A criação de uma plataforma digital que permita às comunidades quilombolas produzir e atualizar informações sobre seus próprios territórios é a proposta do Observatório Goiano das Comunidades Quilombolas, projeto desenvolvido em Goiás para aproximar a realidade dessas populações dos órgãos públicos e da sociedade. “O observatório é para ser uma ponte entre quem vive a realidade e quem precisa conhecê-la”, afirma Gleice Coutinho, idealizadora da iniciativa, quilombola Kalunga, residente de Tecnologia da Informação no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) e pesquisadora do Laboratório Interinstitucional de Inteligência Artificial (LI²A), da Escola Judicial do TJGO ao Jornal Opção. Goiás abriga o território quilombola Kalunga, considerado o maior do Brasil.

O projeto será lançado oficialmente em 6 de novembro, durante a 4ª edição da Sawaboana — Semana de Arte e Sabedoria Jurídica Negras do TJGO. A plataforma reunirá informações sobre as comunidades quilombolas goianas, com a proposta de ampliar a participação dos moradores na produção, validação e atualização dos dados. A ferramenta também deverá funcionar como um canal de acesso a informações sobre direitos, oportunidades, cultura e atividades econômicas desenvolvidas nesses territórios.

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Gleice Coutinho ao lado de Luan Vinícius e Vanessa Moreira, quilombolas kalungas | Foto: Airton Moura

A ideia surgiu da experiência pessoal de Gleice, que viveu os primeiros 20 anos de sua vida em comunidades Kalunga, localizadas na região de Cavalcante, no nordeste goiano. Segundo ela, os dados públicos disponíveