Escritor como personagem (11): Carson McCullers — A pianista do Café Triste, de Talissa Teixeira Coelho

Eu queria observar as pessoas e não ser olhada o tempo todo, e era essa inveja que sentia de Carson, a de poder sair, me camuflar e ver como os outros são

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Carson McCullers — A pianista do Café Triste

Talissa Teixeira Coelho

Conheci Carson em uma apresentação, ela sentou na primeira fileira e não tirava os olhos de nenhum detalhe, parecia estar maravilhada com o que via, se sentia tão familiarizada e dava boas risadas, tínhamos a mesma idade e era como se conseguíssemos nos conectar, aquela garota tímida da plateia era o espectador que eu sempre esperei e não sabia que esperava.

Não entrei para o show dos horrores por vontade própria, mas aos 5 anos de idade, minha mãe não poderia mais criar uma criança como eu e eu fui vendida, no entanto, permaneço por vontade própria, ela começou a ir em todas as apresentações durante o verão, até que decidi que a chamaria para o meu camarim, estava ansiosa para quem sabe fazer amizade para além do circo, um artista reconhece o outro quando o encontra e percebi que aquela garota era também especial, mas ela era especial como observadora, todos se perguntam como pode existir algo como eu, mas ela simplesmente não questionou.

Descobrimos muitas coisas em comum, a paixão pela música, pela literatura e por conhecer a história de outras pessoas, continuamos nossa amizade através de cartas, eu acompanhei por anos sua carreira e sempre recebia seus escritos de primeira mão, a incentivava a continuar mesmo quando ela temia as críticas e quando ela tinha medo de expor em seus textos aquilo que as pessoas temiam sentir ou admitir em voz alta, meu sonho era dirigir o show, eu tinha tantas ideias, mas a criatura nunca dirige o próprio show, ao menos era o que eu acreditava, e me propunha a ser a primeira a conseguir, consegui aos poucos me tornar a atração principal e melhorar cada vez mais minha narrativa, acrescentando fatos e acrobacias, ela era a minha inspiração e eu a inspirava em suas histórias.

Mesmo com tantos sonhos e tanta coisa a se fazer as vezes a vida se torna pesada e frustrante, há tanto a se pensar e sonhar, certas vezes queremos fugir não porque estamos tristes, mas porque já realizamos demais, quando ela ficou internada após uma tentativa de suicídio, sentiu o peso dos olhares e constrangimentos, foi a partir desse momento que ela pode realmente entender como eu me sentia, quando era vista para além dos shows, nos shows eu representava e não me importava muito o espanto ou admiração que eu causava, desde que alguma emoção eu conseguisse despertar nas pessoas, fora dali eu só queria poder observar as outras pessoas e não ser olhada o tempo todo, e era essa inveja que eu sentia dela, a de poder sair, me camuflar e ver como os outros são, por momentos eu não queria ser o foco de nada.

Ela perdeu seu papel de observadora e passou a ser vista e, o pior, por apenas um aspecto que não era o todo do que ela sentia ou era, sua saúde nunca foi boa e com o passar dos anos, as dificuldades cresciam, sabíamos que estávamos destinadas a acabar mal, eu por minha anomalia e ela por suas anomalias, apesar de tudo, eu consegui montar a minha própria trupe e assumir meus shows, e ela continuou observando e escrevendo.

Nesse momento de ascensão eu estava pronta para o meu maior e melhor show, preparei toda a apresentação e se chamaria “A pianista do café triste”, mesmo com o lado direito do corpo paralisado ela tocou piano como nunca, e naquele momento, sentiu realmente que nada faltava, ela tornava o show dos horrores mais que especial, era como se sempre tivesse nascido assim, a sua incapacidade física a fazia brilhante e os aplausos eram sua realização, no final trocamos de papel eu sou agora a escritora e ela a atriz.

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