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Começou nesta sexta-feira (18), no museu Fotografiska, em Xangai, na China, uma grande exposição em homenagem ao fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. A mostra póstuma reúne mais de cem imagens do artista, morto em maio deste ano, em Paris, e percorre cinco décadas de trabalho fotográfico. A retrospectiva reúne a maior parte dos trabalhos de Sebastião, com exceção da série “Amazônia”, de 2021.
A exposição conta com curadoria do francês Jean-Luc Monterosso e Lélia Wanick Salgado, parceira de vida e de trabalho do fotógrafo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Lélia explicou a estrutura da mostra: “Eu preferi montar essa retrospectiva com uma cronologia inversa, partindo das imagens mais recentes para as mais antigas”. Segundo ela, essa escolha ajuda o visitante a compreender como a linguagem visual de Salgado foi se transformando ao longo das décadas.
Estão presentes séries emblemáticas como Trabalhadores, Outras Américas, Êxodos, Gênesis e Perfume de sonho. Em todas, o uso rigoroso do preto e branco, os contrastes marcantes, a iluminação dramática e a composição meticulosa revelam uma linguagem própria. Ainda assim, é possível notar mudanças sutis ao longo do tempo, como a ampliação de temas, territórios e abordagens.










A dança em Xangai como símbolo de transformação
Um dos destaques da exposição é a fotografia que Salgado produziu em Xangai, em 1998. Na imagem, um grupo de mulheres dança no calçadão do Bund, área histórica da cidade, às margens do rio Huangpu. Ao fundo, o distrito de Pudong — então em expansão — aparece como símbolo do novo milênio que se aproximava. O contraste entre passado e futuro, tradição e modernidade, é capturado com a precisão que caracteriza a obra de Salgado.
Portanto, a escolha de Xangai como cidade anfitriã da mostra póstuma carrega múltiplos sentidos. Além de ser um dos maiores centros culturais da Ásia, a cidade foi também tema do olhar do fotógrafo brasileiro. A imagem captada ali ressurge agora, vinte e seis anos depois, como elo entre sua memória e o presente.
Salgado e o desafio de humanizar o sofrimento
Sebastião Salgado nasceu em Aimorés, Minas Gerais, em 1944. Formado em economia, trocou a carreira acadêmica pela fotografia no fim da década de 1970.
Depois, tornou-se um dos principais nomes do fotojornalismo e da fotografia documental no mundo. Trabalhou para agências internacionais como Sygma, Gamma e Magnum, antes de fundar, com Lélia, a agência Amazonas Images.
Em 2019, recebeu o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães, um dos mais importantes da Europa. Seu trabalho combinava técnica apurada, empatia com os retratados e um forte senso de denúncia social.

Exposição deve percorrer outros países
A exposição no Fotografiska é, portanto, um tributo à força poética e política de seu olhar. Para Monterosso, o museu chinês se torna o ponto de partida para um circuito internacional de homenagens. “Já estamos em conversas para levar essa exposição a outros países”, disse ele à Folha de S.Paulo.
Salgado deixa um legado incontornável. Suas imagens, ao mesmo tempo rigorosas e sensíveis, contam a história de milhões de pessoas forçadas a migrar, trabalhar em condições extremas ou resistir à destruição ambiental. Mais do que testemunhas de seu tempo, suas fotografias desafiam o público a refletir sobre as injustiças que atravessam continentes.
Nas paisagens inóspitas, nas feições cansadas, nos gestos de afeto ou de resistência, há sempre uma centelha de humanidade, há beleza. Essa é talvez a maior lição de Sebastião Salgado. A mostra em Xangai, ao reunir momentos diversos de sua trajetória, reforça essa dimensão universal e, ao mesmo tempo, profundamente brasileira de sua arte.
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