Dois perdidos em uma cidade suja

Em entrevista a Ademir Luiz, Márcio Jr. e Julio Shimamoto falam de suas trajetórias, influências artísticas e, principalmente, sobre a parceria na produção do romance gráfico “Cidade de Sangue”, uma narrativa noir que se passa em Goiânia

Márcio Júnior: “Sou apaixonado por quadrinhos. Acho uma linguagem incrivelmente sofisticada e fascinante”
Shimamoto: HQ não deve ser apenas passatempo alienante e comercial

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Márcio Jr. é um dos mais versáteis agitadores culturais de Goiás: músico, cineasta, produtor, pesquisador, escritor, animador e, agora, quadrinista. Julio Shimamoto é uma lenda viva dos quadrinhos brasileiros. Nesta entrevista a dupla fala de suas trajetórias, influências artísticas e, principalmente, sobre a parceria na produção do romance gráfico “Cidade de San­gue”, uma narrativa noir que se passa em Goiânia.

Ademir Luiz — Vocês estão lançando o romance gráfico “Cidade de Sangue”, uma narrativa policial que moderniza a estética noir, acrescentando camadas de psicologia e violência extrema. “Cidade de Sangue” é um projeto antigo do Márcio. Como o mestre Shima se tornou seu parceiro na empreitada?

Márcio Jr — O “Cidade de Sangue” nasce como um projeto para longa-metragem em animação. Na ocasião, participei de um edital para desenvolvimento de roteiro – que, infelizmente, não foi contemplado. Como todo o escopo da narrativa havia sido criado, me pareceu absolutamente pertinente transformá-la em uma história em quadrinhos. Tive então a sorte e a felicidade de contar com o lendário Julio Shimamoto, mais conhecido como mestre Shima, nos desenhos. Nossa parceria nasceu em um outro trabalho muito importante na minha trajetória, o curta-metragem em desenho animado “O Ogro” (2011), que eu e minha esposa Márcia Deretti dirigimos adaptando uma clássica HQ do Shima. Desde então, já produzi com ele a capa do CD da banda Kamura, a identidade gráfica de uma edição da “Trash – Mostra Interna­cio­nal de Filmes Independen­tes”, bem como do projeto literário “Cidade Sombria”. Ter o Shima em “Cidade de Sangue”, mais que a realização de um sonho, equivale a ter o Pelé jogando no seu time. Não tenho palavras para expressar minha gratidão e privilégio.

Julio Shimamoto — Quando Márcio Jr. me propôs parceria em novo projeto, fiquei indeciso, devido ao tamanho, em torno de cem páginas ou mais. Algo inédito para mim, adepto de HQs curtas. Concluí que usando o meu estilo tradicional seria impossível aceitar. Justo nessa época eu vinha minhocando uma técnica jamais experimentada, e propus ao Márcio se toparia que eu a usasse, com risco inerente de tudo que é novidade. Como também desenha, ele ficou muito curioso e topou sem piscar.

Ademir Luiz: Os desenhos de “Cidade de Sangue” foram, literalmente, feitos à ferro quente? Como é essa técnica e por que a opção por ela?

Márcio Jr — Literalmente! O Shima pode explicar melhor a técnica utilizada por ele. Mas o que mais me deixa embasbacado é a ousadia e inquietude de um artista do seu calibre, que segue se reinventando após cerca de seis décadas de constante inovação. Eu boto minha mão no fogo ao afirmar que o processo criado pelo Shima em “Cidade de Sangue” é único no mundo dos quadrinhos.

Julio Shimamoto — Parte da pergunta foi respondida. Sobre a técnica: é desenhar com o calor do ferro de soldar sobre papel térmico de fax, dispensando lápis, pena, pincel, e tinta nanquim. Resultado? Traço imprevisível, hiperagressivo, quase indomável. Como apreciamos correr riscos em busca do novo…

Ademir Luiz — O argumento de “Cidade de Sangue” é da artista e produtora Márcia Deretti. Qual ca­mi­nho foi traçado entre a concepção da ideia original e o roteiro final?

Márcio Jr — Costumo dizer que depois que eu conheci a Márcia, nunca mais tive uma ideia sequer. Conceitos, cenas e imagens jorram ininterruptamente da mente dela. Foi assim com “Cidade de Sangue”. Estávamos num brainstorming para bolar um argumento para o tal edital de desenvolvimento de roteiro e ela veio com a premissa básica da trama: uma tórrida paixão entre a nova fotógrafa e o repórter do caderno de polícia de um grande jornal. Sempre excitada em cenas de crime, acabam transando em uma delas – o que termina por incriminar o infeliz. A partir deste plot, desenvolvi os personagens, seu universo, ações e consequências.

