Olhar para o céu, passar horas admirando sua beleza e tentar decifrar os mistérios escondidos no universo sempre foi o refúgio da curitibana Norma Reis. O que começou com visitas frequentes à biblioteca pública durante a infância transformou-se em uma trajetória extraordinária que a levou até a agência espacial mais famosa do mundo: a NASA. Mas, entre o sonho de explorar o cosmos e a realidade, Norma precisou enfrentar um dos momentos mais delicados de sua vida, que interrompeu temporariamente sua trajetória na pesquisa espacial. Em 2013, quando a carreira parecia decolar, ela recebeu o diagnóstico de esquizofrenia.

Hoje, a pesquisadora compartilha uma história que vai muito além dos dados científicos. É um testemunho de resiliência, do apoio da família e da importância do tratamento médico, aliados à fé que, segundo ela, foi fundamental para enfrentar os desafios da doença. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Norma contou como enfrentou o diagnóstico, o processo de recuperação e o retorno às atividades na área espacial.

pesquisadora Norma Reis durante sua atuação na NASA | Foto: Arquivo pessoal/Eclipses in History

Como tudo começou

A paixão pela astronomia surgiu cedo. Aos 13 anos, incentivada pelos pais, Antonia Reis e Antonio Oliveira Reis, que a matricularam em um curso de inglês, Norma começou a enviar cartas para centros espaciais da NASA, nos Estados Unidos. Em resposta, recebia materiais informativos que passou a colecionar em armários.

Graduada em Pedagogia, com atuação voltada à educação especial, conquistou uma vaga de mestrado em Administração Espacial na International Space University (ISU), em Estrasburgo, na França. Foi durante o curso que, aos 28 anos, conquistou a oportunidade de estagiar por três meses na NASA em 2008.

Durante o estágio, desenvolveu uma pesquisa sobre a história dos eclipses. O trabalho incluiu visitas à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e entrevistas com cientistas da NASA especializados no fenômeno. A pesquisa resultou em um artigo publicado na internet, parte do qual hoje integra o projeto Eclipses History.

Após o estágio, retornou ao Brasil e, em 2013, e continuou atuando como servidora pública federal em Brasília. Naquele mesmo ano, recebeu o diagnóstico de esquizofrenia, justamente quando a carreira parecia seguir um caminho promissor.

À reportagem do Jornal Opção, Norma relatou que os primeiros sintomas foram delírios e alucinações. No início, ela não conseguia reconhecer que estava doente, pois acreditava que os episódios faziam parte da realidade. “Eu estava imersa nos meus delírios. O foco era um delírio religioso. Eu achava que estava condenada, que ia para o inferno. Eu acreditava piamente no delírio e achava que os médicos estavam errados”, relembra.

O momento mais crítico ocorreu em 2016, durante um surto psicótico severo. Ela arremessou objetos pela janela do apartamento onde morava e acabou sendo internada. Longe da família, seu pai, uma pessoa com deficiência visual, vivia em Curitiba, Norma enfrentou a solidão e também o ceticismo de pessoas que acreditavam que ela jamais conseguiria retomar a vida profissional.

Segundo ela, a recuperação começou com o ajuste do tratamento médico, incluindo acompanhamento psiquiátrico e uso adequado da medicação, o que permitiu controlar os sintomas da doença.

Hoje, aos 47 anos, Norma continua em tratamento. Ela faz acompanhamento com psiquiatra e psicólogo, frequenta um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e utiliza medicações para controlar a esquizofrenia, incluindo medicamentos orais e injetáveis. Entre 2019 e 2021, retornou a Curitiba para cuidar integralmente do pai, que estava acamado e recebia atendimento domiciliar (Home Care). A experiência, marcada pelo cuidado e pela despedida do pai, transformou profundamente sua forma de enxergar a vida.

Após a morte dele, a saudade tornou-se um incentivo para buscar novamente seu maior sonho: voltar a desenvolver pesquisas na área espacial.

Um novo capítulo na NASA

Durante esse período, Norma conta que encontrou na fé um importante apoio emocional. Católica praticante, afirma que manteve uma rotina intensa de orações enquanto buscava novas oportunidades profissionais.

Em setembro de 2023, cerca de dez anos após o diagnóstico, voltou à NASA como Pesquisadora Visitante. Para ela, esse “foi o maior milgre” de sua vida. Durante 18 dias, esteve no Goddard Space Flight Center para planejar uma nova etapa do projeto Eclipses History.

A visita foi dedicada ao planejamento do site EclipsesHistory.com e da série de podcasts sobre a história dos eclipses. As entrevistas previstas inicialmente precisaram ser adiadas por questões de saúde, mas foram realizadas posteriormente, já com Norma de volta ao Brasil.

O projeto reúne conteúdos históricos sobre eclipses e disponibiliza gratuitamente artigos, podcasts e um álbum digital com mais de 500 fotografias produzidas ao longo de sua trajetória como pesquisadora. “As duas maiores conquistas da minha vida foram cuidar do meu pai e voltar para a NASA após o diagnóstico de esquizofrenia”, afirma.

Para Norma, ciência e fé caminharam juntas durante sua trajetória. Enquanto o tratamento médico foi essencial para controlar a doença, ela acredita que a espiritualidade lhe deu forças para enfrentar os momentos mais difíceis. “Independentemente de qual seja a dificuldade que a pessoa esteja vivendo, invista tempo na oração. Com Deus todo milagre é possível”, conclui.

Atualmente, Norma realiza palestras gratuitas nas quais compartilha sua trajetória de superação e resiliência. Para contratar uma palestra ou conhecer mais sobre o projeto Eclipses History, o contato pode ser feito pelo e-mail institucional eclipseshistory@gmail.com.

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