Escritor como personagem (8): Kafka — Um retorno, de Simone Athayde

Kafka não saberia dizer que lições tiraria daquela viagem, mas naquele breve instante em que sentiu a mão da mulher na sua, soube que a falta estava preenchida

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Kafka — Um retorno

Simone Athayde

De tempos em tempos (não se pode mensurar quanto pelas humanas medidas), era permitido a alguma alma desencarnada visitar a Terra. Assim, foi com um misto de alegria e curiosidade nervosa que Franz Kafka recebeu a notícia de que iria rever Praga, sua terra natal, mesmo que para ele não fosse a primeira viagem. As visitas tinham algo de terapêutico, serviam para o espírito rever seus entes queridos ou se acalmar em relação ao desenrolar dos fatos após sua partida. Kafka nem pôde acreditar, quando veio naquela primeira vez, que havia se tornado um escritor tão aclamado, um tipo de personalidade cult que influenciava tanta gente. Logo ele, que sempre se considerou um fracasso, que, julgado pelo pai, a quem considerava “a medida de todas as coisas”, se achava tão insignificante! Bendito Max Brod, seu (des)leal amigo que, num gesto de generosidade (ou num ato de fé em relação à sua obra) não atirou seus escritos ao fogo como ele tinha pedido! E, com um sentimento de vingança, impróprio à evolução de seu espírito, naquele retorno imaginou o que o pai sentiria se soubesse que seu filho inútil agora era um sucesso mundial.

Depois de uma breve reunião com espíritos mais evoluídos, seus mentores, ele se viu em Praga, num dia ensolarado e quente de julho, na famosa ponte Carlos, entre centenas de turistas de todas as nacionalidades. Era estranho que, mesmo morto, podia sentir uma carícia na pele quando uma brisa leve o alcançava, e seu olfato conseguia tragar o perfume da comida de rua. A visão do rio Moldava, das casas imutáveis e das torres do castelo cinza e altíssimo, que antes o aturdiam, agora lhe traziam uma sensação reconfortante, a memória de algo familiar, mas no sentido bondoso do termo.  Era impressionante a quantidade de pessoas que ele via! Não estava preparado para tanta mudança, para tanto movimento! Curioso, Kafka foi procurar um jornal para saber em que ano estavam, mas não encontrou nenhum. Parece que haviam sido substituídos por um aparelho portátil que, nem em suas histórias bizarras (segundo ouvira de um crítico certa vez) poderia ter imaginado. O aparelho era onipresente, estava na mão de todas as pessoas! Por ele podiam tirar fotos coloridas que apareciam na tela na mesma hora, podiam conversar com outras pessoas à distância, conseguiam ver notícias e até ler os livros de sua autoria! Pelo aparelho ficou sabendo que estava no ano de 2018. Meu Deus, tão longe assim no futuro?!

Ficou pensando para que serviam aqueles mentores se não o preparavam para tão grande surpresa. Tudo o que faziam era dizer por quanto tempo ficaria e enumerar o que ele seria capaz de fazer e o que não seria. Os aprendizados da viagem, quem iria encontrar e porque, isso fazia parte do próprio aprendizado do espírito, era algo muito pessoal que não podia sofrer influência dos mentores.

Dessa forma, Kafka achou melhor procurar seus locais de morada terrena, especialmente o quartinho que alugou por curto período e que lhe serviu de refúgio para a escrita. Mesmo com tantas mudanças e modernidades incorporadas à rotina de Praga, ela ainda era aquela cidade medieval que ele bem conhecia. Era fácil vagar pelas ruas centenárias, labirínticas, sem perder-se. Quando chegou ao prédio, acanhado e feio, viu que havia se transformado num local de visitação. Tudo se preservara quase do modo como era antes, mas agora havia uma lojinha no térreo onde se vendiam produtos com sua foto (aquela horrível que ele odiava) e sua assinatura (aquele rabisco!).

Oh, vida injusta!, pensou. Por que essas honrarias tiveram que esperar minha morte? De certa forma, aliviavam seu sofrimento, lhe davam a sensação de que, afinal, seu calvário na Terra não foi totalmente em vão. Até mesmo conseguira compreender que se não tivesse tido o pai que teve jamais teria produzido a obra que produziu. Por isso os mentores diziam que os retornos não eram aleatórios, eles tinham uma razão, eram importantes para a cura dos espíritos. Como consequência de sua segunda visita, por exemplo, ele pôde reencontrar o pai e ambos se compreenderam: as diferenças foram dissipadas, tudo foi esquecido e perdoado. Enfim a conciliação, impedida na Terra pelo véu do medo de um lado e da dominação do outro, revelou dois seres quebrados de formas diferentes.

