Escritor como personagem (19): O pouso de Carmo Bernardes, Rosy Cardoso     

Seu Carmo contava histórias do passado, comunicando com o presente e com os olhos postos no futuro. E assim Ivany aprendia a malícia de viver

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Carmo Bernardes: | Foto: Reprodução

O pouso de Carmo Bernardes

Rosy Cardoso

Quanto mais se avança na vida mais se depara com realidades que contradizem e conjugam formas, e estas se encontram ou dissonam experiências de coisas, lugares ou sentimentos vividos. Abster-se de uma delas é também repudiar a outra, pois não se pode exigir mais do ela possa dar. Feliz seria quem abdica de tudo, ou quem, porque abdicou de tudo, nada mais lhe pode ser tirado ou diminuído.

No descanso do ensolarado dia, quando as primeiras rajas no céu anunciavam o horizonte tinto da noite, a mancheia, o sertanejo que acostumou a retina a ver mais fundo e os ouvidos a secular com calma foi asfixiado pelo poder da atração. Valentia de um lobo no encalço de uma onça. Vultos e gemidos denunciavam sinais trazidos pelo cheiro do vento que assaltava a pele, denunciando a felina e nativa. Essa iria estrear a mira e a argúcia implacável do sertanejo que amava a terra feminina. Da pele morena queimada a canela cintilava uma prenda e desejada nativa indiazinha aragarcense.  Cria das matas que emolduram um povoado batizado em 1872 de nome “Deixado”, união de dois rios: Araguaia e Garças, daí Aragarças. Um lugar de encontro, inclusive o especial encontro consigo mesmo e quem sabe até com uma onça, ou uma indiazinha. As especiarias da região, banhadas em águas azuis, eram ouro e índios. Um paraíso encantado dos territórios originários, com cachoeiras incrustradas de verde estendendo madeixas em véus espumados e deslizantes, tesouro dos antigos indígenas que lá habitavam e se fluoretavam nas maravilhosas isotermais águas azuis.

Bernardes, no fervor do dia matizado em sua preguiça roceira, arriou os cavalos enquanto o sol tricotava chamas avermelhadas com o calor. Convidou sua companheira para uma cervejinha no boteco, na virada do corredor aramado em cercas e banhado a pó vermelho. Uma estaca escrita “Sítio Sonho Meu” ladeava a cinquenta metros uma palhoça, Venda do Zé do Bico, provocante na beira da estrada, convidando para cachaçear, esmiuçar ideias e contar vantagens. No seu quintal um assovio de águas, no frescor de cachoeiras ambientadas na memória da índia Ivany que significava “Da terra dos caçadores”.

Enquanto seguiam no trotear fofado pela terra de pó cantante, surge um cachorro do vizinho e embaraça na pata do cavalo que, arrepiado, espalhou a índia ao pó vermelho. A mulher ofegava em gritos de dor, esmurrando a terra, como se chamasse sua tribo e ancestralidade para seu funeral.  Gritava na intensidade do canto e das danças de seu ritual de despedida.

Sentindo meio viva, meio morta, disse ao Carmo que precisava contar-lhe três segredos.

Carmo Bernardes, escritor | Foto: Álbum da família

Carmo Bernardes, que há muito lhe rendia acatamento e obediência — no agridoce convívio, caçado e domado pela astúcia da selvagem, agarrou-se em seu pescoço, sacudindo, sacudindo, num balanceio intenso. Conta, conta! Os dois outros segredos, mesmo que se referissem aos filhos ou a ele, não o interessavam. A chave do cofre ou em qual banco guardava o dinheiro, esse sim, queria saber. A indígena dominava tudo, os negócios, a fazenda, o erário.

Ivany abriu um olho, capitaneou o sertanejo Carmo e, aos lamentos que subiam às alturas, meio lúgubre e confusa, respira fundo, levanta-se do chão, titubeia, sacode a poeira e urra: — Carmo, vamos numa cachaça?

Um silêncio de igreja no meio do mato amansa o sábio sertanejo Bernardes e lá vai ele a contar histórias que romperam fronteiras enquanto em uma dessas, dialogando com o canto das águas, pescava no Rio Araguaia.  Apropriava-se da esperteza de Rosa em Sertão Veredas, encarnando o homem parido pela terra, nas paragens das entranhas de Mato Grosso e Goiás. Em meio as árvores de cascas estriadas e enraizadas nas ribanceiras da mata virgem, estreava seu anzol em noite de minguante. Ressurgia a olhos nus e titubeantes, tal a embriaguez de José de Alencar ao coroar em flores sua virgem Iracema dos lábios de mel, uma nua sombra de fêmea.

Mas desta vez a desdita beleza e pureza travestia-se na selvagem que rosnava como onça. A tímida lua naquele dia soprou-lhe uma índia.

