Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Adeus a Ursulino Leão

Extasiado, ao final da leitura de “Confiteor[i]”, de Ursulino Leão (1924-2018) pergunto-me: como transmitir esta emoção ao leitor da “Destarte”? À leitura deveria suceder um momento de reflexão mais profunda para que o cronista pudesse, então, trazer aos leitores desta coluna uma luz ainda que suave do clarão que exala dessas páginas, mas não…

A fazenda São João – palco em que a maior parte das memórias foi composta…

Rompo meu voto de sempre fazer uma reflexão posterior à leitura. Hoje deixo a emoção falar mais alto, quando o normal é a razão pontear as crônicas e ensaios sobre minhas leituras. Eis a resenha impossível de um livro memorável. É muito bom saber-me acólito e contemporâneo deste ser humano admirável que foi (que é!) Ursulino Tavares Leão.

Lembro-me de uma página de Albert Béguin ao falar do “peregrino do Absoluto” (Léon Bloy) que afirma que sua vocação não era literária – era ser santo. Sobre o Ursulino dessas confissões finais cabe advertir ao leitor que, embora tenha obtido êxito em duas outras carreiras (a de advogado e de político), a vocação dele era a literatura.

Literatura que, a exemplo de Bloy, Ursulino praticou sempre e até este final exuberante, com “o sentido, a necessidade e o instinto do Absoluto”.

Confiteor é livro de um homem no pleno domínio de suas habilidades, no exercício da virtude da prudência, um crente que se permite ceticismo diante do mundo e das escolhas que não o façam sempre e antes e conscientemente um servo do Deus Vivo. É um que pode sempre dizer ao final: “Laus tibi Deo”.

“Todo o Louvor a Deus” – sim, esta pode ser a fórmula da vida do escritor e conservador católico goiano Ursulino Tavares Leão.

O dom que nos é dado pelo Criador, às vezes, demora a ser revelado. Insistimos, como Ursulino insistiu com as petições e os habeas-corpus. A Academia Goiana de Letras (AGL), onde o Autor manteve longa convivência, “transformou em paixão o dom de escrever que o Senhor me concedeu” – confessa em Confiteor, XII, pág. 47.

Porque não escolhemos nossos temas, relembra-nos Ursulino, e sim por ele somos escolhidos. A frase completa é citada de leitura feita nos escritos de Mario Vargas Llosa: “o escritor não escolhe seus temas, é escolhido por eles” – afirma Ursulino na p. 46.

O tema que me escolheu neste livro foi o da “busca do Sagrado” em Ursulino. Ele é tão evidente, que o leitor atento poderá ir garimpando nos algarismos romanos dos capítulos, como se fosse um catecismo. Procure, dileto leitor, no sábio que escreve este livro, verdades sob a legenda do jurista romano Eneu Domício Ulpiano (Séc. II d.C.): “na verdade, sou apenas um homem que desde a infância tem procurado cumprir as incumbências naturais de todo ser humano: viver com honestidade, não causar dano a ninguém, dar ao dono o que é seu” (pág. 22).

O leitor encontrará muitas, como esta: “O irmão que eu não tive” – o irmão nosso e do aprendiz de fazendeiro de Crixás é o que ele reconhece como “o Cristo, Filho de Deus, concebido pelo poder do Espírito Santo, nascido da Virgem Maria, como meu irmão” (pág. 24).

Ursulino na Fazenda São João, 94 anos de acúmulo de sabedoria

Fazenda São João, um dos cenários em que “Confiteor” foi gerado (c) 2018. Contato Comunicação.

O homem que, como Cícero em seu “De senectude” (no ano 43 a.C.), exalta a chegada da velhice e procura aceita-la, há de reconhecer em Ursulino um clássico do sertão. “Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias. Por isso a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.” (Cícero, em “A arte de envelhecer”, 43 a.C.)

É muito parecido ao que Ursulino diz sobre a sequência das fases de nossa vida: a infância, a meninice, a adolescência, a maturidade, a velhice – a senectude, de onde com o exercício diário do Autor chegamos a crer que “viver é transfigurar-se” (pág. 117).
E quem afirma essa verdade é o autor que admite que “Deus é o timoneiro” da sua (dele) vida – e o deveria ser sempre da nossa:

“Bem antes de chegar à velhice (aos trancos e barrancos), senti grande alívio quando fiquei convicto de que Deus é somente amor. Desde então, não o divorcio da minha vida.
“Tenho-o nos meus sentimentos, no que imagino, no que realizo, no que recebo, das lágrimas que padeço e, principalmente, nas esperanças que deposito em minha intemporalidade.
“Espírito perfeitíssimo, suprema inteligência, infinita misericórdia, bondade sem fim, justiça absoluta, onisciente e onipresente, sem princípio e sem fim, uno e trino, Deus é tudo.
“E está em tudo.”

É assim que Ursulino Leão, o para sempre “Leãozinho” para seu pai Seu Thomaz, fazendeiro e comerciante, dono da “Casa Maranhense” e para sua mãe Dona Luizinha, sua irmã Nazareth (Zaré) e todos os seus descendentes também poderiam declarar “Alvíssaras”, como ele assim professou aos 94 anos de uma vida exemplar – e nenhum poeta autêntico haveria de contestar:

“Sou quase um nada
da criatura que fui
pra viver me bastam
do pão uma côdea
e um pouco de vinho.
Tateio na dúvida
busco a verdade
enxergo o mundo
envolto em sombras
perdida beleza.

