Congresso de Intelectuais que reuniu Pablo Neruda e Jorge Amado em Goiânia faz 65 anos

Conheça a história do evento que recebeu mais de 300 personalidades ligadas à área cultural e que foi tema de mestrado do jornalista Francisco Barros

Neruda, no Teatro Goiânia, na abertura do Congresso de Intelectuais. Foto: Acervo do Prof. Bento Fleury

Por Marília Noleto e Nathan Sampaio

É bem provável que poucos goianos saberão responder de bate-pronto: qual a importância do ano de 1954 para a cultura do Estado de Goiás? Só alguns estudiosos conhecem o evento que marcou Goiânia naquele ano: o1º Congresso Nacional de Intelectuais, realizado entre os dias 14 a 21 de fevereiro, cuja abertura foi noCine Teatro Goiânia, e que recebeu cerca de 300 personalidades de todo o país (e mais nove delegações estrangeiras). Dentre os presentes, aportarampor aquininguém menos que o poeta Pablo Neruda e o já consagrado Jorge Amado.

Mas houve quem se empenhasse para que este evento de grande relevância cultural não caísse no esquecimento. Durante mais de cinco anos o tema foi objeto de estudo e pesquisa que resultou na dissertação de mestrado I Congresso Nacional De Intelectuais (Goiânia-1954): Cultura Nacional, PCB e Hegemonia, defendida no ano passado na Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da UFG. O autor é o jornalista e mestre em comunicação e cultura, Francisco Barros. Ele revelou ao Jornal Opção detalhes do congresso.

Francisco explicou, primeiramente, que o evento reuniu artistas plásticos, cineastas, atores e atrizes, músicos, professores renomados e juristas que estavam entre os maiores intelectuais da época.“Foi o último evento desse porte realizado no Brasil. Antes havia acontecido outras quatro edições, uma em São Paulo, em 1945; em Belo Horizonte, em 1947; em Salvador, em 1950; e o quarto em Porto Alegre, em 1951, presidido pelo Graciliano Ramos”, comentou. Ele lembrou queo congresso de escritores em Porto Alegrefoi que deliberou que o evento seguinte seria realizado em Goiânia.“Não somente com os escritores, como foram as outras edições, e por isso ganhou o nome de Primeiro Congresso de Intelectuais.”

O jornalista e mestre em comunicação e cultura, Francisco Barros. Foto: Dan Bariani

O jornalista informa que, além de Pablo Neruda e Jorge Amado(os mais conhecidos e consagrados mundialmente), também participaram outros grandes nomes representativos da intelectualidade latino-americana. “Entre os presentes das delegações internacionais tivemos Baltazarde Castro, que era na época o presidente da Câmara dos Deputados do Chile;Volodia Teitelboim [outro escritor e político chileno]; Joaquín Gutiérrez, escritor da Costa Rica, Jesualdo Sosa, escritor uruguaio; Carlos Garcete e Elvio Romero, escritores paraguaios; Herminio Giménez, maestro e compositor paraguaio”.

No que se refere aos intelectuais brasileiros, o jornalista comenta que vieram para Goiânia cineastas como Lima Barreto, diretor do filme O Cangaceiro, que recebeu premiações internacionais, e Alberto Cavalcanti, diretor de O Canto do Mar; os escritores Orígenes Lessa, José Geraldo Vieira e Breno Acioli; das artes plásticas Alfredo Volpe, Bruno Giorge, Carlos Scliar, Djanira, Mario Gruber, Mario Zanine, Osvaldo Goeldi, Eduardo Alvin Correia; das atrizes estiveram presentes a RuthSouza e Maria Della Costa, grandes nomes do teatro e do cinema;e mais juristas, cientistas, teólogos, folcloristas, jornalistas, entre outros segmentos expressivos da cultura nacional.

“Quanto aos intelectuais goianos,estiveram presentes Bernardo Élis, Eli Brasiliense, Ada Curado, Gilberto Mendonça Teles, José Godoy Garcia, Amália Hermano, Maximiano da Mata Teixeira, Regina Lacerda, Afonso Félix de Souza, Oscar Sabino Júnior, Haroldo de Brito, Francisco de Brito, Guilherme Xavier de Almeida, José Luiz Bittencourt, Castro Costa; os artistas plásticos goianos foram Luiz Curado, Gustav Ritter e Antônio Henrique Péclat”, citou alguns dos que marcaram presença no evento.

Esses nomes reforçam a dimensão que esse evento teve para o Brasil, mas que também chegou a ultrapassar as fronteiras nacionais. Vale lembrar que, além da presença de tantas personalidades em Goiânia, as temáticas tratadas foram igualmente relevantes.“Na época do evento, a cultura no Brasil já estava passando um processo de descaracterização.Por isso o evento fazia um apelo em defesa da cultura nacional. As discussões centraram nesse ponto: como atuar para preservar as raízes da cultura nacional”, explica Francisco. Daí provém o subtítulo da sua dissertação: “Cultura nacional, PCB e Hegemonia”.

Trazer essas informações sobre o congresso, no entanto, foi mais difícil do que saber quem esteve na capital goiana em 1954, afirma o jornalista. “Isso porque não havia em Goiás praticamente nenhum documento da época sobre o evento. Eu tive que buscar praticamente tudo fora. Encontrei referência do evento no acervo digital do Museu de Houston, um dos maiores do Estados Unidos,onde pesquisei uma revista que era editada em Santa Catarina, a revista Sul”, conta.

Francisco obteve a edição número 22, de julho de 1954, editada pelo grupo Ciclo de Arte Moderna de Florianópolis (SC). “Quando eu tive acesso à revista eu descobri que ela trazia um farto material sobre o congresso, inclusive imagens raras da abertura no Teatro Goiânia, das plenárias e das discussões que foram travadas.”

