Dono de apurado domínio técnico e formal, o escritor apresenta uma prosa clara e uma fabulação moderna, mas sem desprezar o arcabouço do romance tradicional

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

O médico Carlos Magno de Melo certamente encontrou na literatura o mesmo que autores como Dante Alighieri, A. J. Cronin, Pedro Nava, Guimarães Rosa, Moacyr Scliar, José Maria Leitão, entre outros, vislumbraram, antes, durante e depois do exercício da medicina: a possibilidade de se dedicar também a algo que traz no seu bojo a vida e seus desmembramentos. Tanto a medicina quanto a literatura lidam diuturnamente com problemas humanos e, muitas vezes, se misturam em terrenos patológicos ou psicológicos. Escrever nada mais é do que prescrever soluções para os problemas alheios, com certa dose de alívio e contentamento para quem emite a receita. O médico precisa tanto dos pacientes quanto o escritor de leitores. E essa correlação, explícita no sentido ontológico, é que, nos parece, determina a atração para as duas profissões: o contato com seres fisicamente enfermos e abalados psicologicamente ou seres em busca de beleza e de compreensão da própria vida. Todo leitor, em essência, é um curioso do conhecimento, um potencial aprendiz…

Goiano de Piracanjuba, Carlos Magno, antes de residir na Bahia, morou em Brasília, onde veio para estudar e trabalhar. Formou-se em Medicina pela UnB e, logo depois, montou consultório em que clinicou, com sucesso, durante muitos anos. Por outro lado, acabou se tornando também empresário no ramo da agricultura e da assistência médica, o que o levou a comprometer-se com as causas do empresariado da cidade. Mas sempre gostou de escrever, desde a juventude. Mesmo laborando como médico, resolveu mostrar a nova faceta de suas inquietações: seu primeiro livro, “Bar Castelo”, que saiu pela Thesaurus Editora, acabou criando expectativas por parte de leitores e amigos do autor, que queriam mais e cobravam por isso. E ele não teve dúvida: entregou ao editor os originais do segundo romance, “O Espírito do Rabo do Fogão”, que teve grande sucesso de público e de crítica, dando-lhe a necessária segurança para continuar escrevendo e publicando.

Assim, Carlos Magno chegou a uma dezena de livros publicados, seis dos quais pela Thesaurus: “Bar Castelo”, “O Espírito do Rabo do Fogão”, “Mata Serena”, “O Manuscrito de Madri — O Rapto de Jesus”, “Livramento Pentecostes” e “Canção da Água”, de que nos ocuparemos mais adiante. Mas tem na gaveta originais de muitos outros, pois escreve compulsivamente e, pelo que parece, esse veio ainda vai perdurar por muitos e muitos anos. A fonte não se esgotará tão cedo, é o que se espera.

Carlos Magno, autor de “Canção da Água” | Foto: Redes sociais

Hoje, o que motivou este texto foi o romance “Canção da Água”, 2.ª edição, escrito na terceira pessoa e que nada tem de autobiográfico. Carlos Magno, dono de apurado domínio técnico e formal, apresenta uma prosa clara e uma fabulação nitidamente moderna, mas sem desprezar o arcabouço do romance tradicional. Tanto o narrador quanto as personagens transitam, com certa facilidade, dentro do espaço/tempo em que estão configurados. A história, ambientada em Brasília, muitas vezes em “flashback”, se desloca para a cidade de São Paulo ou Bucareste, na Romênia, para onde seu personagem principal, um pianista, vai em busca de aprimoramento musical. Mas o pano de fundo básico é a angústia existencial, em que perambulam todos os seres dessa trama ficcional.

Oglécito Moreira é filho de uma jovem interiorana que, depois de engravidar, é expulsa de casa pelo pai. Abandonada pelo namorado, vai dar com os costados na cidade grande, onde terá de trabalhar arduamente para sustentar a si e ao filho que estava por nascer. E enfrentar todo tipo de dificuldade que advém de circunstância como essa. É praticamente a história de milhares de jovens brasileiras por este país afora. E aqui nos deparamos com um fato corriqueiro: Dosanjos, depois de conseguir emprego de vendedora de roupas, vai morar de aluguel num cômodo de fundo, cuja proprietária havia perdido o marido e o único filho num acidente de automóvel. Dona Alma, professora de piano, solitária, acaba vendo ali sua tábua de salvação e passa a se dedicar à nova inquilina com cuidados de mãe, ainda sem saber da gravidez. Uma maneira encontrada para não sucumbir aos efeitos do trágico acontecimento que a deixara só no mundo. E o tempo foi passando, até que Dosanjos deu à luz o pequeno Oglécito.

A vida transcorria normalmente para aquela pequena “família” que o destino uniu, sob as bênçãos do improvável. Mas o destino é fatalista. Certo dia chegou a notícia de que Dosanjos havia sido assassinada, vítima de um ladrão, num beco escuro do centro da cidade. Dona Alma, entre surpresa e aliviada, vê na tragédia o começo de suas alegrias: Oglécito, de cinco anos, que aprendera tocar piano desde os três, será seu filho para sempre. Só seu e de mais ninguém. Aliás, acreditava piamente que ele era a reencarnação do seu menino de oito anos, que havia morrido algum tempo antes, ao lado do pai, num acidente cruel e sem explicação.

A partir daí, assume a guarda e a educação de Oglécito, que, uma vez adulto, se transforma num virtuose dos teclados. Ganha festivais e é aplaudido aqui e ali: de Campos do Jordão a Bucareste, cidade que o acolhe para aperfeiçoamento no piano, após ganhar bolsa de estudo do governo brasileiro.

Este é o enredo do romance. Só que, de entremeio, são descritos os desencantos e desassossegos de Oglécito Moreira, com relação à vida, ao amor e ao vazio que sente na alma desde a infância. É um ser sem origem, sem lastro familiar, cujo passado é vago e distante. Um homem perdido no mundo e em si mesmo, que não vê saída para sua existência.

Carlos Magno descreve, com destreza, todos os percalços desse personagem solitário e angustiado, numa narrativa tensa e contida, às vezes sombria, às vezes surrealista. E oferece um painel psicológico das ações que motivaram o protagonista a buscar o suicídio e, ao mesmo tempo, se ver incapaz de cometê-lo. E isso ocorre em duas ocasiões. É um romance muito bem arquitetado do ponto de vista formal, e muito bem escrito. A linguagem é erudita, mas sem rebuscamentos ou maneirismos estilísticos, o que comprova o grau de amadurecimento de quem sabe os caminhos da prosa de ficção moderna, sem perder de vista as conquistas adquiridas pelos autores consagrados do cânone nacional. “Canção da Água” é um livro para ser lido e, sem titubeio, bem recomendado.

João Carlos Taveira é poeta, ensaísta e crítico literário, autor de oito livros de poesia. Membro da Academia Brasiliense de Letras, da Associação Nacional de Escritores e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, de que foi vice-presidente. É colaborador do Jornal Opção.