Escritor como personagem (21): García Márquez — Encontro marcado, de Adelice da Silveira Barros

Saltando da canoa fui caminhando até a água atingir meu pescoço. De um salto, nadei apressado em direção à correnteza das águas frias. Essa foi a morte do “Gabo”

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Gabriel García Márquez — Encontro marcado

Adelice da Silveira Barros

Meu peso era insuficiente para provocar qualquer dano ao corroído casco da velha canoa abandonada nas águas turvas daquela reentrância do Rio Araguaia. Procurando me equilibrar, coloquei sobre o banco empoeirado a pedra de médio porte que eu pretendia amarrar na minha cintura, ainda mais fina depois de três dias sem enviar ao meu estômago qualquer tipo de alimento. Trêmulo pelo esforço de transportar a pedra para a canoa, sentei-me ao seu lado. De minhas orelhas, ponta do nariz, queixo e pescoço caiam filetes grossos de um suor morno e pegajoso. Ignorando o enxame de mosquitos que ameaçavam devorar meu corpo magricela, permaneci indiferente. O ardor das picadas dos mosquitos ajudava a atenuar a dor que me corroía a alma. Dando um longo suspiro, olhei em volta. Aquele era o momento que os turistas amontoavam-se nas varandas de seus hotéis, na beira do rio ou dentro de suas embarcações para admirar o mundialmente decantado pôr do sol, no Rio Araguaia. Sabendo disso, escolhi o lugar menos frequentado da região, o recôncavo onde tinham abandonado a velha e decrépita canoa, amarrando-a ao também velho tronco de uma árvore. E assim, pela primeira vez, bateram de frente a minha solidão e a do rio. Ainda hoje, passados tantos anos, posso sentir, na pele quente, o abraço frio daquela que nunca mais haveria de me abandonar. A solidão.

Barra do Garças. Na minha memória ficou sua graça de menina espontânea, acocorada nas margens de um rio caudaloso, porém calmo e acolhedor, onde nós, garotos e garotas, íamos tomar banho sob os olhos cuidadosos de nossos pais ou babás. Bastava um descuidozinho e lá íamos nos rodear os pescadores, loucos pela oportunidade de lançar a vara e fisgar um peixe ainda que pequeno, ainda que uma única vez. Cresci ali, sob o sol escaldante da descontraída Barra do Garças, cidade menina, acocorada na beira do belo e caudaloso Araguaia, comendo peixe fisgado na hora, colhendo pequi na árvore, brincando com os moleques na rua empoeirada, com o sol ou a lua quase tocando nossas cabeças. Cresci sob a ameaça de um dia ter que abrir mão de tudo que me encantava para ir estudar na cidade grande.

Ainda hoje, passados tantos anos, a imagem me chega nítida como uma barata na xícara de leite. Como a que estamos atravessando agora, aquela era uma primavera particularmente quente e seca. Na semana seguinte, eu completaria 14 anos. E, no início do ano vindouro, seria transferido para a capital de Goiás, onde passaria a estudar no Liceu de Goiânia. Só de pensar na mudança, eu sentia um tremor nas pernas. Já sabia, pela experiência de meus amigos mais velhos que, a saída da casa de meus pais, significaria um rompimento irremediável com minha infância e início da adolescência. Pensando, talvez, em criar mais um laço que me mantivesse atado à cidade onde tinham enterrado meu cordão umbilical, tentei me aproximar de Bela, como a garota era chamada pelos colegas e amigos. Em casa, ela era Isabel Cristina. Bela que, pelo lado materno, tinha nas veias uma pitadinha de sangue indígena, era uma adolescente morena de cabelos pretos e lisos a lhe escorrerem pelas costas como uma cascata de carvão triturado; rosto redondo e um olhar tão profundo e inquiridor que rompia minha pele tostada e ia alojar direto no meu jovem e despreparado coração. Bela, quase um ano mais nova do que eu, só deixaria a Barra, como todos se referiam ao lugar, no ano seguinte. Um dia, durante o recreio, com a voz meio rouca, propus a ela um encontro na beira do rio, após as aulas. Ela me olhou meio espantada e fez com a cabeça, um gesto afirmativo.

