Escritora lança livro sobre a influência árabe na literatura brasileira

No recém-lançado livro, a professora goiana Moema Olival mostra como a narrativa ficcional de autores se entretece com dados relativos ao povo e costumes árabes

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Com 14 livros de ensaios publicados, Moema de Castro, além de ensaísta, é crítica literária e professora emérita da Universidade Federal de Goiás (UFG) | Fernando Leite

Com 14 livros de ensaios publicados, Moema Olival, além de ensaísta, é crítica literária e professora emérita da Universidade Federal de Goiás (UFG) | Fernando Leite

Quando os portugueses chegaram a Moçam­bique, ao final do século XV, algumas cidades já floresciam na chamada “contracosta africana”, onde os bantos negociavam com outras partes da África, do Oriente Médio e da Índia. A influência árabe nesses portos era forte e o suaili era a língua franca do comércio. Foi da fusão das comunidades bantas e dos árabes que nasceu a cultura suaíli, presente no litoral do Norte de Mo­çam­bique, do Quênia e da Tanzânia. Mas, até hoje, por razões várias, que incluem motivações geopolíticas, pouco tem sido estudada essa influência na Literatura Moçam­bicana em Língua Portuguesa.

No Brasil, essa influência também tem sido vista com pouca (ou nenhuma) atenção, ainda que a presença árabe por aqui seja mais recente. Para corrigir, ou amenizar, essa falha, a professora Moema de Castro e Silva Olival acaba de publicar “A Literatura Brasileira e a Cultura Árabe” (Goiânia, Editora Kelps, 2015), que reúne ensaios sobre seis escritores brasileiros de origem libanesa, destacando a significativa contribuição dos imigrantes árabes para a formação cultural do país.

É de se lembrar que hoje são mais de seis milhões os libaneses e seus descendentes radicados no Brasil, uma população igual à do Líbano e que, nos dias de hoje, já são 8.530 os refugiados sírios, que imigraram recentemente em função da crise político-econômica que vive a Síria.

Na introdução, a professora Moema Olival explica que seu objetivo não foi fazer um estudo específico da cultura árabe, nem reunir autores quanto à temática comum; mas sim observar, como no decorrer de suas obras, esses escritores acabam apontando para traços que os reúnem como intelectuais modernos, de procedência comum: a libanesa. Ou seja, a ensaísta procura mostrar como a narrativa ficcional dos autores se entretece com dados relativos ao povo e costumes árabes; uns mais ambientados, modernizados, outros menos, mas sempre a revelar a origem: “Um povo que é parte do leque de etnias que constituem e enriquecem o diversificado universo sociocultural brasileiro”.

Escritores

O romance “Lavoura Arcaica” (1976), de Raduan Nassar (1935), é definido por Moema Olival como “uma semeadura narrativa que viceja, com austeridade e determinação, sobre um arcabouço familiar libanês, construído sob rigorosos laços de afeto e amor, em terras brasileiras”. Para ela, o romance espelha com fidelidade a cultura do patriarcalismo comum ao mundo árabe. Já ao analisar “Um copo de cólera” (1978), também de Raduan Nassar, a ensaísta destaca a problemática sexual que a novela traz, lembrando que o tema tem sido frequentemente abordado pela literatura árabe.

De Salim Miguel (1924), nascido no Líbano, Moema Olival estuda o romance “Nur, na escuridão” (1999), narrativa autobiográfica que reconstitui a trajetória da família do autor, desde o desembarque de Yussef, seu patriarca, em 1927, no cais da Praça Mauá, no Rio de Janeiro; e “a luta assumida por aquela família na sua aventura de tentar novos destinos”, passando por seu esforço por encontrar um bom comércio em Biguaçu e Florianópolis, em Santa Catarina, e no Rio de Janeiro, para oferecer uma vida melhor à família que, com o passar dos anos, reuniria sete filhos. De Salim Miguel, a ensaísta analisa ainda “Eu e as corruíras” (2001), livro comemorativo dos 50 anos de estréia do autor, que reúne crônicas e depoimentos.

De Milton Hatoum (1952), com certeza o autor de descendência libanesa mais proeminente hoje na literatura brasileira, com quatro romances premiados e traduzidos em dez línguas e publicados em 14 países, Moema Olival analisa os romances “Dois Irmãos” (2000) e “Cinzas ao Norte” (2010). Se o primeiro romance retrata o drama de mais uma família libanesa estabelecida no Brasil e a saga de dois irmãos gêmeos (Yakub e Omar), na cidade de Manaus, às margens do Rio Negro, o segundo busca trilhar um caminho aberto por Machado de Assis (1839-1908), em “Dom Casmurro” (1899), ao deixar para o leitor a tarefa de concluir se Ran ou Arana seria o pai de Mundo (Raimundo), uma das personagens principais.

