Escritor como personagem (1): “Albert Camus — Exilados”, de Solemar Oliveira

O homem cordial é, sem nenhum acréscimo significativo, o homem revoltado. Pois não há vida sem revolta

O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido. Aqui tudo pode acontecer. Inclusive nada.

Albert Camus — Exilados

Solemar Oliveira

Camus equilibra o cigarro na boca. O lábio superior franzino. Com o outro, uma pinça. Nada se pode afirmar sobre a cor de seus olhos. Parece ser clara. As pálpebras são meio inchadas e a testa, espontaneamente, franzida. Um contrassenso possível. Cada íris está, rigorosamente, no centro. Não é estrábico. Possui uma mancha laranja entre os dedos e a calva começa se impor. Pode se orgulhar de ter chegado aos seus 46 anos com alguma coisa de Humphrey Bogart. Cada vida é uma galáxia, pensa. Deixou que o outro avançasse. Meursault. É uma galáxia, para não dizer mais. Fumou. Fumou até que a marca alaranjada se tornasse um pouco marrom. São outros tempos, menos complicados. Não existem propagandas advertindo sobre os males causados pelo cigarro, no verso da caixa. Ele fuma mais um, e outro. Parece prever que não fumará mais.

O carro encosta pelo lado esquerdo da rua. Facel Veja, seminovo. Não há placas de proibido estacionar. Ele atira a guimba com elegância. Sua marca registrada. Olha ao redor, como quem olha as filas de viajantes numa estação de trem

O carro encosta pelo lado esquerdo da rua. Facel Veja, seminovo. Não há placas de proibido estacionar. Ele atira a guimba com elegância. Sua marca registrada. Olha ao redor, como quem olha as filas de viajantes numa estação de trem. E se arremessa adiante, sem convicção. São flores à sua volta? Um efeito da luz parca e da ansiedade. O capim sem qualidades, sem escrúpulos, amortecendo a necessidade de beleza e espelhando as cores que chegam lentamente. Está só. Ou deseja estar só. É a tarde? Meio-dia. Horror por não ter certeza da hora. E o carro destacando-se à espera. Nele está Gallimard, seu amigo. Há outros. Não importa para o momento.

Gallimard sempre se refere à Camus como um homem cordial. Ainda é jovem. Seu brilho de Bogart está no auge. O sobretudo, pele de camelo, correto, dá a ele um ar circunspecto, se é que precisa. Não é diferente com outras roupas, ou em outros horários. Um homem cordial. Tem 46 anos. Não era necessário dizer. É jovem.

Lá vem ele, diz Gallimard. Albert, meu caro! Depois se cala por uns instantes, até que reclama. Um resmungo. Camus desculpa-se pelo imperfeito do subjuntivo, e confessa sua fraqueza pelo belo linguajar em geral. Antes, sorri. Mas não convence. Do lado de fora, o homem que prefere não nominar. Vai ficar? Ele diz. Uma aura. Absurdo. A voz rouca e, propositalmente, distante, assemelha dizer, com os lábios pouco vibrantes: decididamente, o senhor me interessa.

Os olhos que olham, serenos, miram duas linhas que se estendem até o infinito, passando por anteparos e ar. Nada obstrui o futuro que deseja ver. A luz não entorta. Não é estrábico, como foi dito. Enxerga reto, sempre enxergou. Mas há um novelo, um inseto oscilante, uma concha muito desengonçada se formando na nuvem, no paralelo, nas extremidades do mundo. Sísifo também. Seus olhos não são azuis e enxergam. Até o que é proibido. A massa negra, a coisa antecipada. Não é Meursault. Uma rocha? Não é a porta. A porta da desgraça, onde se prolongam quase meia dúzia de batidas secas, destrutivas. Não é a tuberculose. Nunca foi. O mar. Está em tudo. Camus percebe. Jovem. Uma árvore.

Migraram juntos para um ermo. Foram seguidos, também, mas sem sucesso. Os fiéis. Cansaram-se, muito cedo, que fique claro. Sozinhos. Um era Camus, pensativo. Voltava ao seu reduto primeiro. O outro, Meursault, o estrangeiro

Camus senta e o banco do carro se afunda. A cabeça não consegue encontrar o encosto. Pensa que estaria melhor com Char. A conversa. Literatura. Política. Estética e o encanto das palavras. São palavras que saem da boca de Gallimard e dos outros. Camus espera, ouve o que pode e cala-se mais do que fala. Mas fala, também. Observa a região entre os dedos do cigarro. Laranja. Ainda. Essa mancha vai durar para sempre, pensa. No painel, o relógio analógico destaca cada minuto, com uma campainha imaginária. Só Camus escuta, enquanto faz o exercício mental de separar outros sons. Um assobio leve, distante, e os agradáveis ruídos do mar. Sua intimidade. Ele veio. Acomodou-se no mínimo espaço ocioso, no banco de trás. Mais intimidade. O mar.

A estrada se estica no mesmo sentido do movimento. O destino nunca chega. Como, em geral, não se chega nunca aos destinos. Nenhum. O homem cordial é, sem nenhum acréscimo significativo, o homem revoltado. Pois não há vida sem revolta. Não há galáxias em um universo apático. Só estradas intermináveis, com árvores gordas destacando-se à margem. Sempre à margem. A não ser por uma, única, frondosa, inusitada. Nasceu no centro da via e alongou-se para o céu até tornar-se tão imensa quanto a própria estrada que a sustenta. Que a modela e emoldura. Dois infinitos: árvore e estrada. Não há carro capaz de separar essa engenhosidade do absurdo. Revolta. Fim.

Um ruído, longo. Nenhuma voz, nem fraca, nem forte, quebra a branda e inocente tranquilidade do espaço. Nada se infiltra, para ruir, por dentro, a bonança melancólica da paisagem. Fechados, não é possível ver os olhos negros de Camus. Muito vivos. Monocromático. Desde os múltiplos tons de cinza. A vida se infiltrando nas esferas. A reinvenção helicoidal. Nas entrelinhas, Sísifo. Um soco surdo na rocha de Sísifo. Simples. E pronto! Abre-se a porta. Completamente. A bruta porta. Rígida. Perfeita.

Migraram juntos para um ermo, dois pássaros. Foram seguidos, também, mas sem sucesso. Os fiéis. Cansaram-se, muito cedo, que fique claro. Sozinhos. Um era Camus, pensativo. Voltava ao seu reduto primeiro. O outro, Meursault, o estrangeiro.

Solemar Oliveira é escritor.

5 respostas para “Escritor como personagem (1): “Albert Camus — Exilados”, de Solemar Oliveira”

  1. Conto poético. Evoé, jovem físico-escritor, amigo Solemar.

  2. Avatar Wellington Dias disse:

    Solemar, impressiona o quanto sua literatura é precisa e coesa. Já é redundante: parabéns!

    Ah, para seu horror, levarei, para fazer de “frase de Instagram”: O homem cordial é, sem nenhum acréscimo significativo, o homem revoltado. Pois não há vida sem revolta.

  3. Avatar Solemar Silva Oliveira disse:

    Obrigado pelo comentário generoso, Wellington!

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