Festival de Bonecos, Galhofada e Mostra Mamulengo: atores bonequeiros apresentam brincadeira de gente grande

Nas próximas semanas, a capital goiana recebe grupos teatrais de todo o Brasil e já avisa: os protagonistas são pra lá de inusitados

O espetáculo “Pedro e o Lobo” é do grupo mineiro Giramundo, que compõe o Museu, Teatro, Escola, Estúdio de Animação e Produtos, que é referência na área

O espetáculo “Pedro e o Lobo” é do grupo mineiro Giramundo, que compõe o Museu, Teatro, Escola, Estúdio de Animação e Produtos, que é referência na área

Yago Rodrigues Alvim

Ainda que brincasse na rua de pique, corda e arriscasse até futebol –– arrancando sempre o tampão do dedo, ele era um daqueles meninos quietos, que viviam num mundo das caixas de brinquedos. Não desgostava dos carrinhos, apenas apreciava mais os bonecos ou, em seu léxico infantil, os “hominhos”. Tinha muitos. Power Rangers, Street Fighter, Digimons, Pokémons e outros de desenhos menos conhecidos. Ainda salva alguns numa caixa lá ao fundo do guarda-roupa. Baús de memória, coisa de saudade.

Sozinho ou com os poucos amigos pelos quais se afeiçoara na rua de sua casa, ele brincava. Eram muitos. Brincava de fulano que era apaixonado por ciclano, que queria a outra acolá e que, como J. Pinto Fernandes, não tinha nada a ver com a história. Tinha quadrilha também. Gangs, vilões, monstros à beça. Vampiros bonzinhos, Fran­kensteins amorosos. Homens-aranha voavam por toda mobília da casa. Até o totó entrava na história como uma grande bola de fogo que arrasaria a cidade, sobrando feridos por todo o as­soalho. Era de partir o coração.

Pode confessar que viajou para quando tinha lá seus sete, nove anos? Na falta de memórias com bonecas, ainda que uma vez uma tia o tenha pegado “no flagra” brincando com uma num vestidinho cor de rosa e, na castração por padrões impostos, aquela fora uma das poucas vezes que ele tivera a oportunidade de vivenciar o universo das papinhas, brincadeiras de fogãozinho, maternalidades –– hoje, felizmente já com linhas mais apagadas e, infelizmente, brincadeiras em risco de extinção ––, pode dizer que a história deste garoto o fez viajar para algum lugar de sua infância. Não?

Ainda que de uma coesão um pouco viajada, vale contar que no inglês, o atuar teatral é play. O que os videogames mais te dizem? Play. Jogue, brinque. E das teorias guardadas em páginas de estantes ou em bolsas ambulantes ou criados-mudos, teatralizar tem disso. Vem de presentificar, de jogos de cena, de memória, organicidade. E não há naturalidade/organicidade maior que brincar, recontar estórias inventadas, tais de Guima­rães. Nas aulas de Cênicas, se aprende primeiro a desamarrar, corpórea e mentalmente, as amarras da sociedade já cobertas pela correria desgastante do cotidiano. O ator-pesquisador, antes e primeiramente, descobre. Palpa partes desconhecidas de si mesmo, do outro. Atenta-se ao redor, se enraíza, presentifica histórias que pode vestir num corpo disponível e, ainda assim, seu. Age.

Os objetos, a cena são coisas que podem vir primeiro, como podem vir depois ou nem virem. Ah, estrategicamente, a voz está lá nas partes desconhecidas do próprio corpo. Voz é corpo, as professoras ensinam. De volta aos objetos, cujo vocábulo afasta qualquer afetividade ligada aos hominhos e bonecos, eles po­dem dar vida a um espetáculo –– o fruto de grupos de teatro, ainda que muitos grupos frutifiquem outras delícias. É aí que o Festival de Bonecos entra na pauta: ele está na folhinha deste mês, re­me­morando o valor da infância, do improviso, convidando, feito videogame, a sua memória para uma viagem louquíssima chamada imaginação.

