Editor da Draco, Raphael Fernandes fala sobre editora e obras do passado, presente e futuro

“Nosso objetivo é colocar o fantástico no seu quintal, afinal, os nossos autores podem morar no seu bairro”

O editor e sócio da Editora Draco, Raphael Fernandes, autor da HQ “Ditadura no Ar” e outras mais, bateu um papo com o Jornal Opção. Durante a conversa, lembrou das origens da empresa de publicação de livros e quadrinhos, que fez dez anos de vida em 2019, e de sua entrada na mesma.

Entrevista

Você é sócio na Editora Draco e editor, mas não fundador. Como chegou à editora, como funciona. Enfim, fale sobre a história dela.

A Editora Draco foi fundada em 2009, por Erick Sama, quando foi lançada a coletânea de contos “Imaginários — Volume 1”. A obra reunia grandes nomes da literatura fantástica brasileira das mais diversas gerações. Desde então, a casa editorial se tornou uma das principais publicadoras de literatura de gênero lusófona, mas em especial brasileira, ganhando diversos Prêmios Argos e revelando nomes como Eric Novello, Jim Anotsu, Karen Alvares, Ana Lúcia Merege, Eduardo Kasse e muitos outros. nAté que, em algum momento, surgiu o interesse de publicar histórias em quadrinhos e foi aberta a seleção para a coletânea “Imaginários em Quadrinhos”. Foi quando mandei uma HQ para ser avaliada e recebi o feedback de que seria aceita. Mandei outra história para um segundo volume, recebi o mesmo retorno. Na terceira história que mandei, fui convidado para editar o quadrinho.

Raphael Fernandes: editor e sócio da Editora Draco | Foto: Reprodução

Como começou a sociedade?

Depois de três ou quatro publicações editadas por mim, fiz uma proposta de sociedade. Foi assim que a Draco se tornou a minha casa e tenho feito de tudo para publicar boas histórias como editor e roteirista. Hoje acumulamos também uma porção de Troféus HQMix e conquistamos um espaço no coração do leitor que curte histórias de terror, fantasia, ficção científica e outros gêneros, mas com aquele tempero gostoso que só o brasileiro sabe fazer. Colocamos o fantástico no quintal do nosso público. Sem ser cafona ou cair nos clichês, nossas obras originais divertem e provocam reflexão. Somos influenciados por grandes nomes como Karen Berger e Rogério de Campos.

O Jornal Opção publicou uma resenha do seu quadrinho “Ditadura no Ar”. Esse não é um material originalmente lançado pela Draco, certo (mas depois foi)? Tenho que dizer que essa HQ é incrivelmente importante, especialmente para nós jornalistas. Também percebe dessa forma? Consegue relacioná-la ao cenário atual? E acredita que ela tenha melhorado com o tempo, por conta disso?

Agradeço pela resenha. “Ditadura No Ar” foi publicada originalmente como uma minissérie independente em quatro partes, mas a edição integral e com uma série de correções saiu pela Editora Draco. Fico muito feliz que o quadrinho seja tão valorizado por profissionais do seu gabarito, mas como autor me atenho a dizer que é o meu trabalho mais conhecido pelo público. No momento em que foi produzida, o autoritarismo era apenas uma sombra do passado e foi feita como uma forma de preservar a memória coletiva daquele período grotesco da história do Brasil. No entanto, sob o atual governo e com a popularização da ideologia reacionária de extrema direita, a obra se tornou extremamente atual e desperta um debate que parecia definido. O processo de produção dela foi todo baseado em histórias de pessoas que viveram no período e nos grandes discos da música brasileira produzidos entre 1968 e 1974. Para falar a verdade, considero uma obra um tanto quanto dolorida de fazer. O desenhista Abel sofreu muito com o final, mas eu não conseguia encerrar a história de outra maneira.

Trilogia duotone: criatividade e inteligência nos quadrinhos | Foto: Jornal Opção

A obra melhorou com o tempo?

Não sei dizer se a obra tem melhorado com o tempo, mas uma resenha no Meteoro fez uma análise tão interessante que acrescentou um novo nível de leitura que eu não havia planejado. Admito que fico surpreso com o alcance e a reação positiva dos leitores.

Agora quero focar exclusivamente na Draco. Qual o perfil da editora? O que publicam e como sobreviver e manter artistas nesse mercado editorial tão complicado?

A Editora Draco é especializada em livros e quadrinhos originais produzidos especialmente para o público brasileiro. Nós queremos trazer a seção de aventura, perigo e fantasia para o cotidiano do nosso leitor. Nós publicamos quadrinhos e livros dos mais diversos gêneros da cultura pop, como terror, ficção científica, crime, faroeste, humor e outros, sempre buscando um meio termo entre boa qualidade gráfica e preço acessível. Nossas publicações buscam unir entretenimento e grandes questões sobre a vida, o universo e tudo mais. Nós temos buscado trabalhar com financiamento coletivo, impressão sob demanda e boas parcerias de divulgação e distribuição. Nossas obras podem ser encontradas nas principais livrarias, lojas especializadas ou em nosso site.

