3 poemas de Boris Rýji traduzidos do russo por Astier Basílio
26 setembro 2026 às 21h00

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O poeta que cantou o desmoronamento da União Soviética
Astier Basílio
No dia 8 de setembro, foi aniversário de nascimento do poeta e geólogo Boris Rýji. Se vivo estivesse, completaria 52 anos. Suicidou-se em 2001, aos 26 anos.
Boris Rýji foi a voz que melhor cantou o sentimento de perda pelo desmoronamento da União Soviética.
Em sua homenagem, publico três traduções de poemas de sua autoria, que eu revisei.

1
Ganhará um europeizado toque
como um transasiático poete,
Não esqueço a fabulosa Sverdlovsk¹
O pátio escolar de Vtorchermet².
Mas onde duro e frio eu for cair
na fogosa Paris, na Londres úmida
Aconselho meu mísero pó ir
Para Sverdlovsk, numa cova funda.
Não é que a beleza fique escassa
nem se rebusque como a arte posa,
é porque lá estão todos meus parças
os seus perfis no mármore, nas rosas.
Na neve azul do vitríolo estão jogados
os com nota vermelhas, é quem toca
com cobre em tartarugas, qual soldados:
quem primeiro caiu na Perestroika.
Que Vtorchermet ronque a chaminé.
Que a Plastpolímer³ dê um assobio largo.
Alguém, não sei quem era, uma mulher
Abre um álbum e vai fumar com garbo.
E abrirá um álbum azul: a salvo,
brilha futuro em nossa face inquieta,
é onde estamos vivos, no azul do álbum,
a escória local: bandidos e poetas.
[1998]
¹ Nome da cidade de Ekaterimburgo no período soviético.
² Bairro proletário onde o poeta viveu e, após a queda a URSS, região com alto índice de criminalidade.
³ Fábrica localizada próxima ao bairro de Vtorchermet. Entrou em falência em 2021.
2
Às noites por lá, Iessiênin se lia,
dominó na mesa, um Porto se bebia.
Um policial que todos conhece
Retirando o quepe, sentou-se de lado
E por não ser um verme bebeu um bocado.
O ano é oitenta. URSS.
Um jardim pequeno, perto um frigorífico,
não há por que lembrar, mas lembrando eu fico.
Daqui a um mês escola, que os ventos uivem,
que me sopre o ar. É noite. É verão.
“Compre um sorveti para você”. Na mão
está a moeda e em meu olhar a nuvem.
“Obrigadu”. E sai, pra trás não olhei.
Dezessete anos passaram, e eu voltei —
Nem luz e nem ar. Mas o que me consola
é o que o jardim ficou. Cadê todo mundo
agora? Com o frigorífico ao fundo
ajusto o casaco, levantando a gola.
Ano de oitenta, cheguei à conclusão
Vocês viveram bem, teve palavrão,
Iessiênin e vinho eram um desassombro.
Quem morre vira sombra, que de lá me acene,
mas na minha alma ainda vivem Iessiênin,
URSS, dominó e escombros.
[1997]
3
Toma aqui, cigana, um dobrão e adivinha,
desembucha, vou morrer de quê.
E a cigana é o seguinte os da tua linha
neste mundo não podem viver.
Mulher, filho… estranha será a ti, esta dupla,
O amigo se vira inimigo
Que está te matando, jovem? Esta culpa.
Mas tal culpa carregue consigo
Pelo quê a culpa? Estou vivo, eles não.
E sorri sustentando o olhar.
Na feira soa o tema de um proibidão
E o céu começa a se clarear.
[2001]


