Escritor como personagem (15): Clarice Lispector — Coisa estranhamente familiar, de Miguel Jorge    

Sou feita de muitas coisas e nenhuma. Sou um misto de “camponesa e estrela do céu”

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Clarice Lispector — Essa coisa estranhamente familiar mas sempre remota, a palavra                                                               

Miguel Jorge   

— Então, minha cara escritora, você escreve para dentro? Isso quer dizer que seus personagens vivem com você, em mistério? Sabe que isso é o que mais me fascina em sua escritura? Justamente esse estranhamento praticamente indevassável. Então, o que mais dizer de você já que recusa viver em sociedade?  O que resta é pulsar o tempo a caminhar pelas estreitas veredas da solidão anotando mentalmente o que lhe passa pela cabeça, sem saber onde e quando parar?

— É que a vida é para mim um túnel profundo e nebuloso.  Sou desejosa do saber e trago comigo a flor do afeto.

— E seu marido? Você está casada, não está?

— Meu marido é diplomata. Por isso não fincamos raízes e vivemos por aí, em diversos lugares e países diferentes.

— Você o ama?

— Por que deseja saber?

— Curiosidade de leitor admirador, que mais poderia ser?

— Quer saber? Sou feita de muitas coisas e nenhuma. Sou um misto de “camponesa e estrela do céu”. Uma noite acordei de madrugada, olhei para meu marido e não sabia quem era ele. Perguntei se me amava? Antes de ele responder eu disse: não, ame a você mesmo, é o quanto basta.

— Como você vive?

— Não sei viver, só sei lembrar-me. Talvez por isso, sinto tanta pena e tantas dores pela impureza de meus personagens.

Então, olho para aquela mulher de olhos oblíquos, rosto angular, misteriosa, bonita, de uma beleza estranha, os olhos a espreitar tudo a sua volta e que faz da língua portuguesa a sua vida interior. Escrever para ela é viver. É como se usasse ecos, sussurros de vozes para criar seu momento. Sabe-se que sua infância foi feliz. E que a menina escondia a dor de ver a mãe adoentada, e sofria por isso.

Você agora é Clarice, uma menina de 9 anos e brinca e corre aloucada pelas ruas de Recife. Sem que você atentasse por isso, sobe e desce depressa as escadas de sua casa e já de volta à rua passa a perguntar aos moleques descalços.

— Quer brincar comigo?

Os moleques a olham como se ela usasse música rouquenha na voz. Se admiravam de seu atrevimento. Por vezes a desprezavam por ser menina. A face estreita deles, os pés descalços. Nos lábios finos e escuros, o mesmo desejo, por vezes desencontrados, de rir.

— Por que você escreve?

— Eu nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Preparei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. Mas, a cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida em que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever. Vivo no quase, no menor e no sempre.

— E o desastre causado pelo cigarro?

Clarice estreita as mãos no peito, como a escondê-las. Não sei explicar o que aconteceu, ela diz com tristeza na voz.  Sei tão somente que se existe o inferno  eu o vivi ali, naqueles instantes de labaredas e desespero. Foi um quase. Um por pouco.

— E suas máscaras?

— Sim, claro, as máscaras!  Uso-as, várias delas ao redor do dia.  Mas a verdadeira, reservo somente para poucos amigos.

— Você se considera um monstro sagrado?

— Odeio esse termo porque sinto que ele me afasta de outras pessoas e às vezes, sinto medo até de minha própria sombra. Por isso sou sozinha.

— Mas, e seus amores?  Fala-se muito de seu bem querer pelo Lúcio Cardoso.

— Dizem isso é? O que as pessoas não sabem, ou fingem que não sabem é que o Lúcio Cardoso é reflexo meu. O mesmo tom, às vezes sombrio, de voz. O mesmo desejo de se esconder dentro dele mesmo. Talvez por isso ele tenha preferido ficar em sua casa assassinada, com seus personagens tristonhos dando a impressão de descidos aos infernos e voltados de lá sustentando suas penas.

— Existe também um contista mineiro, não existe?

— Ouvir o contista mineiro falar de amor era penoso. Eu estava no Limbo e ninguém poderia me alcançar no lugar de onde estava, mesmo que ele forçasse um fogo que já não existia em mim.

— Talvez, o contista mineiro tenha lhe devotado um amor maior que a deixou embaraçada. O que você fez com o amor desse escritor que desejava se casar com você?

