Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Conectados pelo calendário

Aos diletos amigos da coluna “Destarte” e aos que a fizeram tornar-se realidade, gostaria de deixar meu muito obrigado e prometer-lhes novas aventuras no ano que se segue. Chego a pensar como Robin Hood numa balada, celebrando a festa do Dia de Maio: “Quantos meses felizes há no ano? / Há treze, eu diria.[i]

Foto: Alexandre Macieira (Fotos Públicas)

Mas como hoje em dia só há doze meses felizes, destes meses e dos dias precisamos retirar toda a essência do tempo. Os camponeses europeus que, durante mais de um milênio depois da adoção do calendário juliano, tiveram o gosto de 13 meses, 364 dias exatamente divisíveis por 28, veneravam as estações do ano de modo ritual como o fazemos, em menor escala neste século XXI num Ocidente ainda majoritariamente cristão.

Eis-nos, pois, às vésperas da passagem do ano, ainda comandados pela lua, mas negando-nos o comando das mulheres e daquilo que o poeta Robert Graves chamava de o mando da deusa-mãe ou a “Deusa Branca”.

O poeta de Gales insiste em sua erudição que há lições que devemos aprender para entendermos completamente os ritos de hoje. O fato é que o cristão do século XXI deve manter toda sua fé para conseguir continuar lendo os Evangelhos e o poeta galês.

“A educação poética inglesa não deveria, na verdade, começar pelos “Contos de Canterbury”, nem pelo épico “A Odisseia”, nem mesmo pelo “Livro do Gênesis” [Bíblia], mas sim, com “A canção de Amergin”, um antigo calendário alfabético celta encontrado em inúmeras variantes irlandesas e galenses propositadamente deturpadas, que resume sucintamente o mito poético primordial.”

Naturalmente, o cristão há de continuar a verificar sempre sua versão do Gênesis 1, com sua cosmogonia, sua teodiceia judaico-cristã. Pois então, nesse final de 2018, insisto com Santo Agostinho e seus comentários ao Gênesis, que reputo mais fiéis que os do incensado poeta galês em sua tradução da lenda galesa e do entendimento do tempo.

Acaso o leitor desta última crônica de 2018 teria folheado os Comentários ao livro de Gênesis, de Santo Agostinho[ii] ? Neles o Bispo de Hipona em meditações sistemáticas leva-nos a vislumbrarmos a “diferença entre tempo e eternidade”, iniciando por responder àquele leitor que se indaga cheio de incredulidade: “o que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?

[…]
“…Ainda mergulhados na cegueira do velho homem, aqueles que dizem: Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? E acrescentam: Se estava ocioso e nada realizava, por que não ficou sempre assim, continuando a abster-se do trabalho?
(…) “Aqueles que assim falam, ainda não te compreendem, ó Sabedoria de Deus, ó luz das inteligências; ainda não compreenderam como se fazem as coisas que são criadas por ti e em ti. Eles se esforçam para conhecer as coisas eternas, mas o pensamento deles vagueia ainda na agitação das realidades passadas e futuras. Quem poderá deter esse pensamento e fixa-lo um instante, a fim de que colha por um momento o esplendor da tua sempre imutável eternidade, e veja como não se pode estabelecer um confronto com o tempo sempre móvel. Compreenderá então que a duração do tempo só será longa porque composta de muitos movimentos passageiros que não podem alongar-se
simultaneamente. Na eternidade nada passa, tudo é presente, ao passo que o tempo nunca é todo presente. Verá então que o passado é compelido pelo futuro, que o futuro nasce do passado, que passado e futuro têm suas origens e existências naquele que é sempre presente. Quem poderá deter o coração do homem, a fim de que pare e veja como a eternidade, não passada nem futura, sempre móvel, determina o futuro e o passado? Será minha mão capaz de tanto, ou poderá minha boca obter efeito semelhante através da palavra?”

Sim, Santo Agostinho pode com seu verbo inspirado e seu espírito voltado para Deus penetrar este “intrincadíssimo mistério”, porque o desejou ardentemente.

Ao contrário, este cronista há de soprar a brasa do tempo que o calendário mede como final do 18º. ano do Século XXI, para rememorar alguns lampejos e desejar que bom tempo se nos ofereça para continuarmos singrando mares profundos, em busca de luz no ano novo que se segue.

