Em Gênesis, Robert Crumb faz um quadrinho palavra por palavra da Bíblia e esse é o diferencial

Ao manter o texto bíblico e não adaptá-lo, quadrinista mostra visualmente todo o peso contido no livro original

“Gênesis”, de Robert Crumb, não é pegadinha. A obra é realmente o livro de abertura da Bíblia, com texto ipsis litteris, fiel 100% aos textos originais. O que é narrado, ficou narrado, e o que é diálogo, se manteve — e essa não releitura textual faz diferença (pro bem).

Ainda assim, o álbum é muito mais do simplesmente o livro bíblico “Gênesis”. Afinal, a arte de Crumb está ali. E é nela que mora o diferencial.

“Da criação do Universo até a morte de José, aqui está o Gênesis. (…) O ‘Gênesis’ de Crumb representa Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e sua arca, Sodoma e Gomorra e o Egito dos faraós. Usando as sugestões de texto, Crumb dá corpo a personagens fascinantes, como o astuto Abraão, o sonhador José, o angustiado Jacó, a apaixonante Raquel e o próprio Deus.”

Não por acaso foi classificado como “visionário” pelo “The New York Times”, “gênio” pelo “The Guardian” e “brilhante” pelo “USA Today”.

Detalhes

O texto bíblico utilizado na íntegra é longo. Então, o material, lançado por aqui pela Editora Conrad tem 224 páginas, além de um formato bonito: 27,4 x 21,2 cm. Até porque são páginas cheias de quadros e detalhes no traço único de Crumb.

São centenas de rostos (de filhos de filhos de filhos), reis, escravos, com narrativas gráficas únicas que trazem violência e também sexo, afinal, está na Bíblia. E tudo fica grandioso na interpretação de Robert Crumb.

Se você já leu Gênesis [da Bíblia], e ainda tem alguma lembrança, deve saber que não é dos livros mais brandos da Bíblia. É sórdido e violento — quem não leu deve, pelo menos, saber de Adão e Eva, arca de Noé, Sodoma e Gomorra etc.

Infelizmente, em nossas catequeses da vida, passamos correndo sem pensarmos bem no escrito. Aqui a ilustração faz toda a diferença, pois escancara o escrito e até ressalta o absurdo, o que faz com que a leitura seja indicada tanto para aqueles que possuem religiosidade quanto para os quem não têm.

Robert Crumb, que merece o qualificativo de “brilhante” e “genial” | Foto: Reprodução

Introdução

Robert Crumb também fez uma introdução para o quadrinho, em que reforça ter reproduzido “fielmente cada palavra do texto original, que tirei de várias fontes, incluindo a Bíblia do Rei James, mas sobretudo a recente tradução de Robert Alter”.

“Se minha interpretação visual e literal do livro do Gênesis ofender ou ultrajar alguns leitores, o que parece inevitável dada a reverência de tantas pessoas por ele, tudo que posso dizer em minha defesa é que abordei isto como um trabalho de pura ilustração, sem intenção de ridicularizar ou fazer piadas visuais”, diz também, por precaução, na introdução.

Inevitável, também, vistou o conteúdo do próprio texto bíblico, que costuma ser não tão imaginado como em uma obra visual.

Autor

Robert Crumb é o maior ícone mundial do quadrinho underground, da contracultura. Nascido em agosto de 1943, entre suas obras, estão “O Gato Fritz”, “América”, “Meus Problemas com as Mulheres” e muitas outras.

Até por seu histórico, muitos leitores poderiam esperar uma adaptação não literal de Gênesis, mas ao não fazer isso, Crumb acertou muito mais. Claro, isso não impediu a frustração de muitos… Não é o meu caso.

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