As duas últimas aulas daquele dia, que ficou para sempre retido na minha memória como o pior dia da minha vida, foram um verdadeiro calvário. Na mesma proporção que me é fácil criar personagens, imaginar situações, é difícil guardar na memória regras gramaticais. E, por castigo, a última aula daquele dia era exatamente de língua portuguesa. Percebendo minha alienação, o professor resolveu pegar no meu pé, fazendo perguntas difíceis. Não preciso nem dizer que me transformei em chacota da classe. Fui o primeiro a deixar a sala de aula. No pátio, meus olhos ansiosos buscavam a figura de Bela. Como não a visse em lugar nenhum, fui caminhado devagar na direção do rio. Caminhei tropeçando antes na poeira das ruas e depois na areia meio suja da praia. Já bem próximos das águas, vi um casal, os dois sentados no tronco de uma árvore; conversavam e riam muito à vontade, a Bela que eu cobiçava e o famigerado filho do prefeito, um loirinho metido a besta.

Depois de horas, suportando o solavanco do ônibus que percorria uma estrada estreita e esburacada, chegamos, meu pai e eu, à capital de Goiás. Dentre outras coisas, descobri que Goiânia, cidade que então me pareceu gigantesca, tinha um clima abrasado como o de Barra do Garças, com a diferença de ser seco, tão seco que dentro de uma semana eu tinha a pele do corpo tão ressecada quanto o tronco de uma árvore tombada. A cidade era arborizada, cheia de praças e jardins floridos, mas faltava-lhe o encanto de um rio caudaloso, como meu querido Araguaia. Meus primeiros meses, no Liceu de Goiânia, foram de solidão absoluta. Depois do desdém da Bela e do que eu quase fizera a mim mesmo, passei a me ver como o ser mais abjeto desse mundo. No colégio, não conseguia me aproximar dos meninos e, das meninas, procurava me esconder, sentindo uma espécie de medo, certo de que todas elas tivessem desprezo por mim. Na pensão de estudantes, um quase orfanato, eu era tido como orgulhoso, filhinho de papai que não dava moral a ninguém. Fosse nas noites mornas, sob o teto baixo do meu quartinho dos fundos, ou na mesa de refeições onde os moleques contavam piadas, trocavam ofensas, tapas e pontapés, eu permanecia solitário; a timidez coibindo minhas tentativas de abordagem. Maio chegou, prometendo um clima mais ameno. Mas, antes que o calor sufocante mudasse de região, nosso professor de português teve um ataque cardíaco. Entrou para substituí-lo uma lourinha jovem e desinibida. Já, na primeira aula, ela disse que iria nos apresentar um escritor que era a paixão de sua vida. Prometeu uma balinha para quem adivinhasse quem era o autor: Julio Cortázar, Monteiro Lobato, Jorge Luis Borges, Umberto Eco…          Como ninguém se atrevesse a citar nomes, a Lourinha espevitada, lascou, toda eufórica: Gabriel García Márquez, o grande Gabo, sala! Quem mais poderia ser?