Como também desenho, meu método de criação de roteiro de quadrinhos é esboçando página por página. Foi a partir daí que o Shima ilustrou a HQ, sempre com total liberdade para propor as alterações que julgasse necessárias. O Shima é conhecido por não seguir muito as orientações dos roteiristas, tomando a narrativa gráfica para si. Confesso ter ficado bastante orgulhoso ao ver que ele usualmente seguiu a estrutura que eu fui apresentando ao longo do processo. Todas as mudanças propostas resultaram em notáveis ganhos dramáticos para “Cidade de Sangue”. Fui também bastante influenciado pelas incríveis páginas que o Shima ia me devolvendo. Isso sempre impactava o que eu escreveria a seguir.

Ademir Luiz — Márcio, você participou da coletânea de narrativas noir “Cidade Sombria”, organizado por Adérito Schneider, com o conto “Igreja em Cédulas”. O mestre Shima ilustrou o livro. Podemos dizer que “Cidade Sombria” e “Ci­dade de Sangue” são obras irmãs?

Márcio Jr — Se considerarmos que eu e a Márcia estamos na gestação dos dois livros – que inclusive foram lançados pela nossa editora, a MMarte –, podemos sim dizer “Cidade Sombria” e “Cidade de Sangue” são obras irmãs. Shima também está presente nas duas. Ou seja, com a presença do Adérito, formamos uma dessa famílias contemporâneas. A bem da verdade, a aproximação das obras não foi calculada, mas é muito bem-vinda. O projeto de “Cidade de Sangue” é bem mais antigo. O nome, inclusive, é uma espécie de homenagem ao romance “Cidade de Vidro”, de Paul Auster, posteriormente quadrinizado por Paul Karasik e o genial David Mazzucchelli. A ideia de ambientar a trama em Goiânia faz parte de um desejo constante de situar a cidade em um imaginário que ultrapasse nossa região. E acho que o Adérito também tinha essa premissa, mesmo sem saber do “Cidade de Sangue”. A princípio, o “Cidade Sombria” se chamaria “Goiânia Noir”, mas o nome estava indisponível por pertencer a uma franquia de livros que incluem “Rio Noir”, “Nova York Noir” e por aí vai. A ideia de “Cidade Sombria” trazer as incríveis ilustrações do Shima foi minha – afinal, poucos artistas brasileiros têm um traço tão apropriado para este gênero. E lançarmos os dois livros praticamente na mesma época foi algo fortuito. Vejo uma obra reforçando o interesse na outra. Tem sido normal a venda casada das duas “Cidades”.

Ademir Luiz — O cenário de “Cidade de Sangue” é Goiânia. Carlão, o protagonista da narrativa, mostra-se muito incomodado com o avanço da violência na cidade. Essa característica do personagem é uma forma de mostrar que o projeto higienista modernizador de Pedro Ludovico fracassou? Que Goiânia, criada para ser uma “cidade jardim”, em algumas poucas décadas se tornou uma “selva de pedra”?

Márcio Jr — Exato. Mas este não é um privilégio só da nossa capital. O inchaço das cidades-polo e as desigualdades sociais são combustível que inflamam a explosão de violência a que continuamente assistimos. A reversão deste quadro parece cada vez mais distante, principalmente após o golpe – que ataca de forma clara os mecanismos de distribuição de renda criados na última década e meia.

História se passa em uma Goiânia ‘noir’, sombria e mergulhada na violência

Ademir Luiz — Na arte de “Cidade de Sangue” não há tons de cinza. Tudo é preto, branco ou vermelho vivo. A aplicação do vermelho foi feita pelo artista Tiago Holsi, autor de “Entardecer dos Mortos”. Houve influência de obras como a série em quadrinhos “Sin City”, do Frank Miller, ou do filme “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg? Essa paleta de cores minimalista, para além de fruto direto da técnica do desenho à ferro quente, seria uma forma de exprimir uma noção de dualismo ou dicotomia? Goiânia como uma cidade do pecado à Frank Miller?

Márcio Jr — Não vejo dualismo em “Cidade de Sangue”. Não existe na HQ a dicotomia herói x vilão. A trama gira em torno de como as circunstâncias da vida e o próprio acaso podem atropelar as pessoas, muitas vezes sem a menor possibilidade de redenção. O vermelho foi utilizado como um elemento narrativo, acentuando tanto a violência da cidade grande quanto as paixões arrebatadoras que vez por outra batem à nossa porta. Foi um prazer contar com meu amigo Tiago Holsi – sem sombra de dúvidas um dos maiores talentos da cena contemporânea dos quadrinhos goianos. Trabalhamos e retrabalhamos cada quadro da HQ, sempre sob a direção do Mestre Shima. Acho que o vermelho aumentou a intensidade frenética da arte do Shima, além de remeter à tradição do terror no quadrinho brasileiro, como muitos críticos têm reconhecido. Acho natural associarem à “Sin City” – afinal de contas, Frank Miller é um autor icônico e muito popular. Mas não é dali que vem a ideia do uso da segunda cor – um expediente relativamente comum, principalmente em quadrinhos mais autorais. Associar o trabalho do Shimamoto com Sin City também não é novidade. Foi algo constante, por exemplo, quando lançamos o curta “O Ogro”. O que muitas vezes as pessoas não sabem é que a HQ na qual “O Ogro” se baseia, feita pelo Shima com tinta branca sobre cartolina preta, antecede em aproximadamente uma década a série de Miller. A própria abordagem do gênero policial (ou noir) é diferente em relação à obra de Frank Miller – da qual sou um grande fã, diga-se de passagem. Enquanto em “Sin City” há um elemento notadamente fantástico – com ninjas e personagens capazes de feitos super-heroísticos –, “Cidade de Sangue” possui um viés mais naturalista. Acho que estamos mais próximos de Nelson Rodrigues do que de Frank Miller.

