: Esqueci de lhe agradecer pelo belo desenho da planta de baunilha.

 

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