Escritor como personagem (13): Pessoa & Lispector — Encontro de 2 mentes inquietas, de Iraides Barbosa

Um encontro entre Clarice Lispector e Fernando Pessoa, Chiado, em Lisboa, daria um best-seller? Confira o que realmente “aconteceu”

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Fernando Pessoa & Clarice Lispector — O encontro de duas mentes inquietas do outro lado do oceano Atlântico

Iraides Barbosa

O português se olha no espelho e resolve aparar o bigode. A visita ao barbeiro que o atendia de longa data estava próxima, mas naquele dia não poderia sair a perambular pelas ruas da cidade de qualquer maneira. Precisava ao menos diminuir o volume e conferir as extremidades estreitas. Pareciam feitas a pincel. Para isso usava uma pequena tesoura. Puxou a pele do rosto forçando a boca para o lado de modo que os pelos sobre o lábio superior viessem juntos. Olhos atentos. Mente ainda mais. Mãos ágeis que preferiam estar sobre uma folha de papel em branco que velozmente era preenchida por letras e palavras.

Só ele via que os pelos avançavam rumo ao lábio superior em desordem. Na verdade, bastou serem penteados para apresentar melhor aspecto. Olhando a um metro de distância, não se percebia algo desalinhado naquele rosto. Naquele momento a metafísica era renegada a segundo lugar. Aquele homem ereto era mesmo criativo, ou seria melhor dizer inventivo. Não admitia o marasmo. Era avesso ao singular. Precisava de algo mais.  Ora se expressava como sendo de temperamento fleumático, ora como sanguíneo e sempre com idealismo e sem limites. Com aquela imaginação fértil, fazia brotar personalidades retratadas em seu diário, como que a brincar. Em cada uma a satisfação e a realização do muito que teimava povoar a mente sôfrega.

Terminada a tarefa que ao final entendeu ser melhor deixar para o barbeiro, fez algumas anotações. Aquele era um ritual, enquanto não criasse algo que fizesse o coração palpitar e um sorriso camuflado vencer a sua resistência em revelar emoções e movimentasse o bigode, não se sentia apto para sair de sua vivenda. Consultou o horóscopo do dia. Refletia sobre o que fazer. Seria melhor desistir do encontro para o qual, desconfiava, já estava atrasado. Ainda não havia vencido a si mesmo. A leitura o fez franzir a testa e olhar fixo, sem direção. O texto devorado há instantes não recomendava sair e se aventurar naquele momento. Bem que preferia dar continuidade ao que escreveu ao se levantar.

Os pensamentos lhe roubavam do presente ligeiramente. Ora lhe chamava a atenção a última anotação, ora algo novo. Um nome veio com força: Caeiro. Isso. Estava certo. Preferia dar asas a algo importante. Caeiro teria muito por anotar. Melhor definir o seu nascedouro e o seu mapa astral. Já estava divagando. O pensamento, veloz para todos, para ele tinha ainda mais empenho e visão.

Já estava mais familiarizado com a escrita em português, por pouco permaneceria se expressando em inglês e perderia uma grande e intensa paixão. Ao longe e do alto vê a torre de Belém. Naquela posição, perdia a noção do tempo. Revestia-se de uma nova personalidade através de sua criatura. Gostou de Alberto Caeiro. Servia ao seu propósito. Em transe, transcendia e se esquecia de quem era. Naquele instante de criação se ouvisse alguém lhe chamar, certamente não daria ouvidos. Estava entregue, absorto.

Enquanto isso, no bairro do Chiado, mãos claras e dedos alongados, seguravam um cigarro pela metade, que se queimava rápido, tamanho era o trago impaciente. Olhava o relógio de pulso atentamente. O mostrador com o arremate em vidro pesava numa pulseira fina de couro preto e se virava no pulso, para baixo. A mão direita de uma mulher impaciente girou o relógio para o outro lado. Não suportava atraso. Computava não somente os minutos que se esvaíam, mas também os segundos que giravam uma sequência de números e beiravam a completar uma hora de espera. À sua esquerda um café charmoso e um nome peculiar. Certo que era atrativo, mas preferia esperar pela chegada do convidado para entrar no local e se servir. Sentada ficaria ainda mais frenética. Definitivamente não sabia esperar. A impaciência não permitia. Ao menos estivesse com o seu caderno de anotação. Naquele dia contava em ouvir, estabelecer contato e revelar a admiração por alguém que não conseguia decifrar.

