Escritor como personagem (9): Stephen King — A aparição, de Geraldo Rocha

A propriedade vivia envolta em mistério. Ninguém sabia quem era o solitário morador, de onde ele viera e nem quando havia chegado

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Stephen King — A aparição

Geraldo Rocha

A casa havia sido construída a uns 500 metros da US Route 2, uma estrada que fazia ligação com várias outras cidades da região. Por ali passavam os moradores locais e também os turistas, que se dirigiam à cidade típica de Bethel, localizada ao norte do Estado do Maine, cerca de 115 quilômetros de Bangor. Por muito tempo, a imponente casa de madeira, pintada de vermelho, com telhado branco e porta em estilo colonial chamou atenção dos viajantes. A residência tinha dois andares, e sobre o telhado principal uma chaminé destacava quase da altura das grandes árvores que circundavam o local. O acesso à residência se dava por uma estreita estrada vicinal onde mal cabia um carro. Perto da casa, a uns cinquenta metros da entrada, um portão de ferro estava sempre trancado. O quintal era circundado por uma cerca de madeira, com paus roliços e travada por tábuas de carvalho pintadas de preto. Não era incomum deparar com pessoas tirando fotografias, e muitas vezes, se pendurando nos mourões da sebe, tentando enxergar o que existia dentro daquela cercania.

A propriedade vivia envolta em mistério. Ninguém sabia quem era o solitário morador, de onde ele viera e nem quando havia chegado. Nas poucas vezes em que era visto, quando saía para fazer compras no mercado da cidade, era objeto de curiosidade dos habitantes. Com quase 2 metros de altura, era muito magro e o cabelo grisalho dava-lhe uma aparência de sabedoria. Os olhos de um azul profundo, fitavam o interlocutor com intensidade, quando alguém tinha a oportunidade de falar com ele. Na casa não se sabia da existência de outras pessoas, pois ele nunca abria o portão e não recebia ninguém. Quando aparecia na cidade, dirigia uma picape Ford vermelha, ano 1967, com a carroceria toda envergada pelo transporte de madeiras e plantas que ele cultivava em sua propriedade. Fazia as compras, pagava em dinheiro e voltava para casa.

Certa vez o xerife o abordou para saber detalhes de sua vida e porque tinha escolhido o Maine para fixar residência, especificamente naquele local ermo e solitário. Ele não deu muitas informações, e como seu prontuário não identificou nenhuma anotação digna de preocupação, a autoridade policial não o incomodou. Era mais um cara esquisito e misterioso como muitos outros. A suntuosa casa havia sido erguida nos anos de 1960, e durante sua construção, poucas pessoas da cidade trabalharam na obra. Os ajudantes chegavam e depois de um tempo desapareciam sem que ninguém se desse conta.

Uma década depois de construída, a ação do tempo começou a deteriorar a propriedade. Já era possível notar fissuras entre as tábuas do quintal, de onde se podia observar que as árvores frutíferas morreram esturricadas pela falta de água. A trilha de acesso, que saía da estrada principal até o portão estava tomada de erva daninha. A chaminé, há muito não expelia fumaça, sinal de que os moradores estavam inativos por alguma razão. O xerife tentou encontrar uma explicação para o ocorrido, entretanto, após infrutíferas buscas na propriedade, não encontrou vestígios suspeitos. Bateu por diversas vezes na porta e ninguém atendeu. Como não havia nenhuma denúncia, ele imaginou que o velho deveria ter ido embora, assim como havia chegado.

Em Bangor residia a família King. O pai, Stephen, nascido em Portland, era um escritor em busca de reconhecimento. Desde pequeno escrevia tirinhas para revistas em quadrinhos e pequenas histórias de terror que vendia em semanários pela cidade e na faculdade. A esposa Tabitha King era sua incentivadora. Eles se conheceram na juventude e logo se casaram. Da união, vieram três filhos, uma menina e dois meninos. A família enfrentava dificuldades para se manter, o que pressionava para que Stephen se desdobrasse em vários trabalhos para conseguir complementar a renda. Enquanto isso, seus romances eram recusados pelas editoras, o que o deixava deveras frustrado.

No Maine o céu fica encoberto quase o ano inteiro. O inverno é gélido, com ventos fortes, enquanto o verão é agradável, com temperaturas por volta de 20º graus Celsius. No outono as folhas adquirem tons coloridos, entre o vermelho, o laranja e o amarelo, deixando a paisagem com uma beleza exuberante. É a época de aproveitar o clima para curtir os passeios, frequentar as praias e os pontos turísticos. Stephen havia prometido viajar com a família no final de semana, e na sexta-feira ele acordou bem cedo, pois precisava preparar os sanduíches para a viagem. O trajeto até Bethel duraria cerca de duas horas e ele queria chegar antes que a cidade estivesse muito cheia. Havia alugado um trailer e depois das 10 horas o local ficava bastante tumultuado.

Saíram de casa por volta das 7 horas e o trânsito estava bem tranquilo. Colocou uma fita cassete para tocar e o som de um rock romântico invadiu o carro. Logo que pegaram a estrada ele avistou o casarão abandonado. Aquela visão fantasmagórica o impactou de forma arrasadora. Sua mente entrou em parafuso e seu corpo estremeceu como se presenciasse uma aparição. Tudo que ele imaginava em seus devaneios para escrever romances de terror materializou em seu inconsciente assim que avistou a casa. Tabitha notou o semblante carregado dele. Olhou de soslaio para o marido e seguiu seus olhos em direção à casa, percebendo de cara o que o impactara tanto.