Posteriormente, o autor da dissertação fez contato com a Fundação Jorge Amado, em Salvador (BA), e descobriu a existência de outra publicação, que também editou um extenso material sobre o evento, incluindo as resoluções aprovadas durante o congresso: a revista Horizonte, do Clube da Gravura de Porto Alegre (RS).

Amália Hermano, Regina Lacerda, Frei Confaloni e Jorge Amado no churrasco para os intelectuais. Foto: Acervo do Prof. Bento Fleury

“Antes de ter acesso a esses documentos eu só tinha em meu poder uma edição do jornal O Popularque noticiou a abertura do congresso. Só posteriormente,tive acesso a todo o acervo do O Popular e da Folha de Goiás, que cobriram muito bem todos os dias do evento”, completa o jornalista.

O evento, segundo revelou Francisco,aprovou quatro resoluções básicas, que sintetizaram as preocupações das delegações presentes naquele ano de 1954: “O povo brasileiro possui uma cultura nacional característica e vigorosa que deve ser preservada; incentivo ao intercâmbio entre todos os países; defesa das liberdades democráticas; e a exigência de meios materiais para expressão e divulgação do pensamento e da cultura”.

Para o jornalista, é indispensável que tanto os goianos, quanto os brasileiros tenham acesso às informações sobre este congresso, que pode ser considerado como único, pelo seu formato. A dissertação ‘I Congresso Nacional de Intelectuais (Goiânia-1954): Cultura Nacional, PCB e Hegemonia’ está disponível para download por meio do site da Universidade Federal de Goiás (UFG).

O poeta chileno Pablo Neruda, nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto (Parral, 12 de julho de 1904 — Santiago, 23 de setembro de 1973). Foto: Domínio público

Poema do pássaro

Poucos sabem, mas graças a esta breve passagem de Neruda por aqui, Goiânia acabou virando cenário de um dos poemas do chileno. “Oda Al Pájaro Sofré” trata de um pássaro que levou para o Chile, mas que teve um fim trágico: morreu (provavelmente) de frio. O poema foi incluído no seu livro “Odas Elementales”, publicado em 1954.

Eis abaixo o poema, no original, em espanhol:

Te enterré en el jardín: una fosa minúscula como una mano abierta,
tierraaustral, tierra fría,
fue cubriendo tu plumaje,
los rayos amarillos,
los relámpagos negros de tu cuerpo apagado.
De la fértil Goiania,
te enviaron ence
rrado.

No podías.
Te fuiste.
En la jaula con las pequeñas patas tiesas,
como agarradas a una rama invisible,
muerto,
un pobre atado de plumas extinguidas,
lejos de los fuegos natales, de la madre espesura,
en tierra fria lejos.

Ave purísima,
te conocí vivente, eléctrico, agitado, rumoroso,
una flecha fragante era tu cuerpo, por mi brazo y mis hombros anduviste independiente, indómito, negro de piedra negra y polen amarillo.

Oh salvaje hermosura, la dirección erguida de tus pasos,
en tus ojos la chispa del desafío, pero así como una flor es desafiante,
con la entereza de una terrestre integridad,
colmado como un racimo, inquieto como un descubridor, seguro de su débil arrogancia.

Hice mal, al otoño que comienza en mi patria,
a las hojas que ahora desfallecen y se caen,
al viento Sur, galvánico, a los árboles duros,
a las hojas que tú no conocías,
te traje, hice viajar tu orgullo a otro sol ceniciento lejos del tuyo quemante como cítara escarlata,
y cuando al aeródromo metálico tu jaula descendió, ya no teníasla majestad del viento,
ya estabas despojado de la luz cenital que te cubría, ya eras una pluma de la muerte,
y luego, en mi casa, fue tu mirada última a mi rostro, el reproche de tu mirada indomable.

Entonces, con las alas cerradas, regresaste a tu cielo, al corazón extenso,
al fuego verde, a la tierra encendida, a las vertientes, a las enredaderas, a las frutas,
al aire, a las estrellas, al sonido secreto de los desconocidos manantiales,
a la humedad de las fecundaciones en la selva,
regresaste a tu origen, al fulgor amarillo, al pecho oscuro, a la tierra y al cielo de tu patria.

Exposição Nacional de Artes Plásticas

Em paralelo ao 1º Congresso de Intelectuais também ocorreu, em Goiânia, a Exposição Nacional de Artes Plásticas. Um dos nomes de destaque desse evento foi Frei Nazareno Confaloni, importante personalidade da nossa cultura e que deixou, entre vários trabalhos marcantes, dois murais, em 1953, no saguão de entrada da antiga Estação Ferroviária. Na ocasião, os artistas que participaram da exposição doaram os trabalhos que estavam expostos para a criação do Museu de Arte de Goiânia (MAG), ideia que só veio a ser concretizada 15 anos depois. Grande parte do acervo(estimado em mais de 300 trabalhos) acabou se perdendo. Sob a guarda do MAG só restou cerca de uma dezena dessas obras.

A exposição também teve organização de Luiz Curado e Gustav Ritter, mas teve como ajudante aquele que viria a ser, futuramente, um dos maiores nomes das artes plásticas de Goiás, além do primeiro diretor do Museu de Arte de Goiânia (MAG): Amaury Menezes. Com todo o entusiasmo dos vinte e poucos anos, se ofereceu de cara para ajudar, ao saber da realização do congresso. “Vieram artistas do Brasil inteiro para participar da exposição. As obras que foram expostas ficaram aqui e constituíram o acervo inicial do MAG. A Universidade Católica era a proprietária das telas que sobraram na época da criação do museu e fez a doação”, explica.

Neruda e Confaloni, dois dos grandes nomes do congresso. Foto: Acervo do Prof. Bento Fleury

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