Escritor como personagem (6): Gabriel García Márquez — Só o esquecimento, de Lígia Carvalho

Aqueles alegres olhos de águas marinhas eram capazes de transportar, o observado, a oceanos nunca singrados

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Gabriel García Márquez — Só o esquecimento

Lígia Carvalho

O espelho lhe devolveu o sorriso, movimentando o espesso bigode embranquecido. No reflexo, o olhar afável instava reconhecê-lo, como que o convidando a contar as histórias há muito perdidas.

Boom! O som de As Mil e Uma Noites se estatelando no chão, em decorrência do brusco movimento involuntário do braço direito, quebrou tanto o encantamento quanto a caixa de metal, que jazia sobre tal livro outrora esquecido na escrivaninha.

Lamentavelmente, a tampa se soltara da peça e, ao se agachar, para catar as milhares de palavras e a caixinha “destartalada”, foi atingido por um flash de memória que o cegou.

Pouco a pouco, percebeu um minúsculo e quase invisível pedaço de papel escondido no fundo falso. Cuidadosamente, puxou para fora o finíssimo papel amarelo que, de tão gasto, parecia uma asa de borboleta ferida.  O cheiro de águas diáfanas que se desprendeu do papel logo inundou o escritório repleto de páginas.

Seria, aquela caixinha de cobre trabalhado, que mais parecia arte dos ciganos da Macedônia, a mesma com a qual presenteara a sua prima Soledad de Olvido Buendía, a mulher mais linda que seus olhos já viram? Mas, então: “Como isto veio parar aqui?”

Aos poucos, sua respiração foi se acelerando, igualzinho ao dia em que teve de enfrentar as duas piores batalhas de sua vida… A primeira foi se mudar, da querida Aracataca, para a casa paterna em Barranquilla, após a morte do valente e idolatrado avô.  A segunda foi silenciar seu coração, uma vez que deixava para trás sua Soledad, a querida Dulcinéia que era a razão de seus devaneios infantis.

O bigode espesso varreu para longe o triste sorriso e uma nebulosa, formada de olhares, risadas e mimos, gravitaram ao redor de sua mente. Aqueles alegres olhos de águas marinhas eram capazes de transportar, o observado, a oceanos nunca singrados; a lagos, misteriosamente profundos; aos tapetes mágicos, flutuantes em céus azuis…  Sob afagos hipnóticos, a voz de Soledad, simplesmente o vestia de Simbad, Ali Babá e Aladdin em cujos ecos melodiosos até agora ressoavam: “Gabo, ainda serás um grande encantador de palavras…”

Mas, assim como Satanás se imiscuiu entre os Santos Anjos para confabular contra Jó, uma imagem maligna exibiu sua inconsolável Soledad sob a chuva, acariciando a barba ruiva de um cadáver, içado recentemente do rio pedregoso. Naquele momento, os adoráveis olhos chispavam como o Fogo de Santelmo, atraindo a tormenta perene que haveria de se instalar em seu viver. A partir de então, Soledad nunca mais atravessou o rio para sair da encharcada Macondo. Também passou a usar luvas negras de seda (jamais desnudando suas mãos), com a finalidade de não macular a sensação daquela última carícia.

E assim, Soledad decidiu viver reclusa até o fim de seus dias. De tanto e tanto chorar, virou cachoeira, aquela que surgiu misteriosamente no fundão da grota, próximo ao cemitério.

“Mas como isso veio parar aqui?”

O papel marcado por inúmeras dobraduras do tempo, só revelou duas palavras: “Perdoa-me”.

Vastos segundos se passaram.

“Mas como isso veio parar aqui?”

Descortês, soltou o pequeno objeto sobre um desgastado papel empoeirado onde se lia: maior que a solidão, só o esquecimento. Gabriel García Márquez.

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