Do universo Sandman, Os Caçadores de Sonhos é bela história de amor do mestre Neil Gaiman

HQ adapta lenda japonesa e traz elementos da mitologia oriental com os personagens do escritor britânico

Francisco Costa

A Netflix anunciou, recentemente, que pretende lançar uma série inspirada na obra máxima do roteirista inglês Neil Gaiman. Trata-se de Sandman, que acompanhou a jornada do perpétuo senhor dos sonhos, Morpheus, de 1989 a 1996 — a série regular, pelo menos.

Esta obra, que consolidou o gênero de quadrinhos adultos nos 1990, deu origem a outros títulos no mesmo universo, além prequels, sequências e obras meramente relacionadas. Uma destas é “Os Caçadores de Sonhos”.

Esta, é preciso pontuar, é uma obra em duas versões. O primeiro volume é um livro ilustrado, escrito por Gaiman em prosa e ilustrado por Yoshitaka Amano; enquanto o segundo é uma versão tradicional em quadrinhos pelo autor original e o desenhista P. Craig Russell – e é nesta, por razões óbvias, que iremos focar.

História

O título é uma adaptação de uma antiga lenda japonesa, a história de uma raposa que se apaixona por um humilde monge. Claro que, por se tratar do universo de Sandman, o animal, que descobre que demônios pretendem tomar a vida de seu amado, vai em busca da ajuda do senhor dos sonhos para evitar esse fim trágico.

Este amor, obviamente, não desperta aleatoriamente. No começo do livro, a raposa e um texugo apostavam quem seria capaz de tirar o monge de seu pequeno templo para ali habitar. Por serem seres antigos e mágicos do antigo Japão, os animais eram capazes de usar magia e se metamorfosear em outras criaturas e até seres humanos.

E foi durante uma maquinação, em forma de humana, que a raposa, ao ser ajudada pelo monge e sentir seu toque, se apaixonou. Um amor que dificilmente daria certo, alertou em dado momento Morpheus, que, apesar de protagonista de Sandman, faz breve, mas importante, participação nesta bonita história.

“O mundo era diferente no antigo Japão. No passado, criaturas mitológicas e lendas andavam sobre a terra, nadavam pelo mar e cruzavam o ar. Alguns seres eram gentis, outros cruéis. Alguns eram selvagens e outros, a muito custo, podiam ser domesticados. E então uma astuta raposa apostou que faria um humilde jovem monge perder a guarda de seu templo – mas acabou perdendo o próprio coração. E então um mestre demoníaco cobiçou a força daquele monge e decidiu roubar para si a vontade férrea que ele tinha em seu interior – a qualquer custo. E então o Rei dos Sonhos viu-se intervindo em favor de um amor que nunca deveria ter acontecido”, resume a sinopse.

Neil Gaiman: craque inglês | Foto: Divulgação

Desenrolar (com spoilers)

O amor dos dois é impossível, quase como um Romeu e Julieta oriental. Para salvar o monge a raposa teria que sacrificar a própria vida e, de fato, tentou fazê-lo. Porém, seu amado não permitiu e, o esforço da pequena criatura, não adiantou.

No sonhar, eles ainda se encontraram e tiveram a chance de se amar — ou sonhar com seu amor — uma vez. A raposa estava destinada a viver e, apesar dos pedidos do monge e da sugestão de Morpheus, ela buscaria vingança.

Vingança, porque os demônios que arquitetaram a morte do monge e que ela havia descoberto estavam a mando de um senhor humano. Um homem que queria encontrar a paz, mas que só o faria se a roubasse do amado da raposa, que levava uma vida simples a cuidar de um templo de forma solitária.

A raposa, então, usaria sua astúcia e charme para tentar tirar tudo do senhor. Suas riquezas, suas magias, o controle sobre demônios, além de sua esposa e jovem concubina.

Mitologia

No Japão mitológico, existem uma série de seres extraordinários, dentre eles os bakus, que podem devorar sonhos de maus agouros, caso o sonhador os invoque após um pesadelo. Na armadilha arquitetada pelo senhor contra o monge, a morte viria após três noites de sono.

Na primeira, o monge sonharia com uma caixa; na segunda, com uma chave; e na terceira ele abriria e morreria sem dor. A raposa sonhou os sonhos de seu amado nas duas primeiras noites e na terceira, ela mesma abriu a caixa – e teria morrido, se o monge, que já tinha sentimentos por ela, não tivesse ido recorrer a Morpheus e exigido o sonho que lhe era de direito.

Mas não é a única referência mitológica da história. O senhor humano, conhecido como o mestre do Yin-Yang, o Onmyoji, dominava criaturas do inferno japonês. Entre elas, “espíritos e demônios do ar, Oni e Tengu recebiam e acatavam suas ordens”.

Conclusões e amor

Ao fim, um corvo a serviço de Morpheus lhe pergunta que bem foi feito, uma vez que, como era para ser, o monge morreu, a raposa não conseguiu ajudá-lo e o Onmyoji perdeu tudo. Para o senhor dos sonhos “lições foram aprendidas, fatos ocorreram da maneira como deveriam ocorrer”.

De fato, pouco se alterou, mas o caminho percorrido enriqueceu a não alteração das coisas. Se a arte de P. Craig Russel não dá ao roteiro de Gaiman o máximo, ela cumpre seu papel — mas, quando se trata de Neil Gaiman, a verdade é que a arte é mero detalhe em um roteiro rico e cativante.

A obra publicada, em 2005, pela Panini com 17,5 x 26,5 cm tem 148 páginas de quadrinhos. Ela capta o universo colocado pelo escritor e trabalha uma lenda japonesa de forma muito caprichada e eficiente.

Além disso e, principalmente, trata-se de uma história de amor. E como diria Paul McCartney em Silly Love Songs: “Você deve pensar que as pessoas já se cansaram de canções bobas de amor / Mas eu olho ao meu redor e vejo que não é assim / Algumas pessoas querem encher o mundo com canções bobas de amor / E o que há de errado nisso?”.

Não há nada de errado com as histórias de amor. Especialmente as tão bem contadas.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.