Sentado sobre o banco da canoa abandonada, eu tinha ao meu lado a silenciosa interrogação da pedra quanto às minhas intenções naquele momento. Às minhas costas, o silêncio da mata. Pela frente, o vazio das águas. Devagar, o escuro da noite começava a turvar minha vista. Desistindo da ideia da pedra amarrada sobre minha cintura, resolvi que nadaria até o centro do rio e a partir dali deixaria que a correnteza se encarregasse do resto. Despi-me da camisa que, depois de dar algumas voltas ao redor de si mesma, acompanhou as águas no seu caminhar meio sonolento. Coloquei uma perna, depois a outra para fora da canoa, sentindo pela primeira vez o macio da espuma encardida que cobria a água estagnada. Então, de um salto o frio da água cortou-me em duas partes. Determinado, lancei a primeira braçada, batendo os pés com energia. Entretanto, não saí do lugar. Nova tentativa e novo fracasso. Ficando de pé, olhei em volta. De repente, nada se movia. Parada minha intenção de nadar. Parada a brisa que antecede o anoitecer. Paradas as águas do rio que nunca param. Tive um arrepio de morte quando vi a figura gigante voando na minha direção. Tão inesperado quanto um arranha céu no meio do deserto, a presença daquela coisa me desnorteou. Sua forma indefinida, movendo-se no ar, hora lembrava uma garça gigante, outra um felino voador, disposto ao ataquei, hora um anjo agressivo, com suas asas abertas. As palavras vinham em forma de ordem e não me atingia os ouvidos, mas sim o coração: “Volta para casa, garoto, que esse não é seu destino”. Desnorteado, meio tonto pela surpresa, ainda tive a audácia de perguntar: quem você pensa que é para me dar ordens, gritei enquanto ensaiava nova braçada. Foi quando o corpo sem peso se abateu sobre mim, tolhendo minha intenção de movimento. Fui acordar, molhado e sem camisa, na casa de meus pais, deitado na minha cama, cercado pelo silêncio da noite. Percebi um certo movimento na casa, mas ninguém entrou no meu quarto. Nunca soube como tudo aquilo aconteceu.

Agora, passados tantos anos, ainda sinto o abraço pegajoso da espuma encardida ao redor de meus tornozelos, o frio das águas sobre meu corpo quase infantil e o horror do abraço leve porém definitivo daquela coisa indefinida. O Rio Araguaia nunca mais foi o mesmo. Antes, local de diversão, passou a ser as águas traiçoeiras que poderiam ter me levado para a eternidade.

A professorinha loira e desinibida repetiu com a voz quase alterada: Gabriel Garcia Márquez, aquele que nos revelou o segredo da solidão. A palavra solidão apagou da sala todos os sons e ruídos. A mosca que zumbia ao meu redor, pousou sobre minha pele ressecada, em posição de respeito.   E eu passei a nutrir pelo escritor um interesse descabido. Naquela manhã, deixando de lado meu desajuste com as palavras, após três meses de abstinência absoluta, fui capaz de abordar uma pessoa: a afoita professorinha de Língua Portuguesa. Na aula seguinte, minhas mãos trêmulas de ansiedade recebiam da professora um volume de Cem Anos de Solidão. Foi meu primeiro encontro com o autor colombiano. Eu estava na metade da leitura do livro, quando um novo morador da pensão de estudantes, perguntou meu nome. Sem pestanejar eu respondi: Gabo. Desde então, naquele local, eu passei a ser conhecido como “Gabo”.

No ano seguinte, Isabel Cristina, a Bela no sentido exato da palavra, pelo menos para mim, foi, como eu, estudar em Goiânia. Apesar de ter ido morar na casa de uma tia, seu pai, médico como o meu, e amigos, me encarregou de cuidar da sua filha. Entretanto, fora do colégio, só nos víamos esporadicamente. Apesar de minha timidez doentia, eu já tinha meu grupo de amigos, quase todos, membros do Grêmio Estudantil e todos eles interessados em literatura, como eu. Como as melhores redações da nossa classe fossem sempre as minhas, não demorou nada para me tornar membro do Grêmio Estudantil, onde passei a assinar meus textos como Gabo. Já a Tina, como passei a chamar Bela, talvez, na tentativa de anular a dor e a vergonha daquele dia na beira do Araguaia, não dava a mínima para a literatura e tinha sua própria turma, voltada para os clubes de piscina e dança, onde sua tia era sócia. Mas entre nós dois reinava uma espécie de complô, um quase compromisso. Nos dias em que eu era convidado para a casa de seus tios, ou em encontros casuais na rua, jamais falávamos de nossos namorados. Nas férias, na Barra, éramos pares constantes nas festinhas de estudantes ou nos churrascos de finais de semana nas nossas casas, mas não éramos namorados.

