É hora de tirar os sentimentos das prateleiras

Graça Taguti
Especial para o Jornal Opção

Imagine-se em um supermercado absolutamente vazio, porém com as prateleiras abarrotadas de produtos de diversas categorias. Nesta cena, apenas você desfila pelos corredores, deixando no ar a reverberação dos seus sapatos de couro. Aquele ruído, dentre tantos outros, que gostamos de ouvir num filme, enquanto devoramos pipocas no cinema.

Já pensou nisso? Exercite suas fantasias então. Pense agora num filme sem barulhos, trilhas sonoras e outros fascinantes malabarismos das mixagens de áudio. Você estará assistindo a uma história agonizante, quase morta, que não nos toca, nem emociona de modo algum. Exatamente como comer pas­tel de feira sem caldo de cana. Fei­joada sem Caipirinha. Churras­co sem cerveja. Não dá para encarar.

Continuando nosso passeio pelo mundo das reflexões, voltemos ao supermercado abandonado. E se não entrar mais ninguém, além de você, nele? Primeira­mente, inúmeros itens perderão seu prazo de validade. No açougue e na peixaria as carnes e frutos do mar apodrecerão. Na seção de frios, a mesma coisa. O estabelecimento, embora seja o único do gênero no seu bairro, fechará as portas. Irá à falência.

Situação intrigante. O que estará ocasionando a súbita paralisia do consumo? Afinal, antes de tudo, as pessoas precisam comprar itens de primeira necessidade para sobreviver, sublinhará você em voz alta, com um misto de espanto e indignação. Neste momento, faremos nova visita a outro supermercado simbólico, situado em duas regiões. Em nossa cabeça e corações.
Assim, por hipótese, substituiremos os produtos nas prateleiras por sentimentos. Imagine que a cena anterior de que participamos juntos, se repita. Se os sentimentos permanecerem sem ser requisitados por ninguém, ficarão cobertos de poeira, tristeza e esquecimento. Como se fossem espantalhos, afugentando a plena e vigorosa expressão emocional decorrente de seu uso.

Sentimento não é livro para figurar em estantes. Nem se assemelha a taças de cristal francês. Tampouco imita porta retratos — para preencher de sorrisos as prateleiras da estante do seu quarto.

Sentimento também não é comida congelada para penar em frigoríficos ou mesmo no seu freezer. Sentimento é como uma pessoa. Precisa de exercícios, ar puro, sol a pino. Abraçar árvores, beijar a luz. Senão ganha peso, obesidade mórbida, pressão alta, diabetes e que tais, provenientes do sedentarismo e da inércia.

Se o amor, por exemplo, não for detectado nem manifesto, incha dentro da gente e depois explode de solidão. Se a alegria não encontrar janelas para se exibir, uma fresta que seja para acenar aos transeuntes. Como o vizinho doente do apartamento em frente. O gatinho frajola que adora se exibir no parapeito contíguo ao seu apartamento. Enfim, se você estiver impedido de se expressar pelas agruras de um coração de ferro — que assalta seu peito de vez em quando — acabará definhando como uma vela que se apaga. Minguando como lua cinza sem consolo no abandono infinito dos céus.

É aquela velha história. Muita gente existe. Entretanto não vive. Locomove-se pelo cotidiano feito um autômato. Indivíduos de lata, vazios. A tal da felicidade virou palavra estrangeira.

Língua medieval, sem tradução disponível na contemporaneidade.

Sentimento saudável é tudo. Acorda cedo, se espreguiça, cumprimenta os demais com quem compartilha espaços. Tenta conversar com a raiva, que dá um soco no ódio, que vira instinto assassino. Não é à toa que sentimento que insiste em manter a boca fechada, alienado de si mesmo, aprisionado na própria e assustada alma se desintegra. Esvai-se, no meio de tantas experiências importantes pelas quais você costumeiramente passa.

Sentimento amordaçado despede-se das suas emoções mais tenras, pela inconsciência do que o comove no intenso fluxo das artérias imiscuídas na sua rotina. O término dessa história já conseguimos deduzir. Sentimento asfixiado vira coágulo, destruição, secura, maldade e vingança. Pelo fato de deixar escapar as cores da vida, acaba sofrendo um enfarto fulminante.
Mas fique tranquilo. Isso só acontece com quem já morreu e não sabe. O que não é o nosso caso, felizmente.

Graça Taguti é escritora e jornalista.

via Revista Bula

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