— Eu necessitava criar outro tipo de paixão não essa paixão declaradamente avassaladora que mais parecia uma batalha em campo de guerra, que somente teria paz aos pés do altar. Acho que a fragilidade do amor faz dele um terrível monumento que a qualquer instante pode se desmoronar. Talvez por isso eu me mostrasse como um ser infeliz, sozinho no mundo e que causasse pena ou amor aos desavisados. No entanto, sou mulher de intenções claras e de atitudes atadas às minhas condições femininas.

— Você se considera bruxa?

— Não. Mas adoro sexta-feira, 13, agosto. E tenho prazer em lidar com essas figuras que vivem fora da terra. Gostaria de inquiri-las para saber de seus poderes, de seus mistérios.  De saber compreender essas criaturas que vivem em outro mundo. Vê-las florescer com suas poções mágicas, seus mistérios e invenções. Ás vezes também elas nos surpreendem com inesperados afetos.  Cheguei a participar como espectadora de  um Congresso Mundial de Bruxas, em Bogotá, na Colômbia. Foi uma experiência de alta valia, mas, isso não quer dizer que sou bruxa.

— Você acha que viveu outras vidas?

— Sim, acho. E em cada vida escrevi um livro diferente. Talvez por isso mesmo a viagem interior me fascina tanto. Há pessoas que têm vergonha de viver: são os tímidos, entre os quais me incluo. Sempre fui uma tímida muito ousada.

— Por que você me aparecia em sonhos? Sabe que isso me perturbava? Será por que eu correspondia com sua irmã Elisa?

— Eu admirava de você ser ainda um jovem adolescente a se corresponder com minha irmã mais velha, que também era escritora, já adulta e prestes a se casar. Suas cartas eram sempre cheias de afeto.

— Você ria de mim, das minhas cartas?

— Não. Eu percebia que você era contido, tinha receio em ir longe demais. Por que vocês deixaram de se corresponder?

— Não sei. Talvez porque eu me continha demais e achasse que Elisa tinha lá suas outras artes, oficinas, trata humano com as pessoas que eu jamais poderia sonhar.  Mais eu já lia seus livros e admirava a grande escritora que se resguardava dentro de você.

— E eu, no fundo, queria que escrevesse algo sobre mim, sobre minha obra. Você leu todos os meus livros não leu?

Sim, agora eu poderia dizer que havia lido todas as publicações de Clarice Lispector. O nome da autora me inspirava respeito e seriedade. Li, sim, com o prazer e a emoção de um estranhamento. E, sempre a achava, ousada demais.  Criativa demais. Sombria demais. Lidando mais com os meandros escuros da alma do que com a realidade vigente. Talvez seja essa, na verdade, a sua identificação com o Lúcio Cardoso.

— Gostou ou não gostou dos meus livros?

O que iria responder a ela? Que Perto do Coração Selvagem foi um susto? O Lustre um sopro forte no espírito? Maçã no Escuro, um corte mais profundo no amargor dos personagens? Acho que nesse romance Clarice “conquistou profundamente sua liberdade “de sensações e pensamentos”.

— Quer saber mais? Sou sozinha, eu e minha liberdade.

— Eu sei. E seus personagens?

Disse aquilo, assim, numa rapidez de espanto. E me sentia triunfal como se ela tivesse colocado uma coroa de ouro sobre minha cabeça. Ai eu continuei com o meu desejo de falar sobre seus romances: em Paixão Segundo G.H. a escritora mergulha na “quase dor de uma intensa alegria” Nesse romance para mim, o mais intenso, a escritora é assombrada pelos seus fantasmas. Pelo que é místico. Fantástico. Gigantesco. Então, o personagem Martim, ao examinar uma barata saída do seu guarda-roupa, vê que ela, nesse momento, se transforma, torna-se enorme. Cegamente ele obedece ao impulso de esmagar a barata na porta do guarda-roupa, e comer a massa branca, informe do inseto. Em silêncio o personagem fica a pensar no que fez naquele momento ao matar e comer a barata.  Ele se olha e se vê como se fosse um servo a serviço de seu dono.

— Viu como eu vivo perdida no tempo e no espaço?  Instrui-me ao desejo de penetrar sempre as estâncias mais sombrias do ser humano, com o sabor da tristeza.                             — Mas, o grande Antônio Cândido aponta Perto do Coração Selvagem como obra de exceção. O que acha disso?

