Tive um sonho estranho dias atrás e nele eu era três Sinésios. Um acionou a companhia do meu apartamento, fui à porta ver quem era. O de fora queria falar comigo, e o que atendeu disse que eu não estava, mas o visitante me viu no fundo da sala. Queria que o sonho tivesse continuado para escutar que papo rolaria entre os três. Contei meu sonho à minha amiga Ângela Lobo, uma poeta de meia-pataca. Ela riu e me disse que estou perdido, sem saber o caminho de mim. Será?

Aproveitei a conversa e perguntei à Ângela por Elenice, uma amiga em comum entre nós. Inclusive cheguei a trabalhar alguns anos com ela, que era muito entendida em cultivo de árvores. Fomos bons amigos. Certa vez, contei com o conhecimento precioso de Elenice para fazer um pomar na chácara de um amigo. Ela inclusive pôs a mão na massa. Em poucos anos, as fruteiras começaram a adoçar a boca do dono e de seus familiares e também a dos passarinhos e de outros bichos frugívoros.

O que Ângela me contou sobre o final de vida de Elenice me deixou estarrecido. Ângela disse que a amiga não merecia aquilo. Realmente. Só que a vida não sabe o que é merecimento e assim realiza os desfechos mais variados à vida das pessoas. Há quem morra “como um passarinho”: dorme e amanhece sem vida. Outros levam meses. Um corvo ficou em volta de Elenice desde o início do enredo que lhe tirou a vida num período de cinco meses. A ave não era a “misteriosa esfinge negra”, de Edgar Alan Poe; era uma pessoa de carne e osso. Mais adiante conto quem é.

Elenice nunca se casou. Morreu aos 67 anos. Ninguém nunca soube, desde a sua adolescência, de algum caso de amor seu, seja hetero ou homossexual. Alguns colegas de trabalho cospiam maledicências sobre sua sexualidade. Ela passava longe de conversas regadas a obscenidades e fofocas. Assim vivia mais na sua em seu trabalho, limitando-se a falar com os colegas só o necessário relacionado à sua atividade profissional. Natureza era um assunto do qual muito gostava, fazia seus olhos brilharem de alegria. As frutas que comia, as sementes eram plantadas; após a germinação, eram doadas.

Era uma pessoa caridosa e muito honesta. Por ser assim, isso lhe proporcionou alguns dissabores, principalmente financeiros: empréstimos que não eram pagos. Uma vez teve de arcar com as prestações de uns móveis que sua empregada, usando-a como avalista, não pagou. Esse tipo de problema aconteceu apenas uma vez. Em alguns casos de empréstimos, emprestava já sabendo que não iria receber.

Ela esbanjava saúde. Já quase setentona punha muita gente mais nova no bolso em resistência física. Participava de todas as corridas realizadas nos finais semana na cidade. Como o efêmero é algo imperativo a rondar os vivos, certa vez ele pôs a cara na janela e fitou Elenice: uma dor de cabeça começou miúda e aumentou. Os analgésicos que tinha em casa não cessaram a dor. Incomodada e receando que pudesse desmaiar, ligou para seu irmão, que morava a duas quadras de sua casa.

Essa dor de cabeça foi o princípio da trama que a vida armou para colocar um ponto-final em sua vida. Na ida ao hospital, por lá ficou internada uma semana. Entre os exames realizados, um deles trazendo a notícia dolorosa: um tumor maligno na cabeça, que cirurgia não resolveria. Dos seis meses que o médico lhe deu de vida, viveu cinco. A doença afetou sua lucidez. Não reconhecia mais as pessoas, mas continuava se movendo, se alimentando com ajuda de uma enfermeira. Elétrica que era, Elenice foi murchando fisicamente. Seu irmão providenciou duas enfermeiras para cuidar dela 24 horas por dia, e isso com o dinheiro da própria Elenice.

Nos dois meses iniciais dos cinco, Elenice continuava saindo, levada pelo irmão, principalmente para receber sua aposentadoria. Ela, no entanto, não entendia nada que as pessoas lhe falavam. Foi nesse período que seu irmão a casou com um cunhado dele (irmão de sua mulher). Uma tramoia diabólica para que o cunhado, que não tinha onde cair morto, abocanhasse a pensão de R$ 20 mil por um ano. Havia também a casa dela, que, no conluio maligno deles, era para ser passada para o irmão de imediato.

Na verdade, o cunhado — um solteirão 20 vinte anos mais novo que Elenice — se viu no direito de ficar com tudo. Não pôde mais frequentar a casa do irmão de Elenice, que preferiu ver o satanás chupando manga e assoviando a ver o cunhado. O que a este nada incomodou, pois havia conseguido a sua própria casa e tinha uma boa pensão. Até um carro ele comprou.

O irmão de Elenice não era um homem de “elmo cheio de nada”, como disse T.S. Eliot em seu poema “Homens Ocos”. Seu elmo estava cheio de toda a podridão vinda de sua ganância de ficar com os bens da irmã. Só que outro ladrão o roubou.

Sinésio Dioliveira é jornalista