Escritor como personagem (23): Agatha Christie — A rainha do mistério, de Gabriela Rabelo

“Pode ser, se não me fizer escrever alguma, eu gosto, se quiser que eu escreva, eu odeio”

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Agatha Christie — A rainha do mistério

Gabriela Rabelo

– Não! Eu não vou estudar literatura! Não insista mais.

– Senhorita, por gentileza, me faça esse estudo de bom grado, sua família me contratou para isso. Com qual cara acha que devo aparecer ao informar que não irei lecionar, pois a pequena senhora não quer aprender?

– E lá sei eu? Isso é problema do senhor. Eu quero me tornar enfermeira e cuidar dos outros. Nada que puder me ensinar vai ser útil para o trabalho que quero. Me dê a licença, irei cuidar de minha galinha que está a ponto de que de seus ovos choquem lindos pintinhos.

Ele se posicionou em frente à porta, de forma a se interpor entre ela e a fuga.

– O senhor, teria a bondade de deixar com que eu passe por essa porta atrás de suas costas?

– Não.

– Como é?

– Não saio enquanto não passar as horas pelas quais estou recebendo de seus pais.

– Que disparate! – Exclamou a menina, jogando as mãos para cima, deitando-se no sofá em seguida – Pois bem, irei tirar uma soneca. Passar bem!

– Enquanto você dorme, irei ler em alto e bom tom sobre as aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança.

– Não quero saber dessas histórias de velho. Me conte sobre a família real.

– Pensei que a senhorita estaria dormindo durante a leitura, não fazendo escolhas.

– Pois o senhor é bem linguarudo.

– Pois a senhorita é bem mais.

– Mas eu sou criança, o senhor é adulto.

– Não vi relação entre idade e educação. Crianças e velhos podem ser malcriados e jovens e adultos não? Está discriminando minha idade.

– O senhor nem é tão velho. Talvez seja esse bigode que o deixa com esse ar de ancião. Pode ser também pelo senhor ser baixinho e usar chapéu coco. Estou quase certa de que é isso.

– Não está sendo nem um pouco objetiva. Muitos homens da história foram baixinhos, Napoleão tinha pouco mais de um e sessenta, acredita? Mais um pouco você o alcança.

– Seria possível?

– É claro que sim, você pode ter muito em comum com inúmeras personalidades famosas, mas, como não tem interesse pela literatura, não poderei te ajudar, infelizmente.

– Me desculpe se fui grosseira agora a pouco, talvez o senhor tenha algo a me ensinar. É que escrever e estudar parece tão chato, ainda mais depois dos 8 anos. Sou quase uma mulher e em vez de me arrumarem casamento, me arrumam professores e aulas, é uma falta de respeito.

– Pense bem, mal começou a viver e gostaria de cuidar de outras pessoas? Talvez por enquanto seja melhor cuidar de sua galinha e os pintinhos, pense em casamento em outra hora. Sua mãe me disse que você gosta de contar histórias, é verdade?

– Pode ser, se não me fizer escrever alguma, eu gosto, se quiser que eu escreva, eu odeio.

– Talvez se algo estivesse em jogo? Te proponho um desafio.

– Podia ter me explicado sem que esperasse ser perguntado, senhor.

– Caso a senhorita consiga escrever um conto melhor que um meu, poderá ficar com meu chapéu coco.

– Por que eu aceitaria? É um chapéu de gente grande.

– Mas é o prêmio do vencedor, também. Além disso, não foi a própria senhorita que me disse que ele envelhece a imagem? Não quer ser tratada como adulta?

– O senhor tem um ponto, quem vai decidir quem ganhou? E quanto tempo para escrever as histórias nós teremos?

– Nós leremos um do outro e iremos escolher. Teremos até o sol se pôr, acha que é o suficiente?

– Eu vou escrever a tempo de tomar uma xícara de chá, posso escrever usando o chapéu coco?

– É evidente que sim. Mas não ache que ele contém um pedaço de minha genialidade, mocinha.

– Não acho, sou uma crescida. Podemos começar?

– No três. Um, dois, três.

– O senhor voltará amanhã?

– Irei, senhorita. Faça bom proveito do chapéu coco. Amanhã teremos uma revanche.

– Pode tentar, mas será meu para sempre. Adeus, senhor Hercule Poirot.

– Até logo, senhorita Agatha Christie.

2 respostas para “Escritor como personagem (23): Agatha Christie — A rainha do mistério, de Gabriela Rabelo”

  1. Avatar Ana Cristina Gonçalves disse:

    Amei a construção da narrativa, perspectiva muito interessante. Parabéns à escritora Gabriela de Freitas, muito talentosa!

  2. Avatar Marcos Felipe C. A. Rocha disse:

    Achei sensacional e maravilhoso! É maravilhoso ver o envolvimento dos personagens, a química entre eles é marcante. Um conto bem elaborado, estruturado e escrito, uma obra prima!

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