Julio Shimamoto — Endosso totalmente a exposição de Márcio Jr.. Difícil foi calcular a dosagem do vermelho. Cuidamos detidamente para que o vermelho valorizasse o preto sem eroic-lo. E observe-se que Tiago soube usar sua balança instintiva, magistralmente, harmonizando as manchas vermelhas com o estilo rebarbado dos desenhos.

Ademir Luiz — O prólogo de “Cidade de Sangue” lembra muito a origem do Batman. Inclusive, a menina que sobrevive ao massacre no começo da narrativa se torna uma fotografa profissional especializada em registrar situações violentas, como Vicki Vale, um dos mais célebres interesses amorosos do Batman. Isso foi intencional ou divago? Se é divagação, faz algum sentido em termos de inconsciente?

Márcio Jr — Penso que são coisas bem distintas. O fato de o jovem Bruce Wayne ter presenciado a morte dos pais o transforma em Batman, um super-herói arquetípico – o que é bastante fantasioso, ainda que funcione excepcionalmente bem dentro do gênero ao qual o personagem pertence. Com Paula, o resultado é outro. A violência a que ela é submetida na infância termina por convertê-la em uma adulta desestruturada e cheia de transtornos – que nem o dinheiro pôde resolver. Ela está longe de ser uma combatente do crime. Sobre Vicki Vale… Todos sabemos que o Batman é gay.

Julio Shimamoto: Como sugere Márcio, cenas violentas despertavam em Paula forte compulsão erótica em razão de sua infância traumática.

Ademir Luiz — Falando em Batman, qual tipo de quadrinhos vocês leem? Privilegiam os quadrinhos autorais? Acompanham os quadrinhos comerciais?

Márcio Jr — Sou apaixonado por quadrinhos. Acho uma linguagem incrivelmente sofisticada e fascinante, que dá conta da complexidade do mundo e da vida. Obviamente, prefiro os quadrinhos autorais aos comerciais. Mas mesmos nestes, o que me atrai são as possibilidades de autoralidade. Percebi muito cedo que o diferencial não estava nos personagens, mas sim nos autores. Em um mês, a HQ do Capitão América era muito legal. No outro, um porre. Se o personagem era o mesmo, o que havia mudado? Os caras que escreviam e desenhavam.

Então, ainda moleque, comecei a me ligar muito mais nos roteiristas e desenhistas do que nos personagens. Ainda hoje é impressionante para mim perceber que, dentro de indústrias tão conservadoras quanto a dos super-heróis ou dos quadrinhos italianos da Bonelli (tipo Tex), alguns artistas consigam, contra todas as probabilidades, deixar algo de pessoal e único. Outra coisa que sempre acompanhei desde muito cedo foi o quadrinho nacional – que hoje vive seu melhor momento, na minha opinião. Então, dá para imaginar o quanto me sinto privilegiado e feliz por ter criado “Cidade de Sangue” ao lado de uma lenda como Julio Shimamoto.

Julio Shimamoto — Li muito super-herói e faroeste na infância, até os 11 anos de idade. Depois dessa idade, devido notas escolares baixas, papai rasgava e os queimava no quintal. Dessa idade em diante, até os 13 e 14, fui obrigado a ler jornal, livros juvenis da Editora Melhoramentos, Monteiro Lobato, Karl May, revistas Seleções, Coletânea e Eu Sei Tudo – eram as “Super Interessante” e “Galileu” daqueles anos 50. Detalhe: de quadrinhos, só “Epopéia” da Ed. Ebal estava liberado. Aos 15, já trabalhando, comecei comprar e ler compulsivamente pulp fictions ou pocket books, gêneros phantasy e noir de Ellery Queen, Mickey Spillane, Raymond Chandler, Howard Hunt, revistas policiais Emoção e Contos de Mistério da Ed. La Selva. Aos 17, estreando como desenhista de HQs de terror, li contos góticos de Allan Poe, Hoffmann, Walpole, Hawthor­ne, para aprender a estrutura narrativa desse gênero. Entre 1964 e os anos 80/90 trabalhei intensivamente com publicidade, com algumas incursões no mundo dos quadrinhos para ler gibis autorais como Metal Hurlant, Heavy Metal, Animal, El Vibora, Skorpio. Praticamente não participei do boom dos mangás. Li “Lobo Solitário”, “Kamui” e “Vagabond”, mas esses eram gekigá (estilo dramático).

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