Escritor como personagem (3): Edgar Allan Poe — O insuspeito, de CJ Oliveira

Uma mulher é assassinada. O poeta e prosador Poe está próximo. Seria o escritor um assassino? Delegado o põe na cadeia

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Edgar Allan Poe — O insuspeito

CJ Oliveira

É meia-noite do dia 7 de agosto de 1849 em Richmond. Dois meses, portanto, do fatídico acontecer. Na Rua Wall Street, quase em frente à lanchonete mais famosa da cidade, um homem se destaca da sombra, sai de uma taverna, atravessa para o outro lado da calçada, trôpego. Visivelmente embriagado, ainda discute com a mulher do cabaré em frente, antes de se aventurar pelo beco oposto, onde quase todo dia se recosta na mureta da escada que divide os casebres, apreciando a noite. Como um romântico põe-se a curtir o cenário de estrelas que se desponta nesse céu arroxeado da Virginia, e que tanto encanta bêbados e poetas. Esse homem é ninguém menos que o poeta e escritor Edgar Allan Poe, que ultimamente tem vagado as noites à procura de um destino e de si mesmo. Segundo ele próprio, tem motivos pessoais pra isso. As causas que o levam a uma vida marginal é o perfeito roteiro para um longa-metragem.

Na rua paralela, do outro lado da quadra, uma mulher ainda jovem é brutalmente assassinada. O assassino antes de matá-la a amordaça primeiro com um pano verde, uma longa tira de tecido que mais parece um turbante. Impedindo-a de qualquer grito ou reação, fica fácil sufocar a vítima em pleno véu da noite. O sangue rutilante que escorre pelo asfalto não demora ser coagulado pelo ar denso e fino que beija o chão do beco. Uma facada fatal atravessa o coração da moça, que estremece mais uma vez antes de deixar este mundo e agonizar, soltando o último suspiro. O malvado quase geme de prazer no deleite perverso que é sentir aquele sangue quente escorrer-lhe pelo dorso da mão direita, enquanto pressiona a faca com a precisão cirúrgica dos matadores furtivos.

A cidade grande se reveste de criminosos. Há dias há suspeitas na capital de um serial killer, andando à solta como se fosse o fantasma de Londres. O que o diferencia dos demais é o hábito de após cometer o crime escrever versos macabros e deixar pregado no sangue no corpo da vítima. Nesse último assassinato podia-se ler em letras tremidas garrafais: “Decepo-a como a mesma maciez de quem descasca uma laranja…” — uma perfeita cena de terror.

Ocultado pela penumbra das casas noturnas, o matador segue manso pela rua principal, deserta àquela hora da noite, recitando a si mesmo de forma quase inaudível os macabros versos. Atrás dele, na frente da boate há um ajuntamento de pessoas, mas ninguém percebe nada. O burburinho que fazem falando todos ao mesmo tempo cessa devagar, e ele escapa sozinho sumindo na escuridão.

No outro dia, assim que amanhece, a polícia identifica a vítima, já tesa e gélida debruçada numa pequena poça de sangue. Paralelo ao corpo ali estendido, os terríveis versos do estranho matador são a única pista da polícia local.

Na rua paralela à do crime, no outro beco, Poe ainda ronca sob o restinho do orvalho da madrugada, arrotando o gosto do uísque barato que lhe escorre pela boca. Ultimamente o álcool e a indisciplina o têm consumido. Investigando os arredores, a polícia o encontra caído no chão, com uma faca suja e enferrujada. Para a polícia, a possível faca do crime. Sem provas maiores, um sargento o prende como bode expiatório, dando assim uma resposta à sociedade e aos jornalistas. Leva-o ao delegado da central de homicídios.

— Esse sujeito foi pego embriagado no outro beco próximo ao corpo da vítima.

— Ah, não… Outro crime bárbaro! Já é o terceiro só neste mês…

— Infelizmente, sim. É uma mulher de uns trinta anos mais ou menos — responde o sargento: — E detalhe, doutor: do lado do sujeito aqui encontramos esta faca suja e enferrujada.

— É a faca que eu uso para descascar frutas.

— Descascar frutas ou matar mulheres? — Questiona o sargento.

— Mas eu não matei ninguém!

