O Serviço Federal de Inteligência da Suíça anunciou que vai permitir o acesso a arquivos até então lacrados sobre Josef Mengele, o médico nazista conhecido como o “Anjo da Morte de Auschwitz”.

A decisão ocorre após anos de pedidos feitos por historiadores interessados em esclarecer possíveis conexões do criminoso de guerra com o território suíço antes e após sua fuga para a América do Sul. A informação foi primeiramente divulgada pela emissora BBC News.

Mengele fugiu da Alemanha no pós-guerra e chegou à América do Sul em 1949, utilizando documentos falsos. Em Auschwitz, ele ficou conhecido por comandar experimentos humanos brutais, especialmente contra gêmeos, crianças e prisioneiros considerados “geneticamente interessantes” pelo regime nazista. Também participou do processo de seleção de vítimas enviadas às câmaras de gás no campo de extermínio.

Por décadas, pesquisadores tentaram acessar documentos suíços relacionados ao nazista, mas os pedidos foram negados sob justificativas de segurança nacional e proteção de familiares. Os arquivos estavam previstos para permanecer lacrados até 2071.

Josef Mengele (centro), nazista que fugiu para a América do Sul em 1949 | Foto: Museu Memorial do Holocausto dos EUA

Uma das suspeitas investigadas envolve documentos de viagem obtidos por nazistas junto à Cruz Vermelha para escapar da Europa. Esses papéis eram emitidos a pessoas apátridas ou deslocadas pela guerra. No caso de Mengele, documentos falsos teriam sido expedidos no consulado suíço em Gênova, na Itália, facilitando sua fuga para a América do Sul. Anos depois, a própria Cruz Vermelha pediu desculpas pelo uso indevido desses mecanismos por criminosos nazistas.

Outra linha de investigação mira uma viagem feita por Mengele aos Alpes suíços em 1956, quando ele teria visitado a região acompanhado do filho, Rolf Mengele. Relatos oficiais tratam essa como sua última passagem conhecida pela Europa. No entanto, historiadores investigam se ele retornou ao continente de forma clandestina.

A historiadora Regula Bochsler encontrou indícios de que Mengele poderia ter ido à Suíça em 1961 usando identidade falsa. Um relatório da inteligência austríaca alertava autoridades suíças sobre essa possibilidade. Outros documentos apontam que a esposa de Mengele teria alugado um apartamento em Zurique, próximo ao aeroporto internacional, apesar de a família ter recursos para morar em uma região mais sofisticada.

Arquivos da polícia de Zurique mostram que o imóvel chegou a ser monitorado. Agentes registraram a mulher de Mengele dirigindo um Volkswagen acompanhada por um homem não identificado. A dúvida que permanece é se esse homem seria o próprio criminoso nazista.

O acesso aos documentos foi solicitado novamente em 2025 pelo historiador Gérard Wettstein, que chegou a contestar judicialmente a negativa do governo suíço. Após a pressão, o Serviço Federal de Inteligência mudou de posição e informou que o solicitante terá acesso ao arquivo, embora ainda sob “condições e requisitos” a serem definidos.

Historiadores, no entanto, divergem sobre o que os documentos podem revelar. Para alguns, é possível que os arquivos não tragam provas definitivas sobre a presença de Mengele na Suíça, mas contenham referências a serviços de inteligência estrangeiros, como o Mossad, que atuava na perseguição a criminosos nazistas fugitivos no fim da década de 1950 e início dos anos 1960.

O sigilo prolongado também reacendeu críticas sobre a relação da Suíça com sua própria história durante e após a Segunda Guerra Mundial. Especialistas afirmam que a manutenção dos arquivos fechados por tanto tempo alimentou teorias de conspiração e impediu uma análise histórica mais transparente.

Mengele nunca foi preso nem julgado por seus crimes. Ele viveu por décadas na América do Sul e morreu afogado no Brasil, em 1979, no litoral de São Paulo, onde foi enterrado sob nome falso. Seu corpo foi exumado em 1985, e exames de DNA confirmaram sua identidade em 1992.

A abertura dos arquivos suíços pode não encerrar todas as dúvidas sobre sua trajetória, mas deve lançar nova luz sobre uma das fugas nazistas mais investigadas do pós-guerra. Ainda não há data definida para a divulgação integral do material.

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