Considerações sobre “Sertão-Veneza”, de Jacques Fux. É um pequeno diamante para o cérebro
08 setembro 2026 às 12h30

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Foi com os acordes da música de Sá e Guarabyra na rádio-cabeça que reabri, entre tantas vezes, nessas últimas semanas, o belo livro de Jacques Fux “Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas”¹ (Autêntica, 96 páginas), neste que é o 70º. aniversário da publicação do monumental “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.
Antes que Fux escrevesse a palavra, o sertão brasileiro já sabia guardar essa mesma promessa líquida. “O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”, cantaram Sá e Guarabyra em Sobradinho (1977), retomando uma profecia atribuída a Antônio Conselheiro, décadas antes de qualquer represa. É como se o sertão-Veneza de que fala Fux já estivesse, há muito, anunciado em versos populares.

Mais que uma classificação de gabinete colonial, o que interessa aqui é o sertão como território longínquo, distante do mar e dos caminhos fáceis, que só se deixou habitar com a chegada do gado. E é justamente nesse território de bois e vaqueiros que Rosa viveu uma de suas travessias mais intensas: os dez dias de boiada narrados no diário homônimo, “A Boiada”, ao qual não tive acesso direto, mas que Fux generosamente cita e dá a referência ao leitor em seu livro.
Fux inicia falando dos Diários da Itália, em que Rosa, acompanhado de sua mulher Aracy, registra sua partida de Milão para Veneza, em 1949: “Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de fruição, após anos de inquietações”. Depois de 9 de outubro de 1949, o olhar de Rosa para a encantada Veneza, e para a Itália, nunca mais foi o mesmo, assegura Fux.
Rosa é viaggiatore e homo viator: o que se encontra na estrada, na travessia, a caminho de Deus ou do Diabo. Entre bois, vaqueiros e a escuta dos bichos, das plantas e dos rios, sua integração com a natureza é comunhão
“Durante essa viagem pela Itália — e a partir das observações e anotações — o viaggiatore Rosa conseguiu ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse ‘sertão’ insular, milenar e suspenso.”
Já em 28 de maio de 1952, “Rosa faria outra viagem, ainda mais sensorial e literária” e, como bom anotador, detalhista e profundo, escreveria outro diário — dois cadernos: A boiada 1 e A boiada 2. O anotador era o mesmo dos Diários da Itália e do Diário da Alemanha.

A emoção era mais profunda porque se tratava de “um retorno ao passado e às memórias da infância”, durante uma travessia de mais de 240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Vale afirmar que essa viagem cabe na designação de Walter Benjamin para o tipo que “busca viajar para o passado, a fim de se encontrar consigo mesmo” e isso, assegura o pensador alemão, tem afinidade com o próprio livro de memórias.
Rosa não era apenas viaggiatore, mas também um homo viator: aquele que se encontra na estrada, na travessia in via, a caminho de Deus ou do Diabo. Entre bois, vaqueiros e a escuta atenta dos bichos, das plantas e dos rios, sua integração com a natureza se fazia de comunhão e reencontro, quase mística, e a viagem, mais do que deslocamento geográfico, tornava-se ritual de passagem.
É o mesmo spettatore dos Diários da Itália, atento às miudezas do cotidiano, que aqui reaparece de bota e chapéu, atravessando o sertão como antes atravessara as plantações de amoreiras e parreiras italianas. Muda a paisagem; não muda o gesto de um homem que caminha para, no caminho, refazer-se.
“O brasileiro Guimarães Rosa e o italiano Italo Calvino convidam a entender que a viagem mais profunda é aquela que versa-à-travessa a linguagem e que retorna, inevitavelmente, ao lugar-berço de onde viemos”
São escassas, é bem verdade, as informações precisas sobre essa espécie de terra ignota que foi o sertão profundo. Mas, quando nos entregamos ao exercício da imaginação, o termo ganha contornos novos, como neste trecho de “Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas”:
“Emerge então o Sertão-Veneza. Sertão-Veneza, espaço de sonho — não porque é ideia e sonho, mas porque escapa ao tempo linear, flutua entre o que foi e o que ainda poderia ser, foge dos padrões e das referências. Em ‘As Cidades Invisíveis’ [Italo Calvino] e ‘Grande Sertão: Veredas’, a viagem não tem destino final; o importante é a travessia — ou as muitas travessias, transformações e jornadas do corpo e da alma. O que nos oferece Rosa, e o que Marco Polo oferece a Kublai Khan, não é um mapa aprofundado do mundo, mas um espelho da experiência humana, com suas perdas, desejos, lembranças e ficções.