Também o poeta anglo-americano T.S. Eliot procurou ardentemente entender este mistério – está no primeiro dos “Quatro Quartetos[iii]” (1943), aqui na tradução de Caetano W. Galindo:

            “Os tempos presente e passado
            Estão talvez presentes no tempo futuro,
            E o futuro, contido no tempo passado.
            Se todo o tempo é presente eternamente
            O tempo é todo irredimível.
            O que poderia ter sido é abstração
            Permanece perpétua a possibilidade
            Somente num mundo de especulação.
            O que poderia ter sido e o que foi
            Apontam a um só fim, que é sempre presente.       
            Passos ecoam na memória
            No corredor que não percorremos
            Rumo à porta que jamais abrimos
            Para o jardim de rosas. Minhas palavras ecoam
            Assim, na tua mente.”

Seguiu o pensador francês Paul Ricoeur a mesma senda desse mistério em “Tempo e narrativa” quando afirma: “O mistério do tempo não equivale a um interdito que pesa sobre a linguagem; ele suscita sobretudo a exigência de pensar mais e de dizer de outro modo” – E seu discípulo Domenico Jervolino[iv] completa: “Ao buscar responder a essa exigência, o desafio é constituído pela “identidade narrativa” tanto dos indivíduos quanto das comunidades históricas na resposta à pergunta: “Quem sou? Quem somos?”, que passa necessariamente por nossa capacidade de narrar e de narrarmos”.

Em resenha recente, Júlio César Machado de Paula[v], nos alertou que foi o próprio Ricoeur, em “Réflexion Faite”, sua autobiografia intelectual” [quem] evidencia a tese que orientou a escrita de “Tempo e narrativa”: a existência de uma “conexão significativa” entre a função narrativa e a experiência humana do tempo, já que “o tempo se torna tempo humano na medida em que está articulado de maneira narrativa”, e, em compensação, “a narrativa é significativa na medida em que desenha as características da experiência temporal.” De caráter circular, tal hipótese é posta à prova, no primeiro momento, por um inusitado diálogo entre o Livro XI das “Confissões” de Santo Agostinho e a “Poética” de Aristóteles. O primeiro acaba concluindo pela negação ontológica do tempo, já que ele não seria mais do que um trânsito entre um futuro que ainda não é e um passado que já não é mais.

“Diante do impasse, Ricoeur vislumbra na dinamicidade do conceito aristotélico de mythôs, entendido como a criação de uma estrutura de sentido, e cerne, para ele, do processo de tessitura da narrativa, a possibilidade não de definir o tempo, mas de conferir-lhe justamente uma estrutura de sentido que o torne apreensível. É por meio da tessitura narrativa, portanto, que nossa experiência com o tempo se torna significativa.”

Virada a página deste conector que é o calendário, que nos torna legível o tempo vivido, a caminho de sermos transportados a mais um ano – se assim o quiser a Providência! – espero que nos mantenhamos conectados pelas narrativas, essas crônicas semanais (ou quinzenais), procurando cada dia sempre mais entendermos que somos, o que és, que espelhos as narrativas atuais e pretéritas nos concedem de nós mesmos, incansavelmente…

Até 2019, diletos leitores!


Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O rio incontornável” (Editora Mondrongo, 2017).


[i] GRAVES, Robert. “Os mitos gregos”, vol. I, Trad. Fernando Klabin. 2ª. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018, pág. 31.

[ii] AGOSTINHO, Santo, 354-430. “Confissões”. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984; pág. 335-6 et passim.

[iii] ELIOT, T.S. “Poemas/T.S. Eliot”. Organização, tradução e posfácio Caetano W .Galindo. 1ª. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Pág. 225.

[iv] JERVOLINO, Domenico. “Introdução a Ricoeur”. Tradução José Bortolini. – São Paulo: Paulus, 2011, pág. 65.

[v] DE PAULA, Júlio César Machado. Artigo consultado em 23/12/2018, cf. link https://glo.bo/2BIy5gO

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Luciana Zani

Este trecho do poema sintetiza, e ao mesmo tempo nos dá margem a e imensurável cogitação…” Os tempos presente e passado
Estão talvez presentes no tempo futuro,
E o futuro, contido no tempo passado…”
Se tudo esta interligado, então nos cabe simplesmente cuidar do agora pra garantir a existência de um passado e de um futuro.
Excelente!!!