Algo de que gosto muito são as antologias que fazem, como as HQs de terror com temáticas em cores (“O Rei Amarelo”, “O Chamado de Ctchulhu” [verde] e “Demônios da Goethia” [vermelho]), além de outras. É uma publicação que tem feito sucesso entre leitores? E mais: é uma forma de descobrir novos talentos?

A trilogia de horror cósmico duotone da Draco foi um verdadeiro ponto de virada para nós. O sucesso de público e crítica foi surpreendente. As três publicações já alcançaram o status de “clássico dos quadrinhos de horror”, ganhando até mesmo o Troféu HQMix em algumas categorias. Sem dúvida, toda coletânea permite encontrar novos talentos, mas o grande lance foi colocar os autores que já estavam produzindo com a Draco para contar histórias intensas de horror. Já recebi feedbacks diversos sobre esses quadrinhos, mas o meu favorito foi um cara que disse ter ficado com tanto medo que deu as HQs para um primo, só para tirar aquilo da casa dele.

Entre essas coletâneas existe uma focada no Rap e na periferia, “Na Quebrada”. Assim como “Ditadura no Ar”, essa me parece uma história muito importante para a nossa realidade. Inclusiva. Me fale um pouco dessa obra e de onde surgiu a ideia de fazê-la?

Durante alguns papos com o Gil, do canal Load, percebi que sentia falta de publicações que explorassem o universo do hip hop, mas sem cair nos clichês do crime. Nós sentíamos falta de narrativas fantásticas que empoderassem o público da periferia e ajudassem essas pessoas a descobrir o universo fantástico de sua própria cultura. Foi com isso em mente que comecei a organizar essa coletânea que levou dois anos para ser produzida e reúne oito HQs com todos os principais elementos do hip hop: grafite, batalhas de MCs, DJs, break etc. No entanto, acima de tudo, essas HQs tinham que refletir o cotidiano e o estilo de vida da galera das regiões periféricas do Brasil.

Com sorte, conseguimos reunir um time que trouxe experiências pessoais sobre como é essa vida, além de visões distintas de como tudo isso acontece nas ruas do Brasil. A ideia era ter o maior número possível de autores negros, mulheres e periféricos. Acredito que conseguimos realizar uma obra com diversidade. Além de um comentário do próprio Load, a obra conta também com textos do especialista em narrativas negras Alê Santos e do rapper Rashid.

Acredita no poder social das HQs (e outros, como informativo, histórico etc.)? Elas podem abrir a cabeça das pessoas, mudar o mundo?

Sem dúvida. Acredito que, como toda forma de expressão artística, as histórias em quadrinhos podem ajudar as pessoas a compreenderem outros paradigmas de realidade. Por meio dessass narrativas gráficas, o leitor pode descobrir outras formas de perceber a realidade e também descobrir outros mundos possíveis. A coisa mais importante para um quadrinista deve ser a possibilidade de contar histórias e oferecer novas experiências para os leitores. Esse é o meu objetivo como editor e roteirista.

A Draco tem uma “biblioteca” extensa. Quais são as HQs já lançadas pela editora em seus dez anos de história?

Em vez de ficar listando, acho mais fácil passar o link com todas as nossas HQs, incluindo capas e resumo de tudo isso (https://editoradraco.com/categoria-produto/quadrinhos/).

Você tem alguma que goste mais, em particular?

Sinceramente, não sei se há uma HQ que eu goste mais como editor. Cada uma tem sua graça. No entanto, estou sempre com a cabeça nas próximas publicações. Recomendo fortemente que os leitores acompanhem a Draco nas redes sociais para descobrirem o que estamos aprontando.

E o que vem por aí? Quais os próximos lançamentos e qual a próxima coletânea?

O próximo lançamento será no Catarse (site de financiamento coletivo). Vamos fazer o financiamento coletivo de duas graphic novels ao mesmo tempo, ambas aventuronas ambientadas no Brasil. O que posso adiantar é que uma envolve um herói nordestino e a outra um cara com poderes de visão. Estamos com algumas coletâneas em produção, como “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial”, “Sangue No Olho” e “Astrum Argentum de Aleister Crowley”, mas ainda não tenho datas para lançamento. Para saber mais, só acompanhar a Draco no Instagram.

Deixo o espaço aberto para que você comente algo que ainda não comentou.

Muito obrigado pela oportunidade de dividir um pouco da nossa história e dos nossos projetos de dominação mundial (risos). Falando sério, nós fazemos histórias em quadrinhos e literatura para quem curte séries de TV, filmes e quadrinhos divertidos, mas sente falta de personagens com os quais possa se identificar e que as histórias aconteçam em lugares que você pode visitar qualquer dia desses. Nosso objetivo é colocar o fantástico no seu quintal, afinal, os nossos autores podem morar no seu bairro. Tudo isso é o #dracospirit.

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