Antônio Caiado*

A estratégia de assassinatos direcionados, também conhecida como “targeted killings”, adotada por Israel, é uma prática controversa que tem sido empregada como parte de sua abordagem no conflito com grupos militantes, como o Hamas. Essa estratégia envolve a eliminação seletiva de líderes ou membros-chave de organizações consideradas ameaças à segurança de Israel.

Um exemplo notável dessa estratégia ocorreu no caso de Saleh Arouri, que recentemente foi alvo de um ataque em Beirute que tinha todas as características de uma operação israelense, embora Israel não tenha reivindicado a responsabilidade pelo ataque. Essa abordagem visa incapacitar lideranças-chave do Hamas, responsáveis por planejar e executar ataques contra Israel, e desestabilizar as estruturas de comando da organização.

Historicamente, Israel utilizou essa tática em diversos momentos, visando líderes e membros de grupos militantes palestinos. No entanto, a eficácia desses assassinatos direcionados é frequentemente debatida. Embora possam proporcionar uma vantagem temporária ao eliminar líderes experientes, a história demonstrou que novos líderes frequentemente emergem para substituí-los.

Um exemplo desse fenômeno ocorreu após o assassinato de líderes do Hamas no passado. Hassan Nasrallah, o atual líder do Hezbollah, assumiu o poder após o assassinato de seu predecessor em 1992, demonstrando a capacidade de grupos militantes de se adaptar a essas perdas.

A eficácia das operações de assassinato direcionado também depende da estrutura da organização-alvo. Organizações centralizadas, onde a morte de um líder central pode ter um impacto significativo, podem ser mais afetadas por essas operações. No entanto, grupos como o Hamas são descentralizados, com líderes influentes em várias regiões, tornando a substituição de líderes menos crítica para sua sobrevivência. Em outras palavras, sua eficácia a longo prazo é incerta e os resultados, muitas vezes, levam a uma continuação do ciclo de violência na região. Contudo, tendo em vista que Saleh Arouri era um articulador e intermediador entre os diversos grupos da resistência islâmica contra o estado israelense, podemos considerar que pelo menos no seu caso específico, esse assassinato direcionado traga resultados duradouros.

Neste sentido, a morte de Saleh Arouri irá gerar implicações imediatas e significativas nas dinâmicas regionais e nas respostas de grupos militantes e estados vizinhos, incluindo o próprio Hamas e o Hezbollah. Esses dois grupos reagiram rapidamente à morte de Arouri, atribuindo a responsabilidade do ataque a Israel e ameaçando possíveis represálias.

Essas organizações são conhecidas por suas capacidades militares e têm uma longa história de confronto com o Estado judeu. Portanto, a morte de um líder-chave como Arouri intensificou as tensões na região e pode desencadear um ciclo de violência contínuo.

A resposta do Hamas pode envolver o aumento da intensidade dos ataques contra Israel na Faixa de Gaza. Isso poderia incluir ataques com foguetes, ataques contra alvos israelenses e possivelmente ataques suicidas. O objetivo seria demonstrar sua determinação em retaliar contra Israel pela morte de um alto comandante.

O Hezbollah, por sua vez, é um grupo libanês apoiado pelo Irã e também considerado uma organização terrorista por Israel. A resposta do Hezbollah pode incluir ações diretas contra alvos israelenses, tanto na fronteira com o Líbano quanto em outros lugares. A cooperação entre o Hamas e o Hezbollah em ações conjuntas também é uma possibilidade, dada a relação de apoio entre esses grupos.

E se já não bastasse tudo isso, o Irã foi palco de dois atentados não-reivindicados que deixaram vários mortos e feridos. Ambas ocorreram próximas ao túmulo do falecido general iraniano Qassem Soleimani, que foi morto em 2020 no Iraque por um drone dos Estados Unidos.

Evidentemente, todos esses acontecimentos terão repercussões imediatas e potencialmente duradouras nas dinâmicas do conflito entre Israel, Hamas e outros grupos militantes. A resposta do Hamas, Hezbollah e do Irã são fatores críticos a serem observados à medida que a situação continua a se desenvolver.

Foto: Reprodução

A busca por uma solução pacífica para o conflito Israel-Hamas também envolve considerações cruciais sobre o papel dos Estados Unidos, especialmente à luz dos recentes posicionamentos do governo Biden em relação à guerra em Gaza. Apesar do firme apoio americano ao direito de defesa de Israel, as incursões em Gaza têm escalado o conflito de tal maneira que anos de tentativa de construção da paz e estabilidade na região podem ficar comprometidos por muito tempo.

Os Estados Unidos historicamente desempenharam um papel fundamental na política do Oriente Médio, atuando como mediadores e facilitadores de negociações de paz entre Israel e os palestinos. Sob a administração do presidente Joe Biden, houve um claro compromisso em retomar o envolvimento ativo na região para buscar uma solução sustentável para o conflito.

Durante o conflito em Gaza em 2021, a administração Biden expressou seu apoio a um cessar-fogo imediato e trabalhou nos bastidores para garantir que as partes envolvidas concordassem com a trégua. Esse esforço diplomático resultou em um cessar-fogo, demonstrando a influência dos Estados Unidos na região.

Além disso, o governo Biden expressou um compromisso renovado com uma solução de dois estados, em que Israel e um futuro Estado Palestino coexistiriam lado a lado em paz e segurança. Essa posição é vista como um passo significativo em direção à resolução do conflito de longa data.

Os Estados Unidos também fornecem assistência humanitária substancial aos palestinos afetados pelo conflito, apoiando esforços de reconstrução e alívio do sofrimento da população local.

Antônio Caiado | Foto: Acervo Pessoal

Portanto, os americanos podem desempenhar um papel crucial na busca por uma resolução pacífica do conflito Israel-Hamas, exercendo sua influência diplomática, promovendo o diálogo entre as partes e apoiando medidas de assistência humanitária. O compromisso declarado do governo Biden com uma solução de dois estados sugere um enfoque renovado na busca pela paz no Oriente Médio.

*Antônio Caiado é brasileiro e atua nas forças armadas dos Estados Unidos desde 2009. Atualmente serve no 136º Maneuver Enhancement Brigade (MEB) senior advisor, analisando informações para proteger tropas americanas em solo estrangeiro.

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