O Festival, ainda que pareça novinho –– até porque, nalgumas embalagens com 4 anos de idade vem lá advertindo que há muitas pecinhas de brinquedos que podem ser engolidas, melhor nem brincar –– ele tem feito jus ao nome, tem feito festa. E das boas. Só para dar uma ideia, tem dado passos, na capital goiana, rumo ao título de centro de produção de teatro de bonecos. Até porque, aqui reside um reconhecidíssimo grupo teatral que, ainda que não trabalhe apenas com esta vertente, já alumiou muitos olhinhos com histórias, à primeira vista, para crianças, lançadas do palco por vozes que saem de bonecos em peripécias. É a Cia de Teatro Nu Escuro.

bonecos

Com trilha sonora de John Ulhôa, da banda Pato Fu, e Bob Faria, “A banda” é do grupo também mineiro, Armatrux

Já com 19 anos de idade, a jornada da cia é de trabalho contínuo, com prêmios e pautas espalhadas por todo Brasil. Recentemente, para se ter uma ideia, lançou uma revista; a primeira edição da revista “Expedições Cênicas” –– um cartão de visita para os demais Estados, como comentou Lázaro Tuim, membro da Nu Escuro. A 4ª edição do Festival de Bonecos conta com a cia, uma parceira da Ação Produtora que assina a realização do evento. Ainda tem lá a Belcar Caminhos, como patrocinadora, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

No time, ainda aparece o Sesc Centro, onde os espetáculos serão apresentados a valores populares; e a Galhofada, que já é um festival mais mocinho, tem lá seus 12 anos, que para um Festival, vale dizer, é adulto respeitável e, considerando a realidade goiana, é ancião.

O elenco, para lá de inusitado, chega em Goiânia de 23 a 31 de maio. É que os bonecos, títeres e mamulengos, os protagonistas dos espetáculos têm das pautas, as mais variadas. Além do Festival de Bonecos e da Galhofada, rola ainda a Mostra de Mamulengos – que é nos primeiros dois dias de Festival (23 e 24).

Dos versinhos de Gonzaga, gente que faz mamulengo é gente que sabe rir. Eles trazem esta arte que encanta pela simplicidade e criticidade sobre os abarrotados di­as do calendário. Só para constar, o Mamulengo foi tombado no último março pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patri­mônio Imaterial brasileiro. Legal, não é mesmo?

O teatro de mamulengo é aquele que nasceu no nordeste e traz consigo elementos dos folguedos ibéricos (das quadrilhas e reisados), além de ser remanescente da Commedia dell’Arte, dos arlequins e colombinas, que delicia da improvisação em roteiros básicos pré-acordados e não fechados em si. Tudo depende da troca, da reação, do acaso. Nisso, o Festival traz, dentro da própria Galhofada, a Mostra que tem dois reconhecidos grupos: Mamulengo Sem Fronteiras, de Brasí­lia, e o goiano Circo Bam­bulengo.

Além dos espetáculos, o Festival realiza uma oficina de Teatro Lambe-Lambe, ministrado pela Cia Mútua de Floripa, em Santa Catarina. Daí dá para entender que a diretora geral do evento, Denise Carrijo, está para lá de contente com os bons resultados do Festival, que nasceu em 2009. Segundo ela, as quatro edições, com suas oficinas com bonequeiros de destaque nacional e in­ternacional e troca de experiências e qualificação, repercutiu pelo Brasil e inseriu o Festival goiano no circuito nacional.

– Há mais de dez anos nós temos vivenciado o teatro produzido aqui, e temos trabalhado na produção de espetáculos e de mostras, como a Galhofada. Com esse contato pudemos perceber que havia um interesse de alguns grupos por descobrir o teatro de bonecos, de animação, de manipulação, mas poucos tinham a oportunidade de sair daqui para fazer cursos e para conhecer os trabalhos feitos em outras localidades. Foi assim que resolvemos preencher essa lacuna, trazendo esse trabalho para o nosso quintal. Nossa preocupação, desde o começo, foi criar oportunidades de formação para o ator goiano, e tentar enriquecer as experiências que já aconteciam por aqui, como no caso da Nu Escuro, diz Carrijo.

A programação completa do evento você pode conferir pelo evento criado na rede social Facebook com o título “IV Festival do Boneco –– 23 a 31 de maio –– Goiânia/GO”.

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