Escritor como personagem (18): Machado de Assis — Miragem, de Valéria Victorino Valle

Ele ressurge luminoso na turva profundidade de nós mesmos: Ao Vencedor, as Batatas! Ave, Assis!

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Machado de Assis — Miragem

Valéria Victorino Valle

“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

Machado ajusta os pequenos óculos embaçados e passa a mão nos crespos cabelos. Os olhos e lábios carnudos de mulato agora estão apertados para ver melhor o espelho, grávido de imagens da consciência das sombras e órfão da grandeza de ser humano. Seu semblante, irônico e ácido, permanece fechado e a pena nas mãos trêmulas, rabisca várias sendas para encontrar a fissura especular fantasmagórica e compensatória dos dias da nossa existência.

Olhando de fora para dentro, ele abandona a escrita e segura nos dedos duas partes de uma laranja. Entre resmungos e cochilos tenta colar as partes, mas não dá para unir o fragmentado, o deflagrado, o esvaído, o expurgado. Aproxima a imagem da laranja bifurcada do espelho a fim de ver o reflexo e/ou refração da sua impotência. O espelho devolve o mesmo delírio de sempre: uma sensação inexplicável do Vazio e do Nada.

Contudo, cada letra pode ser vista e lida de dentro para fora também, replica o astuto Casmurro. Dispersa-se das questões de alta transcendência e dos árduos problemas do universo e mergulha nas projeções da hipocrisia e da artificialidade de si mesmo. Como Bruxo do Cosme Velho, ele atravessa o espelho, agora colado com fotografia avulsas, todas refletindo um microcosmo insuportável de Prometeu.

Nesse devir vislumbra-se o pequeno Joaquinzinho soterrado em sua solidão e no abandono social. Num outro quadro, vê o Joaquim Maria, mulato, epilético e gago a enfrentar a dissimulação cotidiana do não-Ser, implodida e interditada, pela superfície dantesca da esfera social. Em outra perspectiva, Assis enxerga o Machado desintegrado, eliminado, consumado em si-mesmo. Ele precisa, mais do que nunca, livrar-se desse enfermiço, conquistar um outro painel, individual, exclusivo, sem ruídos para resistir à crise, porém a imagem devolvida é uma refusão brumada e difusa.

O cáustico Machado, em um momento periférico e informe, deseja que aquele reflexo revessado pudesse brilhar na inconsistência e na irrealidade. Em um microcapítulo, sem digressão, desprovido de sua imagem construída no humor negro, imagina-se em um Memorial de papéis avulsos, com várias páginas recolhidas das cartomantes, marcadas pelo vagar roubado do relógio de Quincas Borba, sendo abraçado por Uns Braços de Helena, Conceição e até Capitu, sempre adormecido e amanhecido na doce poesia romântica, sempre liberto das dores e dos espinhos sociais. Seus olhos só desejam ver o estrábico, sem fluxo de consciência, numa estreita e aguda síndrome de meio-homem.

Essa fase onírica é interrompida por um estalo no espelho. Parece que a magia cigana das cartas, o cronos punidor do relógio, os olhos de ressaca arrastaram para fora o homem aninhado no legado de miséria e na cegueira identitária. Não adianta se esconder na linguagem cassada, nem sufocar as vozes embargadas. Caro leitor, traga a pena e denuncie nossos direitos tolhidos e nossa emancipação castrada nos espelhos impostos a nós.

Todavia, não deu tempo… O eco do tic tac tic tac incessante se instaura. O leitor foi cindido dessa relação especular, desmembrado do universo de Machado e agora tudo poderia acontecer, inclusive ser engolido pelo espelho. Curiosamente, uma resposta emerge do enigma: O Zezinho existente em cada um de nós está morto, eis a compaixão. Mas o Assis, ajeitou os óculos, alisou os cabelos, umedeceu os lábios e singrou o espelho metafísico da aparência e da essência. Ele ressurge luminoso na turva profundidade de nós mesmos: Ao Vencedor, as Batatas! Ave, Assis! Ele desceu as escadas, e nós também.

Uma resposta para “Escritor como personagem (18): Machado de Assis — Miragem, de Valéria Victorino Valle”

  1. Avatar LEILA HORTA disse:

    Muito interessante! O Machado multifacetado,cáustico, desentegrado

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