Contos da pandemia (18): Louva-a-Deus?, Maria Luísa Ribeiro

Cheguei bem perto do Louva-a-Deus e perguntei qual seria a sorte que ele trazia para Cristina, Yúri, Fernanda e Thiago. Sabe o que ele “disse”? Confira a seguir

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 543 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)

Louva-a-Deus?

Maria Luísa Ribeiro

Cristina estava sozinha em casa, se é que aquele cubículo poderia ser chamado de casa. Era mais um canto de dormir em terra de estrangeiros. Trabalhava muito: às vezes faxinava até três casas em um só dia. Chegava à exaustão. Mas o propósito era pagarem as dívidas e juntarem o quase tudo que ganhassem, fazerem as despesas dos filhos ainda pequenos e, com a ajuda de Deus, comprarem uma casa e se livrarem de pagar o aluguel da mãe, que ficara no Brasil tomando conta das crianças. E mesmo sendo sonho grande demais para a alma brasileira, quem sabe um dia, levarem os meninos para pular as ondas e comer espetinho de camarão em alguma praia.

Encarar o longe, abrir mão do convívio familiar foi uma decisão muito difícil, mas uma questão de sobrevivência. Pequeno é o país que não consegue encher a represa e nem estancar o ladrão. Mas fazer o quê? E lá fora também não estava fácil, distante ficara o tempo em que era possível voltar do estrangeiro com a dinheiro para empreender. Nascer no Brasil agora era a volta da escravatura. Partir era a escolha imposta, complicada, mas necessária. E nesses casos é proibido ter medo porque o risco é menor que a fome. E chegar ao destino mais complicado ainda. O mundo mudou e para pior.

Administradora de Empresas, desempregada, manicure por falta de opção, Cristina aventurou-se a ser motorista de aplicativo mas perdeu o carro em assalto. Vendia Avon, Natura e batom importado, mas ultimamente as clientes já não estavam nem mais fazendo as unhas todas as semanas. O que dava um certo alívio era que Everaldo trabalhava como vendedor em uma loja de materiais de construção e estava conseguindo atingir as metas porque tinha talento para vendas.

Um Louva-a-Deus aterrissou na pequena escrivaninha. Ela nunca havia imaginado que naquele país existia Louva-a-Deus. E lá estava o bicho-esperança, verde como a alma dos brasileiros. Cristina nunca tinha percebido que Louva-a-Deus tem olhos e, lá estavam, olho no olho, ela e aquele folha-viva que segundo sua avó Mariana carregava a magia de  trazer a sorte. O inseto não se movia, mas mostrava presença e passava uma energia de jardim. A moça também cuidava em não se mexer com medo de espantar a sorte. E sorte a gente ganha e guarda. Por um instante chegou a pensar em aprisioná-lo em um copo, mas parece que o pensamento vazou-lhe pelo olhar e ele percebeu.  Encarou-a de um jeito tão peculiar que Cristina sentiu-se pequena diante daquela possibilidade de tamanho desrespeito à vida animal.

Mãe,

Por que esse Grilão é verde?

Porque ele é um bichinho sagrado que parece grilo mas não é grilo e que se chama Louva-a-Deus

Se a gente prender ele no copo ele fica maduro e amarelo?

Ela se afastou da escrivaninha e se deitou na cama. Agora era só saudade.

Yúri e suas perguntas, sua imaginação, seus olhos irrequietos que pareciam querer ver o mundo inteiro num piscar; Fernanda a desenhista de corações que prometera ajudar a avó a cuidar do menorzinho até que estivessem novamente todos juntos em uma casa grande e Thiago, o caçula, que ainda ensaiava os primeiros passos.  Teria que se contentar em vê-los crescerem pelo vídeo, sem abraços, sem mimos e sem o cheiro inconfundível de cada um.

Era uma tarde de janeiro, Everaldo chegou em casa com um olhar diferente, ficou meio sem jeito quando Yúri o abraçou, recebeu sem alegria o desenho de coração que Fernanda lhe deu e foi direto para o banho. Era a primeira volta do trabalho após o recesso de fim de ano. Estava muito preocupado, pressentira alguma coisa no ar, o chefe não o olhara nos olhos e até o evitara no café da copa.

Pintura de Picasso

No dia seguinte foi demitido somando-se aos mais de 14 milhões de brasileiros desempregados

O Louva-a-Deus continuava lá, ainda não sei se vigiava Cristina ou se escondia do frio.

Everaldo bem que poderia tirar uma folga do cansaço. Era sempre a mesma espera. O pub em que trabalhava fechava tarde e o namoro era a cada noite mais minguado. Não sobrava tempo nem para sonhar.

Os primeiros casos de Covid-19, as primeiras mortes, as contaminações em uma  velocidade assombrosa tomavam conta das redes sociais, dos noticiários e do planeta. Instalada a pandemia: o inimigo invisível à espreita de toda a humanidade.

Hospitais lotados, cemitérios improvisados, corpos jogados em valas sem despedidas e sem funerais, o mundo se transformando em uma explosão de mascarados, bombardeios de informações e desinformações. O caos.

“Deus, ó Deus! onde estás que não me respondes? Em que mundo em que estrela tu te escondes embuçado nos céus?”

Os pubs fechados, as ruas desertas, as escolas sem alunos, os idosos aprisionados longe das crianças e com medo da peste, sem poder sequer ficar ao lado dos filhos. Todo mundo sem ninguém, sem abraços, sem norte.

O cheiro de morte no ar, as lojas e casas noturnas fechadas, o receio de contaminação deixou as faxineiras e as faxineiras sem trabalho e Everaldo e Cristina decidiram retornar ao Brasil.

A viagem de volta foi mais longa mais dolorosa e comeu os euros guardados à custa de muita renúncia e vida de precisão.

Caminhando lado a lado com olhos de abandono, Everaldo e Cristina divisaram a pequena casa onde deixaram os filhos. E, ainda do meio da rua, viram suas crianças soltas e sujas sem creche, sem escola e sem governo   no quintal escancarado. Lá dentro uma avó sem tempo, tossindo, ofegante e com frio, confeccionava máscaras e fazia promessas.

Angustiada, percorri o mundo inteiro procurando o Louva-a-Deus com sua cor-esperança trazendo sorte.

Mãe, olha aí, de novo o Grilão verde, será mesmo que ele nunca amadurece?

Ele tem que ser sempre verde para trazer a sorte.

Por que ele não a trouxe para o papai e para a vovó?

O Louva-a-Deus sempre traz sorte. Só que a sorte deles foi diferente da nossa.

Cheguei bem perto do Louva-a-Deus e perguntei a ele qual seria a sorte que ele trazia para Cristina, Yúri, Fernanda e Thiago.

Ele baixou a cabeça: a mesma de milhões de brasileiros: a esperança de sobreviver.

Malu Luísa Ribeiro foi presidente da União Brasileira de Escritores-Goiás.

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