Fernando Pessoa por Almada Negreiros | Foto: Reprodução

Mesmo tendo muito a esperar, permaneceria no local combinado. Precisava aplacar os pensamentos. Por vezes tinha medo de ficar louca, de tanto discorrer. Abriu a carteira de cigarros conferindo o seu conteúdo. Ainda estava pela metade. Respirou fundo. Ajeitou os cabelos. Retocou o batom ali mesmo na calçada. Conferiu o relógio mais uma vez. Agora sim, um alarme soou gritante em sua mente. Ele não virá, pensou. Os olhos giravam em todas as direções, a registrarem as pessoas que passavam por ali. Um senhor robusto com uma criança. Não é ele. Uma senhora e seu esposo certamente. Também não é aquele que espera. Deixou de olhar as pessoas. Observava as paredes do café à sua frente pela porta de madeira e vidro, entreaberta. O lustre gigante saía do teto amadeirado, ameaçando a força da gravidade, mas se mantinha inerte. Percebeu ainda um balcão pela lateral oposta a uma escadaria. Já estivera ali saboreando um café de bom aroma e fino sabor, mas não descera aqueles degraus. O cigarro findou. Respirou mais uma vez profundamente levantando o pulso à sua frente. De novo, não. Não vou mais conferir as horas. Fico mais um pouco e me retiro. Estava decidida. Chiado era muito atraente aos seus olhos. A cada parte algo lhe chamava a atenção e aos poucos a impaciência desistiu dela. — Clarice. Precisava conferir onde daria aquela rua. Passos firmes se distanciavam do café. As mãos em braços soltos num movimento de vai e vem. — Clarice. É comigo. Sou eu. Os pensamentos a distanciaram da razão de estar naquele local. Os pés paralisaram. Será?

— Me perdoa, querida, pelo atraso.

O café contou com dois hóspedes com muito assunto. A conversa fluía e cada um relatava experiências e vivências como ninguém. Acaso tivesse alguém anotando e um best-seller teria sido publicado. Frases magnéticas e inspiradas eram proferidas. Era como se falassem em versos soltos que poderiam compor um poema. Sim, aquela conversa se assemelhava a um esboço poético. Os compromissos seguintes de ambos foram soterrados pelo esquecimento.  Naquela tarde um casal instigante, dois pares de olhos duplamente atentos circulavam pelo Jardim da Praça do Império. Os guardanapos do café saíram repletos de anotações em bolsos e numa bolsa minúscula. Nos dias seguintes Clarice era desperta por versos de amor, palavras de encantamento e conquista que eram retribuídas. O sentimento intenso tomou conta, atropelando entendimentos contrários.

De volta ao seu país, ela desfaz a mala e retira o livro “Mensagem”. Iria ler cada um dos quarenta e quatro poemas com sofreguidão. Tinha em mãos uma obra de seu amado. Relê a dedicatória: “Para Clarice Lispector, um sopro de ânimo”. E os seus olhos verdes brilharam intensamente. Aquele homem gentil parecia adotar um código de conduta próprio. Era mesmo um ser enigmático. Ela não conseguiu decifrá-lo.

A saudade atrelada à admiração inspirou mais uma crônica, dessa vez desapartada do humor negro, a prosa fluía e permeava por becos que chiavam esperança. Sem outra razão para a escrita de outro texto naquele momento, publicou a crônica na coluna semanal que mantinha no “Jornal do Brasil”. Nem os leitores mais assíduos perceberam os vestígios de uma paixão avassaladora nas entrelinhas.

Do outro lado do Oceano Atlântico, o autor da dedicatória se isolava novamente, retrocedendo ao ostracismo. Empenhava-se no desenho, na alquimia e na escrita como preferia Fernando Pessoa. Algo extra o inquietava ainda mais. Por inúmeras vezes o olhar se perdia no horizonte e a lembrança tomava conta de sua mente e o motivava ainda mais a se entregar à grafia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.