Ronaldo Costa Fernandes

De Barcelona

Os maiores temas de Machado são a obsessão pelo status, a luta pelo poder, a loucura e o adultério. Em alguns momentos os três temas se confundem. A ânsia de permanência e de glória levará Brás Cubas ao desconcerto das ideias.

Quincas Borba, que morre no romance que lhe dá o título, é um desvairado filósofo com sua teoria do Humanitismo. A busca da fama e de posição política, título nobiliárquico, como o baronato de Santos em “Quincas Borba”, ou alcançar o cargo de ministro, transtornam os homens.

É a crítica da razão e da ciência elevada a um grau de divindade e método infalível que leva o niilista Machado de Assis descrer das conquistas do homem e de seu repertório de receitas para o salvamento do gênero humano

O adultério — ou o quase adultério, como chama o próprio narrador também em Quincas Borba, de Sofia — ou a desconfiança do adultério de Capitu está mesclado nessa ambiência de poder e loucura. 

A razão é caricata na ridicularização do positivismo, do darwinismo social, mas ao mesmo tempo é com a razão que instrumentaliza sua crítica da razão. A razão exacerbada, a razão cultuada pela filosofia é a mesma razão de que se utiliza Machado para criticá-la. Não é a emoção, não são os sentidos, não é a vontade, estado primário do conhecimento, como queria Schopenhauer, mas aquilo que o filósofo alemão chamou de conhecimento secundário, o intelecto, que permite a Machado colocá-la no plano do ridículo e do escárnio.

Machado de Assis capa de Quincas Borba
“Quincas Borba”: um dos mais importantes romances de Machado de Assis | Foto: Jornal Opção

É a crítica da razão e da ciência elevada a um grau de divindade e método infalível que leva o niilista Machado descrer das conquistas do homem e de seu repertório de receitas para o salvamento do gênero humano. O Humanitismo descreve “a origem e a consumação das cousas […] retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura felicidade”. E num último arroubo, a se igualar a vários personagens machadianos que são ambiciosos e lutam pela fama e poder, o Humanistas “enche de glória o nosso país”.

A teoria do Humanistismo se contrapõe a Sêneca e aos estoicos. Por imagens correntes e cotidianas, como o hábito de bem se alimentar, degustando iguarias, por exemplo, aproxima a teoria do amalucado Quincas ao hedonismo e explica que tudo na vida e na História tem seu sentido e que o sentido do homem é buscar o prazer e a alegria. Nesta primeira exposição da teoria, o homem tem de buscar, segundo suas palavras, “a destruição da dor”.

Machado não apenas se mostra em dia com as teorias europeias mais avançadas para a época, como também as incluía dentro de sua estrutura narrativa e ideológica: o Humanitismo, crítica do monismo e do darwinismo social, estava dentro do espectro do risível e da descrença em qualquer mecanismo que se propusesse a ser a salvação da espécie ou a solução dos problemas da humanidade.

O pensamento da cultura e a cultura do pensamento levam à loucura. Não levam à loucura o amor desbragado, o amor incompreendido, mas o ato de tentar compreender o mistério da vida, os desvãos do raciocínio humano

Leitor e admirador de Schopenhauer, conhecido pela filosofia do império da vontade sobre a razão, Machado chega mesmo a ser crítico de quem admirava. Dar naturalidade às vontades espúrias ou não do homem, expondo sua luta sangrenta – atenuada pelos avanços civilizatórios, mas ainda assim sangrentos à sua maneira moderna –, é relato da luta pela vida apresentada por Darwin. Levado ao plano social do convívio entre os povos e entre os homens, o darwinismo afirma a prevalência do mais forte e do mais adaptado. Entre dois grupos humanos que guerreiam ganha aquele que é mais forte, ou seja, o grupo que conquistou seu direito às batatas. Ao vencedor as batatas! Machado não é contra ou a favor do darwinismo social, até porque não é um filósofo nem muito menos um ensaísta. O que lhe cabe é o descrédito de quem acredita que a humanidade possa ser explicada em poucas linhas ou que uma só visão dê respostas às complexidades da vida humana e da vida em sociedade.

Shopenhauerr reprotudção
Arthur Schopenhauer: filósofo alemão lido por Machado de Assis | Foto: Reprodução

A loucura, representada por Quincas Borba, é um desvio mental ligado ao conhecimento universal. Não é apenas uma paranoia, uma depressão severa, um desacordo lírico entre a realidade e o sonho, não, a loucura em Machado está incrustrada na cultura e na filosofia como um diamante no seu suporte de anel. Quase está a dizer que pensar, e pensar filosoficamente, não é uma operação de cientistas, mas uma doença do filosofar. O pensamento da cultura e a cultura do pensamento levam à loucura.

