Escritor como personagem (20): Rilke — Monólogo em dois tempos, de Sônia Elizabeth

Amei Lou Andreas. O poeta precisa de cismas, avatares. Bebo água, ao invés de cicuta. Se o castelo faltasse, escreveria mesmo na choupana simples do bosque

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Rilke — Monólogo em dois tempos

                               Sônia Elizabeth                            

(Ao som de Bach e uma vela acesa)

Bocejo. Começa a noite, inglória em tudo. Oh, Boston, magia! Em ti despertei para o mundo, milagrosamente consciente de que seria triste, romanticamente gótico, abraçando tudo que fosse a veste da morte e sua pantagruélica poesia. Sou eu quem dança a mesmíssima valsa todos os dias. Pratico escárnio, zombaria. A tez desses moços brilhantes que passam, a sentença da vida feito a deformidade de um rosto que só eu via. Chamem Baudelaire, Charles! Posso traduzi-lo aos pedaços, queimando a ferro e fogo a inocência crua da arte. Quem bate? Silencioso vento que sentencia, alguma voz das cavernas! Quem bate?

É tarde. Chamaram-me para um colóquio na madrugada. Acaso sou vulgar, William Yeats? Tu quem o dizes! Indago, apenas. Tuberculose por toda parte, a mão de minha amada da minha se evade. Receberão meu espírito quando eu me for, covardes? Recuo. Invocarão, debaterão. Nada será verdade. À minha maneira sou físico, cosmólogo, criptógrafo. Tudo isso e a sedução do riso que nem sei no rosto. Oh, Boston, deste berço ao poeta e saudaste a honra que mereceste! A glória deste mito feito de tantas metades. Quem bate? Voam as laudas onde marco grafias, páginas onde exerço meu combate, letra a letra! É dura batalha com os enigmas, o papel estreito, a mão trêmula. Diabos, quem bate? Quem quer a loucura em meus contrastes? Estou a provar o chá escuro e molho com ele a minha face.

Alguém lá fora? Annabel? Alguma irmã de caridade? Se for Annabel a vida arde e já nem será assim tão tarde. Um hino. Sim, um hino. Flauta de Pã, que ressoa clássica. Um hino e esse frio, a mágica redenção da crueldade. Annabel que chega, penso, ainda criança, as mãos carregando chocolate. É o vento, sempre, invejoso vento. Sabia que eu e Annabel nos encontrávamos e ele então insinuava tudo, menos paixão. Alguém que geme? Quem geme? As folhas de alguma planta, talvez. Talvez um cão perdido no nevoeiro intenso.

É tarde sim. Não venha ninguém dizer que deliro, anátema de não ter crido, de não ter beijado as santas mãos do clero. Fui em tudo espírita. Os desencarnes, as múltiplas vidas, reencarnando-me em vidas ambíguas. O corvo comigo. Que debate imenso! Um poema inteiro para exaltá-lo, combatê-lo, divinizá-lo! Um poema que me custou as vísceras do fosfato. Ele ali ficou, eternizou, teimou, infernal. Ele foi maior, negro, astuto. Rendeu-me fama. O sonho de muitos: declamá-lo (o poema) inteiro. O corvo em mim, nefasto, horrendo, companheiro. O corvo sou eu.  Boa noite. Sou Poe.

Encastelei-me. Aqui vivem fantasmas, armaduras. Essas escadas contam histórias. Aranhas construíram teias. Assumo-me assim: místico. Romântico sem ser puro. Neo. Dialogar com anjos, meu destino. Tentar explicar o que seja poesia aos que teimam no ofício. Hoje é dia de encontrar esses amigos de asas brancas, assexuados, que voam e povoam todas as circunferências do castelo. Olho, servil e amante, para a natureza, como um sábio. Assim sou o homem divino, a Deus assemelhado pela doutrina de amar, estupefato.

Clara Westhoff, nem te amei tanto! Subordinado aos deuses da poesia, miro estrelas, mais que teus olhos. A existência é meu êxtase. Impressiono-me. O ser interior de mim liga-se ao Pai numa comunhão medonha. Rodin é quem me irmana. As formas criadas nas mãos tamanhas: sufixo dessa imensidão Alemanha. Elegias de paz na ilíada Itália. Um poeta precisa de siso, imensidão, audácia. Precisa de sedação. Falo dos bichos (como alvo o homem), a pantera que nos justifica. Nenhuma menção ao cotidiano faço. Quero aquilo de ligação vertical, o sobre humano, ou algo assim como soberano.

Viajar com anjos, o estilo que faço. Sou de elegias. Um poeta pode ser ave sem ser pássaro, abotoar a camisa de peito nu, no regalo e regaço. Eu quem me sei. Praga, Munique, Berlim, círculos do mesmo compasso. Por longos anos amei Lou Andreas. O poeta precisa de cismas, avatares. Bebo água, ao invés de cicuta. Se o castelo faltasse, escreveria mesmo na choupana simples do bosque. Debalde. Ser eu só já justifica, mas fico melhor e mais puro se um anjo me visita. E transcendentalizo, se um anjo me invade.

Um livro para eleger anjos, saudá-los, dizer que são terríveis. Para enaltecer mulheres, a figueira, esses detalhes da vida que são imensuráveis. Poesia para falar do que parece inconcebível, diáfano. Poesia para não deixar que o universo seja o óbvio e as sequelas da premeditada morte, eternizem. Poesia para justificar o estar aqui, para provar que o homem é mais que a caricatura que o veste.

Anjos somos nós, ainda que decaídos. A asa flechada. O voo interrompido. Posso ser o anjo. Bom dia. Sou Rilke.

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