“Nesse espelho, Veneza surge como símbolo da fragilidade e da beleza da civilização, como cidade impossível e eterna; como representação da morte e da vida; o sertão também é isso tudo, e ainda um reflexo irrefletido de passagem e permanência. Rosa e Calvino nos convidam a entender que a viagem mais profunda não é aquela que atravessa oceanos e alcança um sonho ‘sobre águas’, ou a que cruza com dificuldade o Liso do Sussuarão para vencer uma guerra, mas aquela que versa-à-travessa a linguagem e que retorna, inevitavelmente, ao lugar-berço de onde viemos”².
Um dos segredos deste pequeno grande livro parece ser que Fux emula a arte roseana, fazendo o leitor atravessar outros textos, conhecendo as viagens e as anotações minuciosas de Guimarães Rosa e nos motiva a reabrir outros livros: o de Italo Calvino (“Cidades Invisíveis”), o de Joseph Brodsky (“Marca d’Água”, que conta com edições no Brasil: da Cosac Naify, com tradução de Júlio Castanón Guimarães, e da Âyiné, com tradução de Odorico Leal) e o de Walter Benjamin (“Rua de Mão Única”).
E aqui cabe uma dúvida que talvez nem o próprio Riobaldo resolvesse. Há um trecho em “Grande Sertão: Veredas” em que o narrador se pergunta:
“Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas…”³.

Se nem o jagunço que atravessou o Liso do Sussuarão a pé tem esse saber, o que dizer de quem tenta entender o sertão sobrevoando o Atlântico, à distância de Veneza? Talvez Fux e Rosa não estejam fazendo o mesmo gesto que os pássaros do romance, mas um gesto irmão daquele. Sertão só se compreende de fora, de longe, com o olhar remedindo, sem nunca parar de medir. Sertão: espaço de sonho.
Calvino, em outro livro que Fux me fez reabrir, chega a uma imagem irmã. Descrevendo o voo das andorinhas sobre os telhados de uma cidade, entre as tantas descritas por Marco Polo a Kublai Khan, o narrador anota este trecho de prosa poética, que mais me lembra a primavera de Lecce do que Veneza: “Mas é difícil fixar no papel os caminhos das andorinhas, que cortam o ar acima dos telhados, perfazem parábolas invisíveis com as asas rígidas, desviam-se para engolir um mosquito, voltam a subir em espiral rente a um pináculo, sobranceiam todos os pontos da cidade de cada ponto de suas trilhas aéreas”4.
Não é, afinal, a mesma dificuldade do sertão? Também ali o caminho resiste ao papel, ao mapa, à travessia registrada em diários; também ali só um olhar de cima, em pleno voo, alcança o que se perde quando a gente tenta fixá-lo por escrito.

E é talvez nesse mesmo sonho que se fecha o círculo aberto no início destas páginas. Se o Sertão-Veneza já se anunciara, na citação de Fux, como espaço de sonho, que foge do tempo linear e dos padrões do viajante acordado, é o próprio Brodsky, resgatado por Fux em comentário sobre “Marca d’Água”, quem oferece a chave dessa recorrência. Comentando um verso de Anna Akhmátova sobre a Itália como um sonho que retorna, Brodsky conclui: “Voltei sempre ao sonho, e não o contrário”5.
Talvez seja esse, afinal, o gesto verdadeiro de Rosa em Veneza, de Fux junto a Rosa, e, certamente, o meu, releitor incorrigível dessas páginas: não esperar que o sertão-Veneza nos visite, mas voltar a ele, deliberadamente, sonho após sonho, travessia após travessia.
Notas-referenciais
¹ FUX, Jacques. Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas. Belo Horizonte: Autêntica, 2026. Idem, FUX, Jacques. Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas. Belo Horizonte: Autêntica, 2026.
² ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 435.
³ CALVINO, Italo. As Cidades Invisíveis. Trad. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, p. 82.
4 BRODSKY, Joseph. Marca d’Água apud FUX, Jacques. Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas. Lisboa, Relógio D’Água, 2013.
5 BRODSKY, Joseph. Marca d’Água apud FUX, Jacques. Sertão-Veneza: Retornos e Travessias Roseanas. Lisboa, Relógio D’Água, 2013.