Não levam à loucura, como em outros autores, o amor desbragado, o amor incompreendido, as paixões, ou mesmo as doenças físicas, ou psicofísicas, mas o ato de tentar compreender o mistério da vida, os desvãos do raciocínio humano, o exercício do intelecto e a ambição de abarcar o conhecimento universal. Há por certo, no romance Quincas Borba, o personagem principal, Rubião, que acaba louco, imaginando ser Napoleão III. Mas a se contrapor a esta exceção haverá a Casa Verde de O alienista e seu idealizador, dr. Simão Bacamarte, e todos os contos fantásticos, alegóricos e delirantes ocorridos por meio de sonhos, delírios ou enganos da percepção da realidade.

O homem disfórico e o autor melancólico irônico viu em Schopenhauer seu companheiro de afinidades. Quando esse fenômeno se dá, o autor fica feliz por ver corroborado pela ciência ou saber acadêmico sua cosmovisão

Está incluída no pensamento machadiano a ideia de que a loucura é parte componente da sanidade mental dos homens, em graus maiores e menores. Existe a percepção de que o mundo não é organizado, mas, sim, uma série de eventos que tendem ao disperso, inusitado e, em alguns casos, à irrealidade. As relações sociais não são saudáveis e, se servem para manter o equilíbrio da sociedade, mostram o desconcerto das emoções e razões mesquinhas, algumas beirando a insanidade.

Machado de Assis: um cético ilustrado

Loucura e erotismo estão no mesmo plano dos instintos reprimidos. Embora o erotismo machadiano esteja controlado e vigiado, não deixa de fazer parte da vontade, esse motor primário e fundamental do ser humano, conforme apontou Schopenhauer. Não diria que Machado foi influenciado por Schopenhauer, mas que ele, ao ler o filósofo alemão, encontrou nele pontos em comum. O homem disfórico e o autor melancólico irônico viu no mestre de Frankfurt seu companheiro de afinidades intelectuais. Quando esse fenômeno se dá, o autor fica feliz por ver corroborado pela ciência ou saber acadêmico sua cosmovisão.

O curioso é que a filosofia de Quincas Borba não é de todo disparatada. É uma crítica muito lúcida, ainda que eivada de humor ácido. O inconsciente aqui é deslocado do objeto — a filosofia — para o sujeito — Quincas Borba

O erotismo em Machado está vinculado não somente aos costumes, ao desejo controlado e regulado pela sociedade, como também se rege dentro do espectro do mundo hierarquizado e socialmente determinado. Mulheres vulgares como a espanhola Marcela estão alijadas do contrato social do mundo burguês. Do mesmo modo as pobres e deficientes físicas como Eugênia não ensejam nenhum ganho social. Poder e erotismo estão interligados, indissolúveis e se entremeiam para galgar postos como no caso de Virgília em Memórias Póstumas e Sofia em Quincas Borba.

Não encontrei nenhum crítico (Bosi, Roberto Schwarcz, Faoro, Augusto Meyer etc.) que aproximasse “O delírio” à teoria do Humanitas de Quincas Borba. Ambos estão muito próximos por várias circunstâncias. A primeira se refere a manifestações da loucura, uma do inconsciente mostrando suas vísceras, a segunda, através da loucura – ou seja, ainda do inconsciente – do autor da teoria do “Ao vencedor, as batatas!”. O que expõe Quincas Borba em sua teoria do mais adaptado e do mais forte, e de que tudo se explica pela voracidade animal que não julga as ações humanas, também pode ser visto no aparecimento de Pandora ou Natureza que explica todas as misérias humanas pelo caráter fatalista e instintivo do ser humano. Embora “O delírio” esteja mais próximo do inconsciente, a teoria filosófica de Quincas Borba é elaborada por um sujeito tomado pela loucura. O curioso é que a filosofia de Quincas Borba não é de todo disparatada. É uma crítica muito lúcida, ainda que eivada de humor ácido. O inconsciente aqui é deslocado do objeto – a filosofia — para o sujeito — Quincas Borba.

Ronaldo Costa Fernandes é poeta e romancista. “Vieira na Ilha do Maranhão” é um dos seus romances. Em poesia, ganhou o Prêmio da Academia Brasileira de Letras com “A Máquina das Mãos” (2009, 7Letras). É doutor em Literatura pela UnB. Mora em Barcelona. É colaborador do Jornal Opção.