O chefe de polícia interrompe os dois com a pachorra típica dos delegados. Pergunta:

— Qual o seu nome?

— Edgar Allan Poe — responde ele.

Depois de soltar uma longa baforada no cachimbo velho de madeira preso à boca, o delegado custa reconhecê-lo em sua forma decrépita ressacado pela bebida:

— Poe, o escritor da Southern Literary Messenger?

— Sim, o que lhe parece?

Antes de qualquer indagação, o emissário de polícia aterrorizado espia Poe de alto a baixo, admirando como um homem que já foi editor da maior revista literária da cidade se encontra num estado precário como aquele, roto e de chinelos.

Então, com a diligência dos grandes xerifes, pergunta indo direto ao ponto:

— O que o senhor fazia caído num beco ao lado do corpo da vítima?

— Mas que vítima? Do que estão falando? Eu não sei de nada! — falou, recobrando os sentidos.

— A vítima morta no beco da Street Flowers.

— Mas eu não estava na Street Flowers, doutor! Estava no beco em frente à boate Pink Phanter!

— Sim, é verdade! O senhor estava no outro beco… E fazendo o quê, numa hora daquela, posso saber?

Edgar pôs-se a explicar, relembrando a noite anterior:

— Fui na boate encontrar uma dama. Cheguei lá e a encontrei com outro. É uma mulher com quem costumo ficar. Fiquei fulo da vida ao vê-la com outro parceiro. Então bebi um pouco demais, acho… Depois saí, e sentei na calçada do beco ali em frente, para apreciar a noite, e quando dei por mim, adormeci! Foi só isso!…

— E a moça morta no outro beco paralelo ao seu?

— Não sei de moça nenhuma! O que o senhor quer que eu diga?

— Foi encontrado junto dela uns versos sinistros. Não eram seus? O senhor não é poeta?

— Não, não eram meus… Não mato nem uma barata!

— Mas o senhor não faz poemas de terror?

— Sim, às vezes. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

— Calma, seu Poe. O senhor parece nervoso.

— Não é isso, mas as suas perguntas não tem o menor cabimento.

— Estamos aqui para fazer perguntas, saiba o senhor! E quem não deve não teme.

O delegado de novo:

— E esta faca?

— Já disse que ando com uma faca apenas para descascar frutas. E me defender de marginais.

— Descascar frutas…? Defender de marginais?… O senhor acha que eu sou algum idiota, sr. Poe?

— Absolutamente. Não foi isso que eu quis dizer.

— Então o senhor admite que com ela pode até matar, dependendo da ocasião.

— Já disse: não sou capaz de matar nem uma barata.

— Não é o que parece, sr. Poe. Esta história está muito estranha.

De novo, Poe na defensiva:

— Isso é um absurdo! Eu não tenho nada a ver com esse crime! — disse gritando.

— Se não parar de se exaltar será preso agora por desacato a autoridade.

— Mas eu não matei ninguém, doutor! Não matei ninguém!

Nisso, o sargento na retaguarda lhe dá um safanão no pescoço:

— Aqui não é lugar de gritar! Onde pensa que está? Isto aqui é uma delegacia e não um prostíbulo que o senhor frequenta!

— Que arbitrariedade! Que arbitrariedade! — Falou Poe, levando a mão ao pescoço, sentindo a dor da pancada se espalhar pela cervical.

Ao que o delegado, se sentindo ofendido, já ordenava:

— Deixa de molho até amanhã!

Sujo e amarrotado, parece um mendigo. Segurando-o pela gola da camisa, o sargento o dirige até a cela mais próxima. Não sem antes ouvi-lo, aos protestos:

— Isso é um absurdo! Eu não fiz nada!… Eu não fiz nada!… Eu quero um advogado!… Sargento! Sargento!… — Os seus gritos ecoam pelo corredor das celas e se perdem a esmo.

No dia 7 de outubro de 1849, se viu vagando quatro dias pelas ruas mais estranhas da cidade como um legítimo andarilho, doente, pobre e só, e a pesada noite fechando hediondos caminhos desceu sobre ele o manto azul da morte, e aí, nunca, nunca mais

Um preso do lado, na outra cela, ao reconhecê-lo fica perplexo por dividir a carceragem com um escritor de certa fama.

