Filme sobre a infância de Cora Coralina com roteiro de goiano chega aos cinemas do Brasil

Longa “O Colar de Coralina” que entrou em cartaz em circuito nacional neste último fim de semana tem roteiro do goiano Geraldo Lima, natural de Planaltina e radicado em Brasília. Em entrevista ao Jornal Opção, ele fala do processo de criação e de sua expectativa para o filme

“Minha bisavó traduzia, com sentimento sem igual, a lenda oriental estampada no fundo daquele prato”. A fala da menina Aninha revela a profunda ligação afetiva da personagem com o prato azul-pombinho, último de uma coleção de noventa e duas peças, pertencente à sua bisavó Antônia. O solilóquio abre o trailer do longa-metragem “O Colar de Coralina”, que após prévia exibição aos conterrâneos em fevereiro do ano passado durante a mostra de cinema “O Amor, A Morte, As Paixões”, entrou em cartaz no circuito nacional.

Com direção de Reginaldo Gontijo e a estrela Letícia Sabatella na dianteira do elenco, no papel da taciturna mãe Jacintha, o filme tem a proposta de mostrar ao público quem foi Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, muitos e muitos anos antes de se tornar a célebre Cora Coralina.

Cora Coralina nasceu na cidade de Goiás, então capital do Estado, em 20 de agosto de 1889. Começou a escrever poemas e contos aos 14 anos. Viveu por muito tempo de sua produção de doces, se achava mais doceira do que escritora. Aos 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores. Em 1965, aos 75 anos, ela conseguiu realizar o sonho de publicar o primeiro livro.

As reminiscências vão descortinando a infância da futura poetisa e doceira, que mesmo em meio à tanta dificuldade e opressão, não deixou-se tragar pela rudeza da realidade. Considerada uma criança feia, frágil, desajeitada e oprimida por praticamente todos, encontrou na imaginação um meio de escape para poder encontrar a real beleza da vida, vendo poesia até mesmo em singelos detalhes, com o jogo da amarelinha. A história da pequena Cora chega ao público com essa verve tão delicada e lúdica graças ao olhar de um goiano.

O escritor Geraldo Lima, natural de Planaltina (GO) e atualmente radicado em Brasília, assina o roteiro de “O Colar de Coralina”, sua primeira incursão no universo do cinema. Em entrevista ao Jornal Opção, ele fala de sua expectativa sobre o filme e do processo criativo de escrita do roteiro. “A mensagem, que é de superação, precisa chegar ao maior número possível de pessoas”. Confira:

O escritor Geraldo Lima. Foto: Divulgação/Angelo Araújo

Como surgiu o convite para fazer o roteiro?
O Reginaldo Gontijo, diretor do filme, me telefonou e disse que tinha uma proposta de roteiro para me fazer. Me disse que seria um filme inspirado no poema O prato azul-pombinho, da Cora Coralina. Me falou por alto qual era seu objetivo com o filme e que precisava do roteiro pronto, na sua primeira versão, em vinte dias. No dia seguinte, ele apareceu aqui em casa, me apresentou o argumento do filme, disse que tinha que ter o jogo da amarelinha, que seria um filme para toda a família, que a história do casal de namorados chineses, contada pela bisavó da Cora, aparecesse também etc. Bom, eu já conhecia a poesia da Cora, o primeiro presente que eu dei para a minha esposa, quando começamos a namorar, foi o livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, e quando eu estava cursando Letras, ela, já velhinha, mas lúcida e com uma voz potente, esteve na faculdade para um bate-papo com os alunos. Então, não pensei duas vezes e disse para o Gontijo que topava fazer o roteiro. Em quinze dias eu entreguei o primeiro tratamento do roteiro para ele.

É seu primeiro trabalho com cinema?
Que se concretizou de fato, sim. Escrevi um roteiro de longa-metragem na década de 1980, para participar de um concurso promovido pelo Minc, mas não deu em nada. Depois escrevi mais dois roteiros, só para treinar, e fiquei um bom tempo sem escrever nada nessa área. Só voltei a trabalhar com roteiro em 2012, com o convite do Reginaldo Gontijo. Este ano, já colaborei na criação de um roteiro sobre a vida do poeta Augusto dos Anjos e terminei um de curta-metragem, ainda sem projeto de filmagem.

Geraldo durante as filmagens na casa de Cora na Cidade de Goiás, com parte do elenco. Foto: Maura Lima

Como foi o processo de escrita do roteiro? Quais aspectos você procurou destacar?
Eu tinha pouco tempo, então não pude seguir rigorosamente os passos recomendados pelos manuais de roteiro. E estruturar a história proposta pelo Gontijo não me parecia fácil. Eu teria que ligar o momento em que Cora Coralina, em 1956, conta a história do prato azul-pombinho para as amigas ao momento em que ela, com nove anos de idade, em 1899, ouve da bisavó Antônia, a partir das ilustrações inscritas do prato, a história do casal de namorados chineses. Reli outros textos de Cora, tanto de prosa quanto de poesia, e fiz, obviamente, uma pesquisa sobre a sua vida adulta, o que me fez enxergar com mais amplitude a situação que a história contada pelo filme abarca: a sua relação afetiva com o prato azul-pombinho e o castigo que lhe é aplicado pelo que acontece com esse prato. Cora, que naquele momento era apenas Aninha, sofre por ser desajeitada, tinha as pernas moles e era chamada de inzoneira. Então, usei a Amarelinha, que era para ser um elemento apenas lúdico, como um obstáculo [ela não consegue passar de uma das casas] que ela vai tentar, a todo custo, ultrapassar. E é essa tentativa de vencer esse obstáculo, de se superar frente aos olhares de desapreço dos outros, que procurei realçar ao longo da história. É a identidade da Cora adulta, que vai se mostrar uma mulher forte e uma poeta sensível e crítica, que está sendo forjada naquele momento. O convívio dela com a mãe, a Senhora Jacintha, e com a bisavó Antônia também foi destacado: ambas moldam, cada uma a seu modo, parte da personalidade de Cora.

Qual sua expectativa para o filme?
Que ele faça muito sucesso. Ficou lindo, merece ser visto por adultos e crianças. Esse é o objetivo almejado pelo Gontijo. A mensagem do filme, que é de superação, precisa chegar ao maior número possível de pessoas. E como o filme vai ter uma boa distribuição, chegando a várias cidades do país, creio que tem tudo para dar certo.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de vários livros, como “A Noite dos Vagalumes”, “Baque”, “Nuvem Muda a Todo Instante” e “Uma Mulher à Beira do Caminho”. Participou das antologias: Antologia do Conto Brasiliense (Projecto Editorial, org. por Ronaldo Cagiano) e “Todas as Gerações – O Conto Brasiliense Contemporâneo” (LGE Editora, org. por Ronaldo Cagiano). Participou também do Projeto Portal: Revista Solaris e Revista Neuromancer, org. por Nelson de Oliveira. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites. É autor do Baque – Blog do Geraldo Lima http://baque-blogdogeraldolima.blogspot.com/

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