Demais ensaios

De Carlos Nejar (1939), a ensaísta debruça-se sobre “Carta aos loucos” (1998), terceira obra em prosa do poeta gaúcho e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), desde 2009, e “Riopampa: o moinho das tribulações” (2004), romance que igualmente reconstitui os percalços de uma família que habitava um moinho. Para a professora, “Rio­pam­pa é uma parábola da vida e da morte, e do desamor, do egoísmo e da generosidade, da guerra e da paz, das classes político-sociais que separam os homens, das forças da natureza sobre os sentimentos, e da alma que as traduz”.

De Miguel Jorge (1933), nascido em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, mas estabelecido em Goiás desde cedo (em Inhumas e, depois, em Goiânia), membro da Academia Goiana de Letras (AGL), a ensaísta estuda “Veias e Vinhos” (1982), “Nos om­bros do cão” (1991) e “Pão co­zido debaixo de brasa” (1997), trilogia urbana centrada em Goiânia, “O Deus da hora e da noite” (2008) e “Minha querida Beirute” (2012), sua última obra publicada.

Por fim, de William Agel de Mel­lo (1937), a ensaísta discute o vo­lume I de suas “Obras Com­pletas” (2008), que reúne sua ficção (os demais v­o­lumes abrangem tradução, ensaios, monografias e artigos, fortuna crítica e dicionários). Sua ficção é composta por dois romances (“E­po­peia dos sertões” e “O último dia do ho­mem”) e dois livros de contos (“Geórgicas – Estórias da terra” e “Metamorf­ose”). De “Ge­ór­­gicas”, analisa es­pe­ci­ficamente o conto “Baal­bek”, que, segundo ela, sintetiza com dramaticidade os perfis da raça árabe: “O espírito aventureiro, amor ao comércio e à cultura, aos amigos, a consciência de seus direitos, a complacência com os mais fracos, o espírito religioso, endossando as convicções herdadas”.

Provavelmente, porque estes dois últimos autores estão diretamente ligados ao solo goiano, Moema Olival dedica maior espaço ao estudo de suas obras, chegando a ponto de esmiuçar capítulo por capítulo de “Minha querida Beirute”, de Miguel Jorge, obra que, em sua opinião, representa uma súmula dos preceitos morais, éticos e afetivos característicos de uma família libanesa tradicional. Ou seja: “Para o homem, tudo. Para as mulheres, a restrição e a obediência”, constata.

De fato, como observa o professor Fabio Lucas no prefácio que escreveu para o livro, a professora goiana, com esses ensaios, aponta não só uma nova perspectiva para o estudo da cultura libanesa projetada no ambiente brasileiro, como abre o debate sobre a contribuição dos escritores descendentes de árabes à ficção produzida no Brasil, repetindo-se aqui o que diz o próprio Miguel Jorge na contracapa do livro.

Ensaísta, crítica literária, professora emérita (aposentada) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Moema de Castro e Silva Olival é doutora em Letras Clás­sicas e Vernáculas pela Univer­si­dade de São Paulo (USP). Fun­da­dora e primeira coordenadora do Centro de Estudos Portugueses da UFG e do mestrado em Letras por oito anos, ela é sócia-correspondente da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil), do Rio de Janeiro, e da seccional do Rio de Janeiro da UBL. Membro da AGL e da seção de Goiás da UBE, é mem­bro-titular do Instituto His­tórico e Geográfico de Goiás (IHGG).

Tem 14 livros de ensaios publicados, entre os quais se destacam: “O processo sintagmático na obra literária” (Editora Oriente,1976), “O espaço da crítica – panorama atual” (Editora UFG, 1998), “GEN – um sopro de renovação em Goiás, volume I” (Editora Kelps, 2000), “Moura Lima: a voz pontual da alma tocantinense” (Editora Cometa, 2003), “Diálo­gos plurais” (R&F Editora, 2008), “O espaço da crítica III” (Editora da UFG, 2009), “Um sopro de renovação em Goiás, volume II” (Editora Kelps, 2009), “Novos ensaios – vozes em interação” (E­di­tora Kelps, 2010), e “Contos (Des)ar­mados” (Editora Kelps, 2014).

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de diversas obras.

2 respostas para “Escritora lança livro sobre a influência árabe na literatura brasileira”

  1. Avatar Beatriz Carvalho disse:

    A cultura árabe é maravilhosa, a música, dança são espetaculares.
    E a língua um tanto complicada, mas bastante exótica.

    Para aqueles que quiserem aprender com professores nativos, fica aqui a dica:
    https://preply.com/pt/skype/%C3%A1rabe-professor-nativo

  2. Avatar TULIANA disse:

    qual a influência árabe sobre a literatura brasileira??

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