O poeta que cantou o desmoronamento da União Soviética

Astier Basílio

No dia 8 de setembro, foi aniversário de nascimento do poeta e geólogo Boris Rýji. Se vivo estivesse, completaria 52 anos. Suicidou-se em 2001, aos 26 anos.

Boris Rýji foi a voz que melhor cantou o sentimento de perda pelo desmoronamento da União Soviética.

Em sua homenagem, publico três traduções de poemas de sua autoria, que eu revisei.

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Boris Rýji: uma voz importante da poética russa | Foto: Reprodução

1

Ganhará um europeizado toque

como um transasiático poete,

Não esqueço a fabulosa Sverdlovsk¹

O pátio escolar de Vtorchermet².

Mas onde duro e frio eu for cair

na fogosa Paris, na Londres úmida

Aconselho meu mísero pó ir

Para Sverdlovsk, numa cova funda.

Não é que a beleza fique escassa

nem se rebusque como a arte posa,

é porque lá estão todos meus parças

os seus perfis no mármore, nas rosas.

Na neve azul do vitríolo estão jogados

os com nota vermelhas, é quem toca

com cobre em tartarugas, qual soldados:

quem primeiro caiu na Perestroika.

Que Vtorchermet ronque a chaminé.

Que a Plastpolímer³ dê um assobio largo.

Alguém, não sei quem era, uma mulher

Abre um álbum e vai fumar com garbo.

E abrirá um álbum azul: a salvo,

brilha futuro em nossa face inquieta,

é onde estamos vivos, no azul do álbum,

a escória local: bandidos e poetas.

[1998]

¹ Nome da cidade de Ekaterimburgo no período soviético.

² Bairro proletário onde o poeta viveu e, após a queda a URSS, região com alto índice de criminalidade.

³ Fábrica localizada próxima ao bairro de Vtorchermet. Entrou em falência em 2021. 

2

Às noites por lá, Iessiênin se lia,

dominó na mesa, um Porto se bebia.

Um policial que todos  conhece

Retirando o quepe, sentou-se de lado

E por não ser um verme bebeu um bocado.

O ano é oitenta. URSS.

Um jardim pequeno, perto um frigorífico,

não há por que lembrar, mas lembrando eu fico.

Daqui a um mês escola, que os ventos uivem,

que me sopre o ar.  É noite. É verão.

“Compre um sorveti para você”. Na mão

está a moeda e em meu olhar a nuvem. 

“Obrigadu”. E sai, pra trás não olhei.

Dezessete anos passaram, e eu voltei —

Nem luz e nem ar. Mas o que me consola

é o que o jardim ficou.  Cadê todo mundo

agora? Com o frigorífico ao fundo

ajusto o casaco, levantando a gola.

Ano de oitenta, cheguei à conclusão

Vocês viveram bem, teve palavrão,

Iessiênin e vinho eram um desassombro.

Quem morre vira sombra, que de lá me acene,

mas na minha alma ainda vivem Iessiênin,

URSS, dominó e escombros.

[1997]

3

Toma aqui, cigana, um dobrão e adivinha,

desembucha, vou morrer de quê.

E a cigana é o seguinte os da tua linha

neste mundo não podem viver.

Mulher, filho… estranha será a ti, esta dupla,

O amigo se vira inimigo

Que está te matando, jovem? Esta culpa.

Mas tal culpa carregue consigo

Pelo quê a culpa? Estou vivo, eles não.

E sorri sustentando o olhar.

Na feira soa o tema de um proibidão

E o céu começa a se clarear.

[2001]