Quando peguei meu diploma de conclusão do Ensino Médio, tive uma espécie de vertigem. Meus pais, desde o início do ano, vinham me cobrando a decisão sobre o vestibular que eu iria prestar. Na noite da diplomação, enquanto comemorávamos o fato em uma churrascaria, meu pai perguntou num tom de voz que exigia decisão: “E ai, garoto, medicina ou engenharia”?  Minha vontade era dizer a eles: a carreira de escritor não exige diploma. No entanto, respondi, sem pestanejar: Direito. “Não era o que eu pensava, mas também serve”, respondeu meu pai.

Aprovado no vestibular, tive como recompensa a mudança para uma pensão menos caquética, na Rua Dez, próxima à Praça Cívica, onde eu tomava, todos os dias, o ônibus carregado de estudantes, rumo ao Setor Universitário. Mas, ao contrário dos outros alunos que, aos bandos, caminhavam na direção de suas faculdades, eu ia direto para a biblioteca pública, no centro da praça e lá ficava esquecido das horas e de mim mesmo. Ali, me tornei íntimo não só de escritores como Faulkner, Eça de Queirós, Gilberto Mendonça Teles e outros, como também dos funcionários da biblioteca. Percebendo que me esquecia completamente das refeições, eles me ofereciam parte de seus lanches e, enquanto eu comia, ficavam por ali conversando comigo. Eu só deixava a biblioteca quando o último dos funcionários vinha me avisar que era hora de fechar o estabelecimento. Voltava a pé para a pensão, indo direto para meu quarto, redigir, à mão, meus textos. Participava de todos os concursos que tomava conhecimento, com resultado quase sempre positivo.

Os encontros casuais com a Tina, continuavam. Nessas ocasiões, eu falava, empolgado, sobre literatura. Um dia, sentados no jardim público da Praça Cívica, sem mais nem menos, ela interrompeu abruptamente minha fala, lascando um beijo nos meus lábios tagarelas, explicando depois: “Esse é o beijo que eu deveria ter te dado naquele dia, na beira do Araguaia”. Ah, falei sem entender nada. “Acontece que o miserável filho do prefeito, me ameaçou dizendo que se eu fosse me encontrar com você, na beira do rio, ele contava pro meu pai”. Entendi, foi tudo que consegui dizer. Saímos do jardim, de mãos dadas, ambos derretidos de felicidade. Daí para o casamento foi um pulo.

Eu já tinha alguns livros editados, acumulava alguns prêmios, quanto vi no jornal a notícia de que Gabriel García Márquez proferiria uma palestra na Academia Goiana de Letras. De chinelo e bermuda como estava, sai correndo para fazer minha inscrição para o evento. No dia determinado, pus minha melhor roupa e corri para o local. Fui o primeiro a chegar, antes até dos jornalistas. Meio escondido atrás de um poste de luz, fiquei acompanhando a movimentação. Entre escritores, professores, alunos e guardas, já havia uma quase multidão quando o carro que transportava o mito parou na porta da Academia. Meu coração disparou. O bigode de sempre, sobrancelhas espessas, olhos meio caídos, amparados por duas bolsas, o olhar melancólico que eu conhecia tão bem. Apenas menos alto do que eu esperava. Com um sorriso de lábios fechados, solitário no meio da multidão, ele foi cumprimentado os presentes, enquanto se encaminhava para o interior da Academia.

Fiquei parado na rua vazia, sem iniciativa, eu mesmo um poste. Nunca me senti tão solitário.

Nada no mundo iria frear minha intenção: saltando da canoa fui caminhando até a água atingir meu pescoço. Depois, de um salto, sem que ninguém procurasse me deter, nadei apressado em direção à correnteza das águas frias. Essa foi a morte do “Gabo”.

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