Stephen não disse uma palavra. Continuou dirigindo cada vez mais devagar até parar no pequeno trieiro que dava acesso à entrada principal. Desceu do carro e ficou estático olhando aquela paisagem desolada. “O que o papai está olhando, mamãe”? — perguntou Naomi. “Não sei, filha. Deve ser aquela casa abandonada” — respondeu Tabitha. Stephen caminhou vagarosamente pela trilha e chegou até o portão. Empurrou a estrutura de ferro e as folhas duplas do portão se abriram com um rangido. Ele sentiu um calafrio, suas pernas tremiam. Atravessou o que um dia havia sido um jardim, agora tomado de relva e todo tipo de praga e chegou até a porta principal.

Os ferrolhos da porta estavam enferrujados, mas não havia tranca. Ele empurrou com força e a madeira cedeu abrindo um espaço para sua passagem. Dentro da casa os móveis estavam dispostos de forma organizada, porém tomados de teias de aranha e poeira. Um cheiro de podre invadia o ambiente. Talvez a mistura de madeira molhada com mofo tinha a impressão de que era o cheiro da morte. Stephen seguiu em frente e chegou até a cozinha. Panelas enferrujadas, restos de comida grudadas, pratos em uma pia seca e muita, muita sujeira. “O que aconteceu nesta casa”? — perguntou para si mesmo. Não dava para imaginar, mas alguma coisa triste e tenebrosa havia se passado ali.

Voltou para a sala e uma grande tarântula preta desceu pela parede. Depois outra e mais outra. Parecia que haviam adotado aquela casa como moradia. Acessou a escada para o pavimento superior e a cada degrau que pisava um rangido estranho ecoava pelo ambiente. No final da escada uma grande teia de aranha fazia uma barreira para a sala de descanso. Tentou abrir espaço com as mãos, porém aquelas habitantes peçonhentas começaram a caminhar em sua direção. Ele acendeu um isqueiro e queimou um pouco do emaranhado de teia, fazendo-as recuar. O pequeno corredor dava acesso aos três quartos existentes. Abriu a porta do primeiro e não havia nada, apenas a cama empoeirada pelo tempo. O segundo quarto encontrava-se desarrumado, como se alguém tivesse dormido e levantado sem arrumar os lençóis. Abriu a porta do último quarto e uma cena espantosa arregalou seus olhos.

Deitados sobre o estrado três corpos jaziam sobre a cama. Ressecados pelo tempo, sobravam apenas o crânio esbranquiçado. Um facho de cabelo grisalho, acima do crânio maior, uma cabeleireira viçosa amparava o crânio pequeno de uma criança na faixa de 12 anos e do outro lado uma mulher, com certeza a mãe, com os cabelos finos e tingidos de amarelo. Uma cena grotesca! Teriam se envenenado simultaneamente para morrerem todos juntos e deitados na mesma cama? Teriam sido mortos por alguém e deixados apodrecer sem que ninguém soubesse? Ou teriam sido picados pela enorme cobra que ele viu se movimentar e sair debaixo dos lençóis que cobriam a caveira daquelas pessoas? Não dava para saber.

A grande cobra sibilava e se movia lentamente em direção a Stephen. Ele percebeu o perigo e foi se afastando lentamente para não provocar a ira da serpente. Poucos passos adiante alcançou a escada e desceu até o andar térreo dirigindo-se para a saída. Antes de cruzar a porta ele olhou para trás e quase caiu de costas. A menina encontrava-se de pé no final da escada, segurando a cobra com as duas mãos. Sua cabeça não tinha músculos, nem pele. Seus olhos eram apenas os buracos que um dia enxergaram. Sorriu para ele com aquele sorriso eterno dos dentes que sobraram naquele crânio emoldurado pelos cabelos cacheados que desciam pelo corpo.

Stephen fechou os olhos, abriu e olhou novamente para a escada. Não havia ninguém e somente o vento que entrava pela fresta da porta balançava as teias de aranha queimadas pela chama do isqueiro. Voltou para o carro trôpego, cambaleando entre as árvores. Quando se sentou ao volante, Tabitha perguntou o que havia acontecido. “Você está pálido e ofegante, querido. O que tinha lá dentro”? Stephen não respondeu. Pegou uma garrafa de água e tomou todo o líquido de uma vez. Sua garganta ardia e seu peito arfava como se tivesse corrido uma maratona. Deu partida no carro e no primeiro retorno voltou para casa sem dar explicação. Sua esposa e os filhos ficaram sem entender, mas preferiram ficar calados.

Chegou em casa, trancou-se no seu escritório e começou a escrever. Uma semana depois ele deu um manuscrito para Tabitha validar. Era a história de uma menina com poderes psíquicos que infernizava a vida de uma cidade para se vingar dos abusos que sofria da mãe e dos colegas de escola. Deu o nome ao romance de “Carrie”. Pensou em mandar para uma editora, mas desistiu, pois o achava muito ruim. Jogou-o no lixo. Sua esposa o resgatou e pediu que o lapidasse. Após as correções, uma editora topou publicar e Stephen King recebeu U$ 2.500,00 de direitos autorais. Foi seu primeiro cachê de escritor, o que na certa alavancou sua carreira para sempre. Até hoje ele se pergunta: “O que seria de mim se não visitasse aquela casa abandonada pertinho da minha residência e da qual nunca ouvira falar”. Com certeza ninguém responderá essa pergunta.

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