Entre a comédia e o absurdo, o humano não domesticado do Livro Dos Cachorros

Recém-lançada, a obra do escritor Luís Roberto Amabile experimenta narrativas para falar do homem contemporâneo

Em seu segundo livro, o ex-repórter da Folha de S. Paulo e Editora Abril, Luís Roberto Amabile, propõe experimentações com diferentes narradores e temáticas | Foto: Arquivo Pessoal

Em seu segundo livro, o ex-repórter da Folha de S. Paulo e Editora Abril, Luís Roberto Amabile, propõe experimentações com diferentes narradores e temáticas | Foto: Arquivo Pessoal

“E se a literatura fosse um animal que arrastamos ao nosso lado, noite e dia, um animal doméstico e exigente, que ja­mais nos deixasse em paz, que fosse preciso amar, alimentar, levar para passear?”
Roger Grenier

Eduardo Lacerda
Especial para o Jornal Opção

Com essa epígrafe do francês Roger Grenier inicia-se “O livro dos cachorros”, a segunda coletânea dos contos de Luís Roberto Ama­bile. O volume chega ao mercado pela Patuá, editora independente que vem despontando na lista de prê­mios literários. Dividido em três seções, intituladas “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”, a obra pro­põe experimentações com diferentes narradores e temáticas. Com textos curtos, às vezes curtíssimos –– no caso dos minicontos –– e ou­tros nem tanto, o autor acentua a co­média e o absurdo, o que provoca no leitor uma bem-vinda estranheza.

A história da publicação de “O livro dos cachorros” começa em 2011, quando a coletânea foi premiada no Plano de Edições do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul (IEL–RS). Na mesma época, no entanto, outra amostra dos contos de Luís Roberto (“O amor é um lugar estranho”, que viria a ser finalista do Prêmio Açorianos) recebeu sinal verde para publicação da Grua Livros. O autor, então, foi aconselhado a não lançar duas obras ao mesmo tempo e optou por não publicar pelo IEL.

Qual bicho?

De acordo com o escritor e professor Altair Martins, num dos prefácios, os cachorros são uma metáfora. “Não é um ‘livro de cachorros’, pelo menos não na acepção dos bichinhos peludos e faceiros que acompanham o homem há pelo menos 20 mil anos”, afirma Altair. “O animal a ser domesticado nessas páginas é um que ainda não aprendeu a se dominar”.

Ainda no prefácio, Altair ressalta as características das seções do livro. Segundo ele, “‘Orelha em pé’ exige que nos portemos como auscultadores da vida”, pois nos diálogos se insinuam crimes e paixões, se insinuam referências kafkianas pregadas a um mundo pretensamente normal “e tudo sob um humor, humor negro às vezes, e quase constante”.

Com textos curtos, o livro é dividido em três seções: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”

Com textos curtos, o livro é dividido em três seções: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”

“‘Cio’ acrescenta o tesão, a coisa que nos devolve ao animalesco e talvez ao mais humano”, diz. Ele acrescenta que há ainda momentos de lirismo erótico, como no conto intitulado “De­leite”. A última seção, “Dentes à mostra”, constata “o quanto rilhamos os dentes mesmo quando os atos são apenas pensamentos, ou o medo é apenas escrita”, ressalta.

No outro prefácio, a escritora e jornalista Cíntia Mos­covich também destaca a comicidade, mas não só: “Com variadas pitadas de humor, certas doses de sexo e um lirismo meio oblíquo, Luís Roberto chega ao segundo livro com a marca de quem sabe o que quer e possui todos os meios para realizar o que deseja”.

Segundo ela, o leitor se depara com uma galeria de personagens urbanos, reconhecíveis, familiares, o que de forma algum os deixa menos incômodos ou, em vários sentidos, miseráveis. “É delas, dessas pessoas que se encontram em cada esquina e às quais poderíamos rotular de ‘comuns’, que brota uma linguagem fluida e coloquial”, escreve, alertando: “Mas atenção: é uma linguagem que, apesar da aparente simplicidade, nunca cede a esquemas facilitadores”.

Escritor

Luís Roberto Amabile nasceu em Assis, município paulista, no ano de 1977. Hoje vive da escrita cambiando entre o outono de Porto Alegre e Sampa. Ele militou no teatro e no jornalismo –– se formou pela Universidade de São Paulo (USP) e atuou como repórter de cultura, turismo e gastronomia nos jornais Folha e Es­tado de S. Paulo e na Editora Abril.

Mestre em Escrita Criativa, ele agora se doutora em Teoria da Literatura. Tudo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC–RS), onde também idealizou a Festiva –– Festa da Escrita Criativa.

Já teve contos e peças incluídos em antologias no Brasil, em Portugal e na Espanha. Seu livro de estreia, “O amor é um lugar estranho” (Grua, 2012), foi finalista do prê­mio de Porto Alegre “Açori­a­nos”, no ano de 2013. Já “O Livro dos Cachorros” (Patuá, 2015) acaba de sair “de orelha em pé, no cio e cheio de filhotes e com os dentes à mostra” pelo mundo.

Leia abaixo “Convite”. O conto integra a seção “Orelha em pé” do “Livro dos cachorros” do autor Luís Roberto Amabile

“Oh, rapaz, quanto tempo!”
“Que surpresa! Como é que você tá?”
“Tudo bem. E você?”
“Vou levando.”
“Parece melhor. Mais esbelto.”
“É que estou com câncer.”
“Câncer?!!”
“É.”
“Que… coisa.”
“Também não precisa fazer essa cara.”
“Desculpe… Não deve ser um caso muito sério, né?”
“Metástase.”
“Metástase?!!”
“Acredita? Já espalhou até pros ossos. Acho que não duro até o fim do mês.”
“Uau… Bem… Nem sei o que dizer.”
“Pois é.”
“Mas… Fora isso tá tudo bem?”
“Fora eu ter câncer em estado terminal? Sim, está tudo relativamente bem.”
“Perfeito! A gente tem de olhar sempre o lado bom, né?”
“É, a gente tem.”
“E a Selma?”
“Tá ótima. Até arrumou um amante.”
“Um amante?!!”
“Espertinha, né? Agora que vai ficar com o dinheiro de meu seguro de vida, ela quer é aproveitar.”
“Espertinha mesmo… Ela devia te dar apoio neste momento.”
“Mas ela dá. Aliás, é a única coisa que ela tá me dando ultimamente. Apoio pra eu morrer logo.”
“Que… bizarro.”
“É, né.”
“Acho que fiquei um pouco chocado… E de resto… tudo bem?”
“Sim, sim. Estou com câncer em estado terminal e minha mulher arrumou um amante, mas de resto está tudo bem.”
“Que legal… Bom, tenho de ir.”
“Sem problema. Também estou com pressa. Marquei com meu agente funerário. Acredita que queriam servir pão com presunto no meu enterro?”
“É mesmo?”
“É. Rodei a baiana pelo telefone. Agora estou indo lá pra garantir ao menos um brie ou um camembert. Sempre achei que queijo francês combinava com velório. Por causa daquele cheirinho de defunto.”
“Sabe que você tem razão?”
“E é chique…”
“É, ótima escolha. Mas eu tenho mesmo de ir. Foi bom te ver, hein. Até logo.”
“Até. Ah, você ainda mora no mesmo endereço?”
“Moro.”
“Então tá. Te mando um convite pra comer queijo. Deve ser ainda este mês.”

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