Filme ‘Ensaio sobre a Cegueira’ mostra como a civilização pode se transformar em barbárie num piscar de olhos
10 outubro 2026 às 22h31

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José Saramago é considerado um mestre das realidades paralelas desesperadoras e alegóricas. Em “As intermitências da morte”, o autor português nos transporta para um mundo em que simplesmente a morte decide tirar férias. Com “Ensaio sobre a lucidez”, vivenciamos nas páginas lidas um episódio em que, nas eleições de uma cidade, praticamente toda a população decide votar em branco. E em “Ensaio sobre a cegueira”, Saramago nos conta a história de uma epidemia de cegueira que se espalha e provoca um colapso social. E esse último foi transformado pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles em uma obra inesquecível.
Lançado em 2008, ‘Ensaio sobre a Cegueira’ parte de uma premissa tão absurda quanto perturbadora: sem nenhuma explicação, um homem perde a visão enquanto dirige, em meio ao trânsito de uma grande cidade. Mas, ao contrário da escuridão de uma cegueira “tradicional”, o que ele passa a enxergar é uma brancura intensa, como se estivesse mergulhado em um mar de leite.
O fenômeno da “cegueira branca” se espalha com velocidade, atingindo pessoas que tiveram contato com os primeiros infectados. Uma a uma, as pessoas passam a ficar cegas repentinamente. As autoridades decidem isolar os doentes em um hospital desativado. Entre os confinados, um oftalmologista e sua mulher, interpretada por Julianne Moore, a única que, inexplicavelmente (e em segredo), continua enxergando.
É a partir desse confinamento que Meirelles leva o espectador a uma das representações mais brutais da degradação humana no cinema. Cegos, abandonados pelo Estado e submetidos a condições abjetas, os personagens começam a perder, pouco a pouco, os referenciais que sustentavam sua convivência em sociedade, a bússola que rege a nossa civilização.
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A comida logo se torna moeda de poder, enquanto a violência passa a determinar hierarquias. O hospital, que deveria funcionar como espaço de proteção, vira um verdadeiro laboratório da barbárie, onde a sobrevivência a qualquer custo vem antes de princípio moral ou altruísta.
O fator que torna o filme tão perturbador é, justamente, a percepção que o espectador tem quanto à velocidade com que a civilização pode desmoronar. E o mais inquietante é perceber que a cegueira não cria a crueldade que aparece naquele ambiente. Não: a doença só elimina os mecanismos que, até então, freavam os instintos animais (e cruéis).
Por ser a única capaz de enxergar, a mulher do médico se torna testemunha de horrores que os outros não podem contemplar (alguns, por sorte). Sua visão, longe de ser uma vantagem absoluta, é, em algumas situações, até um fardo moral. Está tudo diante de seus olhos: a sujeira, a violência, a humilhação e a decomposição das relações humanas.
Julianne Moore constrói sua personagem com uma contenção admirável, e evita assumir o papel da heroína convencional. Sua humanidade está exatamente nas escolhas dolorosas que precisa fazer. Já que enxergar não significa, necessariamente, ter poder pra mudar aquilo que se vê.
Saramago, com o livro, e Meirelles, com o filme, parecem entender que a civilização é uma construção muito, mas muito mais frágil do que imaginamos. E é isso, não a brutalidade visual e narrativa do filme, que assusta mais e arranca o sono. Um filme imperdível.


