A dura viagem de tio Tasso para estudar Medicina no Rio de Janeiro
10 outubro 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Em dezembro de 1919, as chuvas de Goiás caíam sem trégua quando Siô Luizinho Camargo, meu bisavô materno, decidiu levar o filho ao Rio de Janeiro.
Na Cidade de Goiás, a água descia pelas ruas de pedra, escurecia as paredes caiadas e fazia transbordar as enxurradas. O cheiro de terra molhada misturava-se ao de lenha úmida, duvidando se devia ou não acender o fogo. Nos quintais, as galinhas procuravam abrigo sob os beirais, enquanto o som contínuo da chuva cobria as vozes da cidade.
Luiz Marcelino de Camargo Júnior, farmacêutico do batalhão do Exército e também do Hospital de Caridade, era conhecido na Cidade de Goiás por ser um homem muito caridoso e habituado a lidar com remédios, receitas e doenças. Naqueles dias, porém, preparava-se para uma viagem como pai.
Tasso, seu único filho varão — e meu tio-avô —, iria estudar Medicina no Rio de Janeiro.
A distância não se media apenas em léguas. Entre a Cidade de Goiás e a ponta da linha férrea, em Roncador, havia serras, rios cheios, atoleiros e estradas que a chuva tornava ainda mais difíceis. Os caminhos, já estreitos, desapareciam sob a lama ou se transformavam em sulcos profundos abertos pelas tropas e e rodas das carroças. Só depois de alcançar a linha férrea começaria a segunda etapa do percurso, de trem, rumo a uma cidade que, para um rapaz criado entre os rios e as serras de Goiás, devia parecer quase outro mundo.
Tasso despediu-se da mãe e das irmãs. Deixava a casa, os amigos e tudo o que conhecia. Levava consigo algumas roupas, livros, documentos e a expectativa do pai, talvez mais pesada que a própria bagagem. Partiram
Siô Luizinho conhecia os riscos. Escolheu, por isso, um tropeiro experiente, dono de uma boa tropa de mulas, fortes e acostumadas às estradas da região. Os animais tinham o pelo escuro e brilhante de chuva, os lombos largos e os cascos firmes. Naquele dezembro, contudo, até os melhores enfrentariam um teste severo.
Na manhã da partida, a chuva batia no telhado com força. A água escorria pelas telhas e caía das beiradas em fios grossos. Dentro da casa, o cheiro de café recém-passado misturava-se ao de roupas úmidas, couro e madeira molhada. As mulas estavam arreadas no terreiro, inquietas sob a garoa, e o tropeiro examinava o céu com desconfiança.
— A serra vai estar brava hoje — disse.
Siô Luizinho ergueu os olhos para as nuvens baixas, pesadas, quase encostadas nos morros.
— Então vamos devagar.
— Devagar é o jeito.
Tasso despediu-se da mãe e das irmãs. O abraço demorou mais do que de costume. Deixava a casa, os amigos e tudo o que conhecia. Levava consigo algumas roupas, livros, documentos e a expectativa do pai, talvez mais pesada que a própria bagagem. Partiram.
A cidade foi ficando para trás, dissolvida na chuva. Os telhados desapareceram primeiro; depois, as últimas casas deram lugar ao mato, aos muros de pedras e às encostas cobertas de verde. A tropa avançava em fila, enquanto as mulas escolhiam onde firmar os cascos. O barro subia pelas pernas dos animais, respingava nas calças dos homens e grudava nas botas. Em alguns trechos, a estrada se reduzia a uma abertura estreita no meio do mato, ladeada por capim alto, arbustos e árvores encharcadas.

O ar cheirava a folhas esmagadas e terra revolvida. De vez em quando, um pássaro assustado levantava voo entre os galhos, ou algum córrego escondido revelava sua presença pelo ruído da água correndo escondida por entre a vegetação.
Para quem vinha das estradas de Goiás, o trem parecia uma criatura viva: rangia, soltava fumaça e estremecia antes de começar a andar. Tasso entrou no vagão ainda com a sensação de que a viagem não podia ser real
Foram muitos dias de chuva, lama, córregos transbordados, paradas breves e noites mal dormidas. Quando conseguiam acender uma fogueira, os homens se reuniam em torno dela e conversavam baixo, enquanto a água caía além do círculo de luz. A fumaça entrava nos olhos, a roupa custava a secar e o calor nunca era suficiente para afastar completamente o frio úmido da noite.
Tasso dormia como podia, protegido por uma cobertura improvisada, ouvindo o resfolegar das mulas, o ranger dos arreios e o rumor incessante da chuva sobre a lona.
Na Serra do Catingueiro Grande, na região que hoje corresponde a Itauçu, não havia espaço para pressa. A água descia pelas encostas e transformava o caminho em pedras escorregadias, lama e correnteza. As mulas avançavam com o pescoço baixo, bufando, enquanto os homens seguravam as rédeas e procuravam os trechos menos perigosos. Em certos pontos, desmontavam e caminhavam ao lado dos animais, com os pés afundando no barro.
