Desabafo de segunda-feira

Reprodução/Beyoncé

Reprodução/Beyoncé

Alexandre Parrode

Sabe aquelas coisas das comédias românticas norte-americanas melosas e que cheiram pipoca encaramelada de anilina rosa, nas quais dois estranhos se encontram, se apaixonam à primeira vista e vivem um fim de semana de amor inesquecível, num parque de diversões no cair da noite? Pois é, baby, não acontecem na vida real.

Este é um relato do que aconteceu com um conhecido meu — amigo próximo, confidente de barzinho. Mas também é uma história que já aconteceu com uma amiga, com o amigo de uma amiga, com a prima da minha colega de trabalho e com o padeiro da prima da minha colega de trabalho e várias vezes com a filha dele, no auge de seus 30 anos. Já aconteceu com a pequenina torcida do flamengo; talvez e inevitavelmente, pode já ter acontecido com você.

O meu amigo, todo iludido, viajou mais de mil quilômetros para passar um fim de semana com um affair on-line. Planejou tudo, desde o corte de cabelo ao apartamento que ficaria. Contou os dias para o tal encontro. A promessa era de romance e, claro, certas safadezas carinhosas, entre lençóis. Lá foi ele, embriagado de expectativas e preso à segurança do combinado. Falsa, por sinal.

Já no aeroporto, foi recebido com certa frieza. Em troca de um abraço carinhoso e talvez até um beijinho, ganhou apenas um “oi” e aquele rápido encontro de corpos constrangidos, onde sequer o aperto de mão é decente — imagine lá o abraço. “É o jeito dele. É a cultura daqui que é diferente da minha”, pensou meu tão conhecido.

O caso é que, quando queremos que as coisas aconteçam do nosso jeito, num passo a passo, achando que controlamos o destino só com nossa imaginação, tendemos a distorcer a tal imprevisibilidade da realidade e fingir que não estamos vendo o que, de fato, está acontecendo. Acredito que seja uma maneira do cérebro acalentar o peito, quando este está prestes a ser aberto, sem anestesia alguma. Aberto na tora.

Foram a uma balada da cidade. Antes fosse que estivessem de mãos dadas. Mas nada disso. Nada de abraços ou beijos apaixonados. Aquele abismo desconfortável entre os dois continuava a incomodar meu conhecido, feito sapato apertado que encharca. Até chegou a perguntar ao rapaz se ele não havia se interessado por seus olhos azedos, imaginando se o problema fosse esse ou o tom da voz ou, ainda, se o maldito cabelereiro tinha errado no corte de cabelo e fosse esse o motivo daquele silêncio todo que sai da boca dele. Antes que saísse tais perguntas, indagou se ele queria que fossem apenas “amigos” — como se isso, naquele ponto, fosse possível.  Resposta negativa seguida de um beijinho mixuruca, como se o rapaz estivesse com medo de ser visto por alguém ali na festa.

Estava mesmo: “Certeza que meu ex está aqui”, disse ele ao meu conhecido. Ora, que tipo de pessoa fala do ex-namorado no primeiro encontro e, pior, demonstrando preocupação? — transtornei-me, quando meu amigo me contou.

A esse ponto muita gente já deve estar se arrepiando aí na frente do computador, pensando “que cara babaca”. Bem babaca, é isso mesmo. A certa altura da noite, ele sentiu que o rapaz estava demorando demais para voltar com sua cerveja. Perambulou a pista de dança, cheia de luzes e pessoas vibrando, e não precisou muito para encontrá-lo… nos braços de outro cara. Ficou cego de raiva. Mas não raiva só do rapaz, que agora dava os tais beijos safados e carinhosos noutros lábios. Raiva de si mesmo.

Quando se chora e o vermelho do nariz escorre não dá mais para ficar se fazendo de palhaço. Ao se deparar com tal cena, meu conhecido se deparou também com todas as certezas que ele tinha tido visto no silêncio do tal rapaz. Ainda assim, não queria aceitar, pois se negava a crer que tudo aquilo que ele havia planejado tinha ido por água abaixo.

Pôs o circo abaixo. Gritou. Xingou. Esperneou. Sofreu. Chorou. Voltou para o apartamento com uma nova expectativa, tão conhecida, de que o rapaz viesse atrás, correndo, se desculpando, oferecendo-lhe o céu e a Terra e o diabo a quatro da Via Láctea inteira. Ou, quem sabe, com apenas um pouco de afeição, carinho e interesse debaixo do braço, em meio ao silêncio que ainda restava. Viesse atrás com o que ele havia ido buscar.

Acordou com ressaca moral e com o rapaz dormindo ali do lado. Queria acreditar que ele não tinha ficado com outro na sua frente, sob a desculpa de que “o menino tinha ido à festa apenas para ficar com ele”. Parece piada, mas não é. Inclusive, o rapaz se disse “assustado” com a atitude de meu conhecido, porque achava que ele tinha embarcado no avião para “curtir” a cidade — e não para ficar de “casal”.

Dizem que existem sempre duas verdades. A cama era de casal, mas a viagem não. As mensagens trocadas durante meses para combinar o encontro eram de casal, mas a viagem não.

Daí, passaram aquele sábado como “amigos”. O rapaz, ainda ultra “assustado” com tudo, se manteve na mesma: distante. Deixou meu conhecido agonizar a frustração, sentir a dor da rejeição e consolou-lhe com sua simpatia — muy simpático!

Ressentido e infeliz com o que havia se tornado seu fim de semana cinematográfico — que havia passado de “Diário de Uma Paixão” a “O Albergue” —, meu conhecido ainda tentou reverter a situação. Engoliu o orgulho, passou por cima de todo seu amor-próprio e, ainda, foi lá mendigar carinho. Conseguiu, então, a simpatia do rapaz ao dizer que tinha ido ali para ficar com ele, que lhe respondeu: “Então fique”.

Ah! Se fosse tão fácil assim, não estariam naquela situação. Como diz a música “Um bom encontro é de dois”. E, claramente, meu conhecido era só “um” naquela empreitada.

Ainda no sábado, que estava mais para uma terça-feira, foram novamente para uma balada. Exausto de se humilhar, ele acabou por se contentar com o álcool. Ah, ele se afogou naquele companheiro que, mais que teoricamente, não o abandonaria. Triste, caminhou para o hotel com o rapaz, acreditando que poderia dar certo. Voilá, outro ledo engano. Dormiu sozinho. Apesar de o rapaz estar lá, estirado ao seu lado. Não o procurou em sequer meio milésimo da noite. O deixou ali, como uma presa em teia de aranha. Imóvel, atordoada pelo veneno, sentindo a dor consumir-lhe as entranhas, mas consciente. Em vez de comer-lhe de uma vez, desimportando o peito aberto, o rapaz, como a aranha, o prendeu. E não o deixou ir até que tivesse sofrido toda a agonia.

“Que babaca”, foi assim que reagi ao saber de cada detalhe história. Claro, óbvio que não consigo entender o que meu conhecido passou lá. É claro que não consigo, afinal essas dores do coração, como a morte, só quem experimenta, sabe. No entanto, perguntei-lhe o que o havia machucado mais e ele me respondeu de pronto: “A frustração. Mesmo arrasado, eu queria que ele me procurasse. Queria que ele me tomasse em seus braços e me beijasse com paixão. Mas me restou, apenas, compaixão”.

No espelho, olhando para mim, meu conhecido refletiu mais um pouco e concluiu: “I’m a pretty fucking douchebag”. E já era segunda-feira.

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