Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

A água clara dos princípios

Quando tudo parece desabar, é bom retomar os princípios. “Não procurar o melhor em abstrato, teoricamente e no papel, mas o que é relativamente possível e atualmente aplicável.” Isso é razoável e possível – mantém as coisas no seu devido lugar, como devem ser

João Torres e Bruno Garschagen nos deixam ver o novo no presente

Um livro, um presente, um futuro para o Conservadorismo. Editora Arcadia, Org. prof. Daniel Fernandes, 2016.

Eu me questiono por tudo que vivo e com o que convivo – isso já tem seis décadas.

É verdadeiramente trabalhoso, porque quem o faz, sofre. Eu sofro. Discuti com amigos, mas não ultrapassei o limite da declaração de um conservador.  A frase do Visconde de Uruguai que João Camilo utilizou como epígrafe de um de seus livros e o Sr. Bruno Garschagen retomou no prefácio de um livro sobre Conservadorismo, esta sim me parece apropriada para esta confissão a meus seis leitores.

Confesso a você, leitor, que pequei, como a maioria de nós pecamos nesses dias que antecederam e sucedem às Eleições 2018 para Presidente do Brasil (e cargos legislativos).

Fizemos todos um caminho meio sem-volta nas opiniões.

Preferimos transgredir na questão da sabedoria – ter confiança sobre algumas questões e opinar sobre o máximo delas – eis a fórmula candidata ao suicídio das amizades.

O suicídio de amizades é a prática mais comum em nossos dias.

Talvez isso já tenha ocorrido na história da Nação, mas como não sou historiador, tampouco estou interessado em escrutinar, penso que o correto e o aconselhável seja que todos retomemos o conselho do Visconde de Uruguai:

“Não procurar o melhor em abstrato, teoricamente e no papel, mas o que é relativamente possível e atualmente aplicável. Remover os inconvenientes que é possível arredar, resignar-se aos inevitáveis, ou procurar atenuá-los, e esperar do tempo, do desenvolvimento do espírito público, e do senso prático da população aquele maior grau de melhoramento que podem atingir as sociedades humanas.”

Eis uma coisa sensata e aplicável à nação brasileira neste novembro de 2018. Ao “sabor dos tempos e das contingências e das ideologias da moda” – não podemos ceder. O conservador há de permanecer firme mantendo a prudência aristotélica, a ética da virtude, que se impõe para organizar as dimensões da existência – como afirma Garschagen.

Os males com os quais convivemos exigem para serem banidos (e banidos é um verbete forte, talvez evitados seja mais desejado) que a sociedade se dê conta de que a solução de que estes males são da natureza humana e que não nenhum “futuro radiante” – sem males – a não ser no Paraíso prometido pelo Cristo.

Pois bem, à parte isso, continuo lendo e escrevendo sobre o que importa. A política é apenas uma pequena faceta da vida. A cultura, a literatura aí incluída, é mais. O equilíbrio entre as questões todas que não são postas é preciso ser mantido a todo custo. Manter o equilíbrio contra os excessos em todos os campos eis a tarefa do conservador. A religião, a verdade, a autoridade, o dever, a justiça, a virtude, a liberdade – todos esses temas estão sujeitos a um ponto de desequilíbrio pelas interpretações ideológicas.

É nosso dever, assevera Garschagen, repetindo uma célebre metáfora náutica do Marquês de Halifax para quem “o conservador é uma espécie de trimmer, aquele que é o responsável por manter o equilíbrio da embarcação”.

Tenhamos por verdadeiro que “não será possível construir por qualquer meio, e sobretudo pela política, uma sociedade perfeita”, conforme ao ensinamento de Oakeshott, na transcrição de Garschagen.

Assim, vamos aos fatos.

A população, a despeito de miríades de barreiras, mostrou nas urnas que quer construir no Brasil uma nova perspectiva política – com as suas limitações e suas barreiras. Deixemo-lo que o façam. Vamos permitir que um novo governo se estabeleça.

Mantenhamos intacta a política do ceticismo quanto a “governos” em geral, mas, no particular vamos dar ao novo governo o “benefício da dúvida” –; afinal, não o sabemos culpado de nada – a não ser de ter vencido os poderosos de plantão.

Alguém me indaga: “mas o Sr. não sabe o que é democracia, até hoje?” – referindo-se, naturalmente à minha condição de “idoso”. Eu não o respondi em mídias sociais ou respondi com meu silêncio. É direito dele imaginar que não o sei. Que não fui um garoto durante o governo militar, um jovem que serviu à Polícia Federal do meu país, nos anos 80 do século passado, que militou pela esquerda no renascimento da democracia no Brasil; e que teve na vida prática a certeza absoluta dos erros deste encaminhamento do/ao partido hegemônico.

Como católico e conservador digo a você, leitor, que quiser conviver com isso, eis-me aqui, expondo meus pensamentos em relação à Literatura – que é minha paixão e meu compromisso desde a mais tenra idade.

A política partidária e o dia-a-dia do governo só me interessam na medida em que uma justiça social seja uma meta e que o reino de Deus seja postergado para quando não estivermos aqui…

Qualquer coisa diferente disso e da doutrina social da Igreja – não manipulada pelas correntes de “libertação” na teologia –, não me convencem, nem me motivam.

Então, fica assentado que é direito de um cronista se expressar com monarquista, conservador, católico e libertário – embora seja isso o que mais o afasta do grande público sedento do sangue de opiniões divergentes.

O perdão, a tolerância, a paciência, a sabedoria e o respeito à fragilidade humana parecem-me virtudes adequadas ao que defendo – na lição inolvidável do professor Olavo de Carvalho. Tudo o que se fizer de negação a isso não sou eu, embora, caros amigos, possamos ter sido isso ou parte disso ao longo da jornada. Retomemos o foco.

Vamos ao futuro, com um verso de Robert Frost, poeta americano que nos ensina em poema singelo, que é preciso limpar a fonte de nosso país, nossa fazenda, nosso berço (“O pasto”). A tradução é deste cronista:

O Pasto (The Pasture)
****Robert Frost.
Vou lá fora limpar a nascente do pasto
Só paro quando rastelar todas as folhas
(E esperar pra ver a água clara – é isto!):
Não devo demorar tanto. Vem também.

Vou lá fora amarrar o novilho ao lado
Da mãe, onde ele de pé – tão miúdo
A mãe o lambe com a língua: ele treme
Não devo demorar tanto. Vem também.

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor de “O Rio Incontornável” (poemas, Ed. Mondrongo, Itabuna-BA, 2017).

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