Bernardes transfigurou-se no caçador da espécie, de pele nem um pouco pálida, que se debatia no alento de colonizado, ou melhor dizendo: rendia sinais de encanto para conquistar a indiazinha.

Quase não falava. Ouvia, resmungava e agia.

A natureza armou barreiras de resistência. O pouso foi arrumado e a boa espera silenciada sem tempo de mais delongas. Para o caçador, a expectativa do tempo nos soturnos e desabitados arvoredos é uma relutante lentidão.

A solidão notívaga do caçador surtia resultado e lentamente laçava a selvagem pelos mocotós com linhas resistentes e de seda, para que o toque lhe caísse suavemente diante de tal braveza. A nativa enfurecida em meio a penumbra das folhas e galhos secos rosnava no fiasco de seus pungentes olhos de gata.

Cabelos em crina brava e à revelia, contracenava com os pelos do corpo deixando encoberto qualquer pedacinho de pele que não estivesse tomado pelo ocre do barro na nudez despercebida. Era uma vislumbrante pérola negra. Uma escultura desenhada ao cinzel da natureza e em faíscas pupiladas aos olhos miúdos fitava os cachos matizados do domador.

A comedora de raízes rosnava e, para surpresa do desbravador raivoso, “sertanejo caçador”, seus dentes alcalinos diferiam e iluminavam a escuridão de seu corpo e brilhavam nos ebanizados e contorcidos urros.

A vegetação recobre em tramas de raízes a superfície da terra e estar atento a cada movimento da prenda é ir assimilando qual seria o próximo passo, pois os certeiros olhos vilipendiavam ao redor sem esquecer que a astúcia da primitiva tinha o improviso de uma gladiadora entre o golpe, a defesa e o encantamento.

Não havia espaço para especular outro caminho. Ouvia o ofegante bafejo em odores nervosos de medonha estranheza.

Os gritos foram se adocicando na quietude dos olhos da menina-onça, embriagada de morna essência de arrepio. O aninhamento da silhueta acalentava no estalido de gravetos quebrados no soturno e ermo escuro.

Os recantos sem estrelas em musgos sombreados cobriam de cipós nativos a selvagem. Capturada e amarrada pelo sertanejo nas horas mortas da noite em um tronco de pau-brasil, agora dormia.

Despertara mansa, sem o rancor e a teimosia da cabocla.

Foi tangida pela premissa em acolher uma nova identidade, um novo urrado.

O dia recebia os primeiros clarões da manhã revestidos na presa falida, despida e adocicada. Esse tempo de conquista foi menor que o do criador ao ofertar-nos nos esse mundo de tantas belezas.

O inflexível tempo cuida de amansar e desatar as amarras. E a indiazinha curva-se lentamente no calibre do caboclo domador. A conquista foi de amor. Cessavam-se as unhas e os dentes. Em inúmeras vezes, ao desatar o cinto para surrar, os corpos quentes se entremeavam nas sombras, encipoando e acariciando sob os cúmplices galhos banhados pela boca rosada e carnuda da fêmea-terra. A nativa cedia em ser amada e na rendada companhia de seu par aprendia o riso fácil e gungunava apenas, no deleite e urros de mulher selvagem, enquanto abaixava as vistas para uma nova revoada de sonhos, lenços e regozijos.

Tornou se a etérea musa do sertanejo Carmo. Alva, maternal, de olhar astucioso. — Com ele aprendi a falar o que penso e a correr atrás do que desejo.

Seu Carmo contava histórias do passado, comunicando com o presente e com os olhos postos no futuro. E assim Ivany aprendia a malícia de viver.

A nativa-onça e índia, retirante de uma gleba para outra, agora ditava com pintas ágeis e sensuais o marco gravado nas terras de Xavantes e Bororós. Tornou se malungo-parceira na tradição em adestrar, da ancestralidade as irmandades, avizinhando em todos seu novo trato em ousadia, e no emaranhado dos cabelos selvagens, porém adestrados, mil pontas de soluções.

Ivany vive e permeia no selvagem novo cativeiro, em touceiras de sentimentos que escondem e domam sua liberdade no domesticado ambiente de teias, de leis e compromissos. As recordações do cheiro da terra destilam um perfume de saudade, e nos ladrilhados espaços da abrigada vida pactua laços aguerridos com a onça, na tinta carregada da pele, entre pérolas e luz selvagem.

Seu sono tem o balanço das canoas e o feitiço do verde das encostas, o cheiro dos rios e as centelhas dos territórios conhecidos e desconhecidos, no alto dos escuros do novo cotidiano que seria a partir de então sua nova realidade.

Uma resposta para “Escritor como personagem (19): O pouso de Carmo Bernardes, Rosy Cardoso     ”

  1. Avatar Sônia Elizabeth Nascimento Costa disse:

    Agradeço a publicação do saboroso conto de Rosy Cardoso, querido Euler!

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