O grito de gol com voz de mulher: considerações sobre Brasil x Costa Rica

Jogo sofrido até o fim nos mostra que, nesta Copa, as “zebras” podem aparecer. E se dentro de campo novas seleções podem fazer bonito, fora dele já tivemos time entrando para a história: a equipe da Fox Sports 2, com a primeira transmissão 100% feminina no torneio de futebol

Equipe feminina da Fox Sports 2: Vanessa Richie, Isabelly Morais e a goleira Bárbara (da esquerda para direita) | Foto: Divulgação

Marília Noleto

Que sufoco! Foi pra lá de dramático esse segundo jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia. Quem diria que uma Costa Rica quase iria pôr uma grande pedra no nosso caminho? Para nosso alívio, Philipe Coutinho, mais uma vez, foi fundamental e salvou a pátria. Sacudiu a rede aos 45 do segundo tempo e abriu a guarda do nosso adversário para que Neymar, finalmente, desencantasse e sacramentasse a primeira vitória brasileira no torneio.

Foram quase 100 minutos de puro sofrimento. Afinal, um tropeço agora poderia limar o Brasil precocemente. E o medo de que isso pudesse acontecer era grande. Não queríamos seguir o exemplo da nossa eterna rival, Argentina, que pode já ter carimbado o passaporte de volta para casa. Até mesmo a toda poderosa Alemanha fraquejou diante do México e a França começou tímida. Por outro lado, vemos seleções que, sem ter que carregar o peso da tradição nos ombros, entram livre e leves em campo para jogar de igual para igual e tentar fazer história. Foi o que fez a Islândia, a própria Costa Rica, a anfitriã Rússia e sensação do momento, a Bélgica.

Poderá ser esta a Copa das “zebras”? Credo em cruz, Deus me livre, isola! (risos) Mas deixemos as brincadeiras e o lado torcedor para lá e voltemos à análise. Se em campo pode ser que tenhamos novidades, com novas seleções fazendo bonito, fora dele já tivemos um time entrando para a história. Pela primeira vez na TV brasileira, uma equipe 100% feminina conduziu a transmissão de uma partida do Brasil em uma Copa do Mundo. A jovem narradora Isabelly Morais, de apenas 20 anos, entrou em campo ao lado da experiente jornalista esportiva Vanessa Richie e da goleira Bárbara, que tantas vezes defendeu a seleção feminina de futebol e que agora ‘ataca’ nos comentários.

E pensam que a responsabilidade assustou as meninas? Nada disto! O telespectador não vê nenhum sinal de nervosismo. Isabelly é agradável e objetiva, sem afetações. Demonstra domínio das informações e, com isto, conduz a narração sem sobressaltos. Não é fria, mas também não força a barra para criar emoção a qualquer custo, tal qual a “escola Galvão Bueno”. Vanessa e Bárbara mostraram entrosamento e não se atropelam. As meninas estavam seguras e não sentiram a necessidade de impressionar. Não é por serem mulheres que precisam provar que sabem de futebol, que são melhores que os colegas homens. Precisavam, como profissionais que são, apenas fazer um bom trabalho. Mas saíram melhor que a encomenda e a transmissão feminina foi um verdadeiro gol de placa da Fox Sports nesta competição.

Também somos parte disto
Que Isabelly, Vanessa e Bárbara são pioneiras, não se discute. Mas é preciso fazer justiça. Muitos podem não saber, mas Goiás também tem sua parcela de contribuição para que a presença feminina na crônica esportiva seja cada vez mais relevante na quantidade e na qualidade. Quando o mundo da bola ainda era essencialmente masculino, também tivemos nossas desbravadoras, como Graça Torres e Eni Aquino, as primeiras que se destacaram no jornalismo esportivo local.

Também devemos destacar o trabalho realizado pela Faculdade de Comunicação da UFG, a atual FIC (Facomb, à época), com a equipe do projeto Doutores da Bola, que conduzia a transmissão de partidas de futebol para a Rádio Universitária, da qual inclusive, esta que vos escreve fez parte, nos anos 2000 e bolinha. O convênio com a Prefeitura de Goiânia fazia com que este fosse, na época, o único projeto remunerado da faculdade, o que atraia bastante o interesse dos futuros focas, independente de sexo. Isso fez com que a equipe de jornalismo esportivo da Universitária refletisse bem o perfil da faculdade naquele tempo: a equipe era misturada, mas com ligeira preponderância das mulheres.

Eram transmissões de Campeonato Goiano, Brasileirão, amistosos, copa de bairro, terrão… E lá estávamos nós, no campo, nos bastidores, na arquibancada e até mesmo nos vestiários. Sim, o trabalho de reportagem era feito sem qualquer restrição. Também havia comentaristas, radioescutas, direção de jornada esportiva. A cada semana nos revezávamos nos postos. A presença das meninas era tão importante para a equipe que chegamos a realizar uma transmissão 100% feminina. O coordenador do projeto na época, o professor Nilton José dos Reis Rocha, ou “Niltim”, chegou a sugerir a inscrição da iniciativa em um congresso de Comunicação, mas não me lembro se isso chegou a ser feito.

A nossa presença não passava despercebida. Causávamos enorme curiosidade, especialmente entre os jornalistas que vinham de fora do Estado. Éramos vistas com as mais diversas reações: espanto, admiração e, claro, uma enorme desconfiança. Piadinhas eram constantes, especialmente vindas dos torcedores, e o assédio, infelizmente, era comum.

Mas o importante é que o Doutores da Bola certamente deixou um legado importantíssimo ao abrir espaço para a presença feminina. Acredito bastante que o pioneirismo das meninas do Fox Sports está, numa certa medida, ligado a esta inciativa, que chegou aos olhos e ouvidos de muitas outras equipes pelo País, e elas seguiram nosso exemplo. No nosso quintal, a importância do projeto foi ainda maior. Não irei citar nomes para não cometer injustiças, mas o Doutores da Bola foi uma excelente escola para a formação de muitos dos profissionais do Jornalismo em Goiânia. Algumas e alguns seguiram na área. Outros foram para outros caminhos, seguindo as oportunidades profissionais que foram surgindo.

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