— Sou muito pequena para achar qualquer coisa de minha obra. Mas fiquei feliz com que o Antônio Cândido disse.

— Como você reage quando denominam sua literatura de feminina?

— Não reajo. Não discuto. A trama dos meus romances talvez seja feminina em sua estrutura totalmente mutilada, para citar Álvaro Lins.

— É sabido que você escreve com a máquina de escrever no colo.  Aquele tec. Tec. Tec. da máquina não a incomoda?

— Pelo contrário. Dá ritmo ao meu trabalho e intensidade a minha imaginação.

— O que você aproveita mais em sua literatura: o sonho ou a realidade?

— Acho o sonho mais completo que a realidade, esta me afoga na inconsciência.

Então se deu que Clarice mal se lembrava do convite feito ao escritor mineiro para jantar em sua casa.  Como se fosse uma objetiva cinematográfica, registro imagens do escritor mineiro sentado lá no fundo da sala, acompanhado de três amigos. Bebem uísque. Conversam. Estão curiosos para conhecer mais de perto a escritora de textos que mexem com o interior das pessoas.  Então, ela desce as escadas da casa, nervosa e sensual. O rosto belo, de uma beleza estranha, enigmática. O que será que se escondia por detrás daquele semblante cheio de ângulos e interrogações? Ela achava que possuía o dom de afastar pessoas. Eles achavam que poderiam conquistá-la com o afogueamento de suas palavras. Na verdade, os quatro homens estavam dispostos a cortejá-la.

— Escrever é viver, o que você acha?

Clarice não sabia ao certo. Escrever era tudo, e pronto. Para isso ela pesquisava a linguagem e a ruptura da linearidade.

Quatro homens. Quatro escritores a desbravarem-se intensamente a se mesmos. Quem é essa mulher? Seus movimentos parecem autos reflexivos, de maneira estranha. Fuma nervosamente um cigarro atrás do outro. E só parece se apaziguar quando o assunto é Lúcio Cardoso.

— E o jantar?

— Jantar? Não tem jantar nenhum. Já despachei a cozinheira. Estou cansada. Vou dormir. Boa noite.

Os quatro rapazes, constrangidos, despediram-se e foram em busca de um restaurante mais próximo dali. Clarice voltou, então, para se mesma. Diante do espelho refletia: “tudo o que faço é um esforço, minha apatia é tão grande, passo meses sem sequer olhar meu trabalho, leio mal, faço tudo na ponta dos dedos, sem me misturar a nada”. A verdade é que ela perseguia uma realidade que lhe escapava. Mesmo Lúcio era essa realidade que lhe escapava pelas mãos. Clarice, igual ao seu personagem Martin de a Maçã no Escuro, procura as palavras mais não as encontrava, por isso seu mundo é particular e único.  Então, a olho por mais de uma vez. Sei que ela me encanta como se tivesse sido cingido por uma corda atada ao seu corpo. Sei que tanto a escritora como seus livros são iguais a um circuito fechado que termina para recomeçar. Despeço-me dela. Não sei se de sua pessoa ou de sua sombra. Seu duplo. E eu caminhava. Para onde? A minha indiferença foi vencida pela claridade de suas palavras, de seu jeito manso de ser sorvida por sua mente. Ela é a Clarice Lispector que tantos admiram. A autora que desce aos extremos de seu inferno particular para de lá resgatar seus acertos. Sua semeadura. E eu sou tomado de grande emoção por ter alçado o mais alto que pude as regiões mais intensas de sua literatura, como um alquimista que dá brilho aos metais. Fico por muito tempo com essas recordações, de maneira natural, bela e arrebatadora. Olho o céu azul e pretendo ver nele anjos a tocar harpas e a cantar, sem o sofrimento de abismos, de misérias e desconsolo. Agora desejava mais era voltar aos livros de Clarice, com mais afeto, com a jovem sabedoria de quem ama a vida e descobre novos espaços. Como um tudo. Um ir longe demais, na busca dos interiores de sua criação.  Sem o receio de ultrapassar os limites da escritora que mais parecia uma fada a conduzir suas histórias como quem pinta uma tela com o engenho e a arte das cores de eternos esplendores.

Na cela não se usa a fala da fala.

Usa-se melhor o conceito dos olhos.

A pressa das mãos. As vantagens

Que se oferecem em neblinas.

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