Agora o que chamava a atenção de Kafka era uma mulher de uns quarenta anos que, enternecida, olhava as canetas, os bloquinhos, as inutilidades que eram vendidas na lojinha. Resolveu acompanhá-la. Subiu atrás dela os degraus estreitos e percebeu, pelo acelerar do coração da mulher, a emoção que ela sentia em estar ali, observando o diminuto quarto em que ele, quase um século antes, havia passado seus dias escrevendo. A mulher, enxugando uma lágrima, está sinceramente emocionada, não consegue acreditar que está ali no mesmo espaço onde um dia esteve seu escritor preferido.

Por essas mágicas do além, logo Kafka começa a ler os pensamentos dela. A caneta que ela comprou e que agora segura como uma joia, ela usará quando for lançar seu livro. Sim, a mulher é escritora no Brasil, desconhecida e desconsiderada como um dia ele foi, mesmo assim resignada porque não vê outro modo de viver senão lidando com as palavras. O espírito sente logo uma conexão com a mulher, uma simpatia, porque percebe que ela não sente inveja como outros que conheceu nas outras visitas. A mulher sabe que o talento dela, mediano, nunca a levará a essas alturas que ele, Kafka, alcançou tardiamente. Mesmo assim, ela se sente devidamente satisfeita por um dia ele ter existido.

O espírito segue a mulher quando ela decide ir ao museu Kafka, uma novidade para ele também. Em pensamento, os dois dividem a mesma expectativa: como um museu poderia recriar o universo kafkiano? Poderia esse local simular o ar de pesadelo, surreal, de sua obra? Por fora, um prédio comum, bastante simpático. Por dentro, um labirinto escuro de paredes negras onde o visitante era guiado por luzes, fotos e vídeos que contavam a história de sua vida, mostravam seus escritos e suas cartas pessoais agora escancaradas. Ao final do passeio, os dois escritores estavam um tanto decepcionados. Mas logo depois ele ouviu a brasileira pensar que o fato de não terem conseguido copiar a atmosfera da obra de Kafka era mais uma prova de seu estilo único e de sua genialidade. Kafka sabia que a vaidade não era algo adequado a um espírito, mas ele se sentiu muito orgulhoso com a fala da colega.

Depois, foi acompanhando os outros passeios da mulher. A viu tomar sorvete, experimentar o trdelník (o delicioso pão doce enrolado), esperar a hora cheia para ver o desfile dos personagens do Orloj, o relógio astronômico de Praga, e até entrou com ela e a família no Teatro da Ópera para assistirem a um quarteto de cordas.

Kafka e a mulher fecharam os olhos no mesmo instante, sentindo o poder da música que, a despeito de sua suavidade, arrebatava os sentidos. Quando o espetáculo acabou, o escritor foi avisado em pensamento de que estava chegando a hora de voltar ao além. Kafka foi seguindo a mulher enquanto ela se dirigia ao hotel. Ela parecia alegre, comentando sobre a linda apresentação, mas havia algo melancólico nela, uma tristeza que ele reconheceu: uma falta que não podia ser compreendida por nenhuma daquelas almas.

Na hora de entrar no hotel, ela ficou para trás e, segurando o corrimão da escada, quis olhar a cidade numa despedida. Ela também iria embora no dia seguinte. Kafka já não conseguia ler os pensamentos dela, não sabia mais se ela ainda pensava nele ou se ela tentava apenas reter as experiências da viagem. Mesmo assim, ele sentiu que precisava fazer uma última coisa, ele tocou, com sua mão sem matéria, a mão da mulher. Ela teve um estremecimento, um pequeno e inexplicável susto. Ele também. Ela olhou para a mão, sentindo nela um peso bom.

Kafka não saberia dizer que lições tiraria daquela viagem, mas naquele breve instante em que sentiu a mão da mulher na sua, soube que a falta estava preenchida. Para os dois.

2 respostas para “Escritor como personagem (8): Kafka — Um retorno, de Simone Athayde”

  1. Avatar Iraides Barbosa disse:

    Maravilhoso👏🏻👏🏻

  2. Avatar Eliana disse:

    Que conto incrível! Belo e sensível como tudo o que você escreve, Simone! Parabéns!

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