O perfume tênue
da manhã e da flor
um verso esquecido
do ruído e das palavras
somente ouço
o fundo musical
que os precede.

Desventuras
curvaram-me o dorso
minhas pernas
se escoram numa bengala
mas não cedo
minhas esperanças
aos desenganos.

Contudo outro dia
minha velhice
(marujo atento
na gávea da nau)
em distante curva
descobriu os signos
e me preveniu:

Alvíssaras
meu timoneiro!
Avistei a travessia
para os mares imensos
permanentemente azuis
infinitamente lindos
em que Deus reside!”

Os “signos indecifráveis” do outono da vida deste profícuo escritor goiano (e universal) – Ursulino Leão – estão postos neste “canto-de-cisne”. Leiam-no. Encantem-se com a sabedoria da mocidade deste nonagenário que tem em seu conservadorismo, em sua elegância de viver e de amar ao próximo, de respeitar sua família e suas tradições – uma lição inolvidável para o século XXI.

E para os que nas confissões procuram a fofoca, a declaração inusitada e o fato político, lamento decepcioná-los. Talvez a fraternidade com Pedro Nava, transcrevendo o famoso bordão “eu não tenho ódio; eu tenho memória” (pág. 113) que fala de uma pequena mágoa. E a sua paixão por Lena, a amada de toda a vida de Ursulino, coisa que não é novidade para nenhum iniciado nas artes de envelhecer do Leãozinho (ou do Urbano).

Transcrevo abaixo um emocionado réquiem para o “Leãozinho”, escrito por seu amigo e confrade na AGL, Iuri Godinho, mas que eu endossaria com orgulho.

“RÉQUIEM PARA URSULINO LEÃO” – Por Iuri Godinho, publicado no Facebook do Acadêmico, em 20/OUT/2018.
Ontem pela manhã recebi um telefonema terrível. Paulo Leão, filho do meu confrade da Academia Goiana de Letras, meu amigo, meu confidente, conselheiro Ursulino Tavares Leão vivia suas últimas horas. Uma semana atrás foi internado com problema nada grave nos pulmões. Na quarta-feira teve duas paradas cardíacas em casa e foi para UTI, entubado, de onde não mais saiu. Chorei, chorei, chorei.
Nos últimos cinco anos fui o editor de Ursulino. Publiquei suas obras derradeiras. Bebi uísque com ele e bebi dele sua inteligência luminosa de respostas rápidas e deliciosas. Conversar com Ursulino foi musculação pro meu cérebro. Ele ligava, eu ia: “Chegue 4 da tarde porque durmo depois do almoço”.
Sempre disse a ele que não conseguia acompanhá-lo na bebida. Ele começava com duas taças de vinhos, passava pro uísque. Ria franco, aberto, os olhinhos acesos. Jamais se embriagava. Eu me divertia com a sua birra em não beber em copo de plástico, coisa com a qual nunca me importei.
Sabia tudo de Goiás. Viúvo, continuava apaixonado por sua Lena. Católico, dele publiquei um livro com sua visão de Jesus Cristo. Foi vice-governador e aos 94 anos falava de tudo como uma adolescente: “Vou votar nessa bosta do Meireles, mas porque ele é goiano. Depois é que vai valer e vou dar chicotada com Bolsonaro“, brincava.
Ele não votará no Bolsonaro. Ursulino, como meu amigo, meu confidente, esperou que eu lançasse meu livro na noite dessa sexta-feira, 19 de outubro de 2018, para não me atrapalhar. Como me disse seu filho Paulo, deveria ter ido ontem, mas me esperou acabar de lançar o livro e se foi agora há pouco.
Há um mês ele me chamou em seu apartamento no Setor Oeste. Tinha finalmente colocado um ponto final em suas memórias, que eu insistia para que publicasse até ele me chamar de chato. Ficava me enrolando. Ria quando eu cobrava o livro.
Naquele dia em seu apartamento disse que estava deprimido, que sabia quando ia morrer, que o momento se avizinhava. Falei para ele parar de bobagem, nunca o havia visto daquele jeito. Tanto repeti que ele, para se ver livre de mim e com um olhar triste — que nunca foi o seu — pediu que eu não me importasse, que aquilo era coisa de velho. Queria, mais uma vez, se ver livre de mim.
Quando seu filho Paulo me ligou ontem chorando, pediu para que eu publicasse o último livro de seu pai. Como se isso fosse necessário. O que Paulo não sabia era que naquela última conversa o Ursulino me disse tudo: como queria a capa, a contracapa, o papel do livro: “Vai ser meu último livro, capriche”. Queria que eu publicasse a foto de uma árvore velha, encarquilhada, que ficava em sua fazenda. “Ela é como eu”. Eu ria: “larga de ser besta”.
Estou morrendo de saudades do Ursulino. Uma saudade de filho, uma saudade desgraçada. Um misto de agradecido por ter tido a honra de conviver e trabalharmos juntos. Uma raiva porque nunca mais vamos beber uísque e porque eu queria ter nascido uns 50 anos antes para ter aproveitado mais do meu amigo, meu confidente.

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta, autor de “O rio incontornável” (poemas, Editora Mondrongo, Itabuna-BA, 2017).

[i] LEÃO, Ursulino. “Confiteor”. Goiânia, Contato Comunicação, 2018. 244 p. Prefácio de Ângela Jugmann. Autobiografia.

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