Durante o dia, as investigações continuam. O prefeito de Richmond cobra do delegado urgentes providências. Três crimes bárbaros em um mesmo mês com requintes de crueldade é o fim da picada: não há governo que sustente isso. Os jornais não se calam, propalam o terror. A capital da Virginia do Norte nunca fora tão achincalhada ao longo dos anos. Aos poucos, se torna a cidade mais violenta dos Estados Unidos. Pior até do que Nova York.

No dia seguinte, novas averiguações levam os peritos ao local do crime.

— O que tem na mão, sargento?

— As fotos da mulher morta no beco, em diversas posições.

Olhando as fotos de todos os ângulos, o delegado não chega a conclusão alguma, o que de certa forma já é uma conclusão.

A cidade é muito grande para se colocar um guarda em cada esquina — é a única coisa que pode concluir com precisão no momento. Todo criminoso deixa um rastro por onde passa, uma pista qualquer, um deslize, e esse não foi diferente. Os peritos descobrem paulatinamente: há pegadas de sangue do criminoso deixando o beco rumo à avenida principal. Pelo tamanho da pegada, o assassino parece calçar quarenta e quatro. Conferindo depois as pegadas com o pé de Poe, o único detento que tem nas mãos, o delegado conclui que ele de fato não é o assassino. É apenas um vagabundo a perambular pela cidade. Está, portanto, diante de um insuspeito. Não justifica mais mantê-lo preso além de um dia.

Ao chegar à delegacia na presença dos peritos manda chamá-lo e lhe dá voz de soltura.

— Está livre, sr. Poe. Mas vê lá por onde anda, hem! E da próxima vez, respeite mais as autoridades constituídas!

— Sim, senhor, me lembrarei disso! Com licença!

E sai para a rua, gozando o infinito prazer que é respirar a liberdade da vida. O que não bastou para que se colocasse um freio definitivo em seu comportamento.

À noite volta à boate Pink Phanter, volta a beber. Como um inveterado cai no vício e na boemia dos notívagos sem solução. Longe se vão agora os dias em que fora editor da Revista Southern Literary Messenger, da qual fora demitido por sua extravagância. Nessa época, ganhava dinheiro e vivia dos seus escritos. A fama de escritor suplantava o homem atordoado que não raro vagava as ruas, sempre a procura de algo que nunca encontrava. O que não o impedia de passar dificuldades, gastando inclusive vultosas quantias no jogo. A esposa, morta por tuberculose, contribuía também para justificar sua vida desregrada, em constante procura por um novo caminho. Emprego nenhum era capaz de contê-lo. Os parentes afastaram-se, os amigos fugiram. Aos que não têm paz só resta mesmo procurá-la em alguma parte (busca inútil), pois em geral não achámo-la fora de nós.

Sem ter para onde ir, acabou parando em Baltimore, Maryland, Estado vizinho, logo após ter tido novos problemas com a polícia. O mesmo delegado quase o prende novamente por se envolver em brigas nas boates e nos cassinos. Abandonando a Virginia, nunca mais retornaria ao porto onde nasceu. Tinha a ideia constante de fundar e viver do próprio jornal, o que nunca ocorreu por motivos óbvios. E antes que realizasse os seus intentos um corvo parece ter pousado de vez nos seus umbrais, revolvendo a inquietação dos dias que o sufocava. A amargura tomava conta dele, completamente, e a sociedade americana lamentava o seu fim como quem luta por um filho perdido.

No dia 7 de outubro de 1849, se viu vagando quatro dias pelas ruas mais estranhas da cidade como um legítimo andarilho, doente, pobre e só, e a pesada noite fechando hediondos caminhos desceu sobre ele o manto azul da morte, e aí, nunca, nunca mais.

CJ Oliveira é escritor.

3 respostas para “Escritor como personagem (3): Edgar Allan Poe — O insuspeito, de CJ Oliveira”

  1. Avatar Debora Lopes disse:

    Excelente conto, envolvente do começo ao fim, parabéns ao escritor CJ Oliveira.

  2. Avatar Camila disse:

    Excelente conto! Muito interessante a proposta de um autor na pele de personagem. Parabéns!

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