Escritor como personagem (12): Jorge Luis Borges — A segunda vida suspensa de Borges, de Edival Lourenço 

Toda a realidade seria o sonho dentro de um sonho, de um sonhador sonhado; o labirinto subjetivo neoplatônico

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Jorge Luis Borges — A segunda vida suspensa de Borges                                                               

Edival Lourenço 

Jorge Luis Borges é o ícone da literatura argentina. Quem não leu suas obras, espalhadas em poemas, ensaios e contos, lembra-se dele pelo menos como o gênio esnobado pelo Prêmio Nobel de Literatura. Se tivesse ganhado, seria apenas mais um. Se bem que, para a Argentina, o primeiro na literatura. Mas, para o mundo, apenas mais um nobelado. O fato é que ele foi um dos escritores mais inventivos e cultuados do século 20, um verdadeiro renovador da linguagem literária. A Academia Sueca teve a oportunidade de fazer o reconhecimento e premiá-lo durante décadas, mas comeu moscas. Não ser distinguido resultou na maior distinção que o prêmio poderia fazer a um gênio de sua estatura.  Não receber o Nobel é seu prêmio sui generis.

Como ocorre com a maioria dos escritores, sobretudo com os dotados de singularidade, Borges tinha suas obsessões. Dentre elas, o labirinto, o tigre, o espelho, a religião, o xadrez, a encruzilhada, os caminhos bifurcantes, a biblioteca infinita e, principalmente, o seu duplo.

Em momentos cruciais, o seu eu se bifurca e encontra-se consigo mesmo, proporcionando momentos oníricos, dramáticos e carregados de intensa nostalgia e reflexão. Às vezes, ocorre também num clima de surpreendente normalidade, num ambiente de realismo mágico, em que o estranho quase passa despercebido. Há outros momentos em que Borges sonha uma pessoa e propõe-se a integrá-la à realidade. Nesse processo, conclui, não sem espanto, que ele próprio não passa de sonho de um terceiro, num processo de duplicações que tenderiam ao infinito. Toda a realidade seria o sonho dentro de um sonho, de um sonhador sonhado; o labirinto subjetivo neoplatônico.

A verdade é que Borges passou pela vida como um D. Quixote, lutando contra os moinhos de vento. E os moinhos, outros não foram, senão ele mesmo. Instantes em que o eu borgiano fragmenta-se para se apresentar diante de si como seu semelhante.  Um semelhante bíblico, com todas as diferenças cabíveis, ou as semelhanças disfarçadas.  Com isso conseguiu momentos de alta voltagem estética e psicológica que o consagraram como um gênio. E, sem dúvida, leva-nos a crer que teria sofrido redução ou enquadramento, caso tivesse recebido o Nobel.

Dois exemplos flagrantes de encontro com seu duplo estão nos contos “O outro” e “O Sul”.

Em “O outro”, Borges já idoso, encontra-se consigo mesmo, quando jovem, cheio de sonhos, animado com a escrita do seu primeiro livro de poemas.  Nesse encontro, admite ao jovem que ao chegar à idade em que o velho se encontra, estará quase cego, mas, para não o assustar, conforta-lhe dizendo que a cegueira chegará lenta e mansamente como uma tarde de verão.

No conto “O Sul”, Borges tem a morte biológica num hospital em Bueno Aires, por um acidente banal. Seu duplo escapa e vai rumo à instância dos antepassados, no Sul. Passa por caminhos estranhos, num mundo primitivo, encontrando pessoas surreais. Cruza com um desafeto ocasional, enfrenta-o num duelo de adagas, para o qual não tem nenhuma habilidade, para morrer dignamente, em luta, por um trespasse, feito o avô, herói de guerra.

Mas o encontro mais terrível de Borges consigo mesmo se dá no leito real de morte.  Em 14 de junho de 1986, em Genebra, já nos estertores, Borges tenta falar com sua mulher, Maria Kodama, para que anote o que iria ditar. Já debilitado não tem forças físicas para tal. Mas sua força onírica está em plena forma. Em seu último conto, que sonhou ditar, Borges encontra-se com o jovem que acabara de publicar “Fervor de Bueno Aires”, seu primeiro livro, com ótimas repercussões.  Depois dos movimentos de aproximação, que às vezes são difíceis entre um jovem e um velho, no leito de morte, o velho explica ao jovem que, para ganhar o Nobel, ele teria que se adaptar aos posicionamentos politicamente corretos, preconizados pelo júri do prêmio. Mas isso não valeria a pena. Diz que a honraria maior é merecer e não, ganhar, quando o não premiado se torna superior ao prêmio. Ninguém na terra teria um prêmio Nobel com a proeminência do seu.

O jovem vê por outro ângulo e anima-se com a possibilidade de receber a honraria e a grana decorrente. Diz que fará os ajustes necessários de comportamento para tal. Sem tempo de entabular maiores argumentos, Borges, com as últimas forças de suas mãos aduncas, esgana o jovem, sufocando-o até a morte, ao mesmo tempo em que sua própria morte acontece.

Encerra-se, ali, não só a possibilidade de a Academia Sueca se redimir, mas também a última chance de uma segunda vida de Borges sobre a terra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.