Crônica de um ídolo ou Caetanaço

Quero desacelerar o pensamento. Descansar o corpo na rede e sonhar um sonho baiano. Sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo

Ana Luíza Andrade

Cinco e quarenta e cinco em Goiânia. A confusão pública de um colégio particular disputa o trânsito goianiense entre buzinadas, crianças saltitantes, mochilinhas monstruosas, pirulitos multicoloridos, churros, carrinhos de picolé. Cachorros de bolsa. O toc-toc dos saltos altos. Uma igreja badala o sino. É o anúncio diário do rush. A T-30 fervilha, pipoca uma bacia de caos. Uma mulher de meia-idade faz crochê na porta de casa, como se estivesse acostumada à sinfonia dos veículos.

Olho o relógio novamente e são seis em ponto. O motorista do aplicativo está parado há quinze minutos tentando dobrar a esquina da minha rua. Paciência. Tenho que praticar mais a paciência. Quem vive no centro da cidade está acostumado a encontrar paz essa hora. O ritmo central, às seis da noite, é uma melodia melancólica. As lojas puxam as portas. Todo mundo se recolhe dentro de casa. Os idosos vão à padaria esperar o pão. Estranho a mixórdia do Bueno. “Mas é sempre assim”, me alerta a dentista que também espera pela carona, do marido.

Todos os dias as seis, repito mentalmente. Imagino o que é enfrentar todo dia essa rotina avassaladora. Eu, que vivo sozinha, escondidinha no meu velho apartamento central, “juntando o antes, o agora e o depois”. Trabalho em casa mesmo, quase não saio, exceto à noite, quando os gatos também disputam a emoção da vida noturna. Agora, por um motivo qualquer, estou presa no horário nobre da cidade. Senão fosse assim todos os dias, diria que a multidão também corre porque está agitada como eu. Logo mais, Caetano Veloso vai sentar num banquinho e dar aquele sorriso largo e lerdo abrindo os braços. Caetano. Até lá: fico cantarolando “It’s a long way”.

Tento esquecer o tempo. Encontro na fila o celtinha vermelho que vem dando seta, de longe. O motorista parece tranquilo. Fazer o quê? “Os carros infelizmente ainda não têm propulsores à jato”, ele brinca. Ainda estamos muito apegados a terra. Até o shopping, a viagem promete ser longa. Meia hora de trânsito e estresse. Alguma coisa, qualquer coisa acontece no meu coração. Não estamos em Sampa, mas toda capital parece funcionar assim: “O avesso do avesso do avesso”.

A salada metropolitana incomoda. Mas e sem ela? Sem o movimento convexo-reconvexo? O farfalhar da vida? O ser humano precisa de gente. Precisamos ver o outro para lembrar a realidade. Existimos… A viagem demora. Tergiverso. Tempo suficiente para escutar o Transa completo. Alcançamos finalmente o Flamboyant. Nesta época do ano, no outono, as folhas doentes enfeitam o chão de amarelo. Pago a corrida e entro correndo na franquia de um restaurante. O show está marcado para as 19h30. Ainda tenho tempo para encontrar uma amiga, dividir um bom papo pré-Caetano, sem colarinho. Respiro fundo. Tempo-tempo-tempo-tempo.

Uma ruiva, de um metro e sessenta de delineador e batom combinando com o cabelo, também está atrasada. Karen chega ofegante. Alterada de felicidade e êxtase. “É o CAE-TA-NO!”, ela vibra requebrando com a mão na cintura. “Nem acredito que vou vê-lo pela segunda vez. Você tem noção do que é esse homem?”. Deixo-a falar.

— Caetano tem uma coisa que toca as pessoas, né? Ele canta a vida. Tem uma sensibilidade fora de lógica. E o jeito que ele retrata as mulheres? Ele tem isso muito bem resolvido dentro de si, sabe? Esse lado masculino-feminino. Ele é feminino de um jeito verdadeiro e espontâneo, eu não sei explicar, ela diz. E continua:

— Tudo mudou pra mim depois que eu ouvi Tigresa. Toda mulher deveria ser essa mulher. Eu quero ser essa mulher.

Tigresa: uma mistura de Sônia Braga e Zezé Mota. Karen, hoje, é a tigresa de Caetano. Que vem balançando sempre com as unhas negras e os olhos bem marcados de cigana. Gosta de política em 2019 e balança no frenesi do samba. Karen, que em plena juventude “tem dado muito amor, espalhado muito prazer e muita dor”.

A cerveja acaba. Recorro ao relógio outra vez e percebo que nos atrasamos para o show do Caetano enquanto discutíamos e sonhávamos com o mito de Caetano. Do recôncavo baiano para o Brasil. Das apresentações em barzinhos, ao lado da irmã, a Bethânia, para o mundo. Do exílio de London-London, para a história.

Chegamos num pulo. Karen deixa escapar um miado fino de deleite. Caetano ainda está aqui. Rezando a novena de Dona Canô. Sentado em seu banquinho como se estivesse no sofá da nossa sala. O palco negro, sem distrações. Sozinho. O público, Caetano e seu violão.

Os caracóis dos cabelos deram lugar aos fios brancos de galã de meia-idade. O rosto, marcado de memórias e emoções à flor da pele, ainda exala o cheiro doce do menino do rio. Caetano ainda arrasta assobios. Mostra-se jovem. Mais jovem do que nunca. Usa uma jaqueta tropical, calça Levi’s e sapatênis verde. Cores de Frida Khalo, cores de Pedro Almodóvar. Cores de Caetano. Que levanta o astral e traz o axé. Não dá um passo sem arrastar junto o calor latino.

Levanta a taça em direção à plateia. Enche nossos copos de Cajuína. O mesmo copo que ele um dia dividiu com o pai de Torquato Neto. Chorou a dor de um amigo partido, foi consolado pelo próprio pai enlutado. Guardou no bolso a rosa-menina. Transformou em poesia a lágrima nordestina. Cantou o Brasil. Do Redentor ao Piauí. A língua fazendo voltas, os lábios tremendo no iii. Caetano: repleto dessa força estranha que o leva a cantar.

“Ele canta a tristeza de um jeito feliz, né?”, observa a Karen. “Parece que a tristeza ganha sentido na boca dele. Fica mais bonita.” Concordo com a cabeça. “Cantando a gente manda a tristeza embora”, já diria o Outro. Faço uma Oração ao tempo. Estou cansada de tanto correr. Quero desacelerar o pensamento. Descansar o corpo na rede e sonhar um sonho baiano. Sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo. Eu vou. E você. Odara?

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.