Tasso escorregou numa subida. O chão cedeu sob sua bota, e ele perdeu o equilíbrio.
O pai segurou-o pelo braço.
— Cuidado, rapaz.
— Estou bem.
O tropeiro, logo atrás, soltou uma risada.
— A serra está querendo conhecer o futuro doutor antes da hora.
Tasso limpou a lama da mão e sorriu, sem responder. A tropa retomou o passo, lentamente, sob a chuva que parecia não ter fim.
Quando chegaram à região de Pires do Rio, a viagem ainda não havia alcançado a estrada de ferro. A linha férrea não chegara à cidade naquele momento. Pires do Rio só seria alcançada pelos trilhos alguns anos depois, em 1922. Em 1918, portanto, a tropa ainda precisava seguir até a ponta da linha férrea, em Roncador, onde começaria a segunda etapa do percurso.
Não era uma escolha fácil. Francisco Giffoni Filho, Foninho, sabia que estava ocultando do rapaz a morte do pai. Mas julgava necessário proteger, por alguns dias, o futuro que Luiz Marcelino havia confiado aos dois
A estação de Roncador pareceu anunciar uma mudança de mundo. Depois de tantos dias sobre o lombo das mulas, o trem, com sua fumaça, seus apitos e o movimento da estação, tinha qualquer coisa de assombroso. O ar cheirava a carvão, óleo, madeira molhada e ferro. Homens carregavam malas e volumes, vendedores ofereciam café, quitandas e jornais, e os passageiros se moviam entre bancos, plataformas e vagões. O apito da locomotiva cortou o ar com uma força que fez Tasso voltar o rosto. A máquina soltou uma nuvem escura, e o vapor se espalhou junto aos trilhos molhados.
Para quem vinha das estradas de Goiás, o trem parecia uma criatura viva: rangia, respirava, soltava fumaça e estremecia antes de começar a andar.
Tasso entrou no vagão ainda com a sensação de que a viagem não podia ser real. Pela janela, viu o tropeiro e as mulas diminuírem lentamente de tamanho, enquanto o trem ganhava velocidade. O cheiro de carvão entrou pela fresta, misturado ao vento frio e úmido que passava pelo vagão.
Ainda não era o Rio, mas já era o caminho do Rio.
A viagem de trem foi longa. O vagão sacudia sobre os trilhos, as rodas batiam num ritmo constante e os passageiros conversavam em vozes baixas. Em algumas paradas, subiam novos viajantes; em outras, desciam famílias inteiras, carregando malas, embrulhos e crianças sonolentas. Tasso observava pela janela a paisagem mudar: os campos, as matas, as pequenas estações, as pontes e os povoados passavam como imagens sucessivas.
Finalmente, a capital surgiu diante de Tasso em permanente movimento.
O Rio de Janeiro de 1918 era uma cidade de contrastes. Havia o brilho das fachadas, das vitrines e dos cafés, mas também o cheiro forte das ruas, dos estábulos, dos bueiros e da maresia. Bondes elétricos passavam tilintando pelos trilhos, automóveis disputavam espaço com carruagens e carroças, e vendedores anunciavam jornais, frutas, doces e bilhetes de loteria.
Nas calçadas, homens de terno caminhavam apressados, estudantes carregavam livros, marinheiros cruzavam com funcionários públicos, e mulheres elegantes protegiam os vestidos da lama e da água. O ruído era contínuo: rodas sobre o calçamento, buzinas, apitos, vozes, pregões e o sino dos bondes.
Tasso de Camargo, filho de Luiz Marcelino Jr., voltou para o Rio e concluiu o curso com brilhantismo. Por mais de 60 anos clinicou em Goiás, cuidando, aconselhando e ajudando especialmente os mais pobres
Tasso olhava para todos os lados, tentando compreender aquela cidade que parecia não dormir. O ar trazia o cheiro salgado da Baía de Guanabara, misturado ao de café torrado, carvão, gasolina e chuva. Ao longe, entre os prédios e as ruas movimentadas, surgiam os morros, verdes e imensos, como se a natureza ainda disputasse espaço com a cidade.
Nada lembrava a quietude da Cidade de Goiás.
Siô Luizinho, porém, não se sentia sozinho. No Rio vivia Francisco Giffoni Filho, o Foninho, seu colega dos tempos do curso de Farmácia, ou melhor, de Pharmacia, como se grafava à época.
Os dois haviam compartilhado os anos de estudo, as dificuldades da vida de estudante, as noites de leitura e a esperança de um futuro profissional. Depois, cada um seguira seu caminho. Agora se reencontravam, muitos anos mais tarde, longe de Goiás, no meio daquela cidade barulhenta e apressada, mais precisamente na Rua 1° de março número 17, onde funcionava a Pharmacia e Drogaria Giffoni:
— Luizinho!
— Foninho!
Abraçaram-se. Havia histórias a contar, lembranças a recuperar e perguntas sobre os anos passados, mas também uma tarefa urgente.
Foninho voltou-se para Tasso.
— Então este é o doutor que você está me trazendo?
Luiz Marcelino sorriu.
— Doutor ainda não. Mas é para isso que veio.
Foninho pousou a mão no ombro do rapaz.
— Enquanto estiver no Rio, você não estará sozinho.
Tasso talvez não compreendesse o alcance daquela promessa. Com o tempo, compreenderia. Foninho seria seu protetor e seu ponto de apoio numa cidade distante de casa, onde tudo parecia grande demais: as ruas, os edifícios, a faculdade, o movimento e a distância que o separava da família.
Quando Luizinho Camargo voltou para Goiás, deixou o filho sob os cuidados do antigo companheiro de Farmácia.
A vida de Tasso no Rio começava.
Os anos seguintes foram de estudo, amizades e adaptação. Tasso enfrentou as exigências da Faculdade de Medicina e aprendeu a viver longe da família. Precisou acostumar-se ao ritmo da cidade, aos horários dos bondes, ao movimento das ruas e à vida de estudante numa capital que reunia gente de todas as partes do país.
Foninho acompanhava-o de perto, ajudando quando necessário e aparecendo sempre que surgia alguma dificuldade. Às vezes, bastava uma conversa. Outras vezes, era preciso orientar, acompanhar ou simplesmente oferecer ao rapaz a sensação de que ainda havia alguém conhecido por perto.
Em dezembro de 1921, enquanto Tasso se preparava para os exames do terceiro ano, chegou a notícia que Foninho jamais esqueceria: Luiz Marcelino de Camargo Júnior havia morrido subitamente.
A notícia da morte o atingia de duas maneiras. Luizinho era seu velho amigo, companheiro dos tempos de Farmácia, mas também o homem que lhe confiara o filho numa cidade distante.
Foninho decidiu não contar imediatamente. Afinal, o rapaz precisava de paz de espírito para enfrentar os exames de fim-de-ano.
Sabia que Tasso abandonaria os exames e voltaria para Goiás. Como único filho varão, provavelmente se sentiria obrigado a assumir as responsabilidades da casa, ao lado da mãe e das irmãs.
Por isso, guardou a notícia.
Tasso fez as provas enquanto Foninho carregava sozinho aquela dor. Do lado de fora, o Rio continuava com seus bondes, seus ruídos, seus vendedores e sua agitação. Dentro de Foninho, porém, havia o peso de uma decisão que não lhe dava descanso.
Não era uma escolha fácil. Ele sabia que estava ocultando do rapaz a morte do pai. Mas julgava necessário proteger, por alguns dias, o futuro que Luiz Marcelino havia confiado aos dois.
Quando os exames terminaram, contou.
Tasso recebeu a notícia como se o chão tivesse cedido. O pai estava morto. O homem que o levara ao Rio, acreditara nele e sonhara com sua formação médica não voltaria mais para Goiás.
Não houve hesitação. Partiu para casa decidido a não retornar ao Rio. Naquele momento, a Medicina parecia menos urgente que a família. Havia a mãe, as irmãs, a casa e tudo o que agora recaía sobre seus ombros.
Em Goiás, encontrou as mulheres da família mergulhadas no luto. A casa parecia menor e mais silenciosa. As vozes eram baixas, os passos cuidadosos, e os objetos de seu pai ainda estavam nos lugares de sempre, como se sua ausência pudesse ser desmentida a qualquer momento.
Mas Tasso também encontrou uma resistência que não esperava.
Disse que não voltaria ao Rio.
As irmãs não aceitaram. A mãe tampouco.
Tasso argumentava que precisava ficar. Elas lembravam que o pai o mandara estudar justamente para que se tornasse médico. A morte não podia apagar o futuro que ele havia preparado para o filho.
Ele insistiu. Elas insistiram mais.
Aos poucos, convenceram-no de que retornar ao Rio não significava abandonar a família. Era cumprir a vontade do pai.
Tasso voltou e concluiu o curso com brilhantismo. Por mais de 60 anos clinicou em Goiás, cuidando, aconselhando e ajudando especialmente os mais pobres.
Numa justa homenagem, a Câmara Municipal deu o seu nome à praça que, no passado, já fora Largo da Matriz; Praça da Liberdade; Praça Getúlio Vargas; Praça Marechal Castelo Branco, ou simplesmente “Praça do Jardim”, ou “Praça do Coreto”…
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
(Setembro de 2026, no centenário da graduação do Dr. Tasso de Camargo como doutor em Medicina pela então Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro.)


