De “Uma Vovó Encantada” ou de como precisamos nos encantar também

A beleza da história de Juliana Junqueira está na forma como a família da vovó se “desencanta” e devolve à vovó o que aos poucos ela vai esquecendo

Sônia dos Santos

Especial para o Jornal Opção

A população de idosos no Brasil tem aumentado bastante, é fato comprovado geográfica e estatisticamente desde o início do século 20. Com isso, nos deparamos cotidianamente com situações vivenciadas por muitas famílias que convivem, agora, com vovôs e vovós por muito mais tempo do que as gerações passadas.

O livro “Uma Vovó Encantada” (Cânone, 24 páginas) de Juliana Junqueira, traz à tona, de forma sutil e poética, uma dessas questões vividas pelas famílias:  uma vovó que, pouco a pouco, vai perdendo a memória.

Historicamente, sabemos que a perda da memória representa a perda da própria história e quando nos esquecemos de quem somos, parte de nossa humanidade se perde também. Então, se ter memória é ter história e ter história é ter identidade, quando não a temos, não temos nada e nosso legado escorre dos dedos.

A beleza da história de Juliana Junqueira está na forma como a família da vovó se “desencanta” e devolve à vovó o que aos poucos ela vai esquecendo. Poeticamente, a família cuida da vovó e faz com que sua existência na família não seja um fardo, mas uma bênção.  Se sabemos preparar o terreno para nossos avós não perderem a noção de pertencimento, no futuro, nosso chão estará garantido. E a solidão, tão comum nessa faixa etária, pode dar lugar a espaços cheios de vida e de alegria.

Juliana Junqueira é escritora | Foto: Facebook

A literatura, como expressão artística, retrata a vida em toda a sua expressão e, dessa forma, nos faz refletir sobre quem somos e o que fazemos aqui.

Se a humanidade é o traço que mais nos diferencia dos outros animais, perdê-la é tornar- se irracional ou incapaz de expressar sentimentos. É banalizar o óbvio e deixar de ser gente. Gente ama, sofre, padece e pode ser feliz. Como nos relacionamos com isso é a grande questão. Juliana Junqueira dá a dica e, mesmo sendo um livro infantil, também toca adultos nos lembra de quem realmente somos.

Sônia dos Santos é crítica literária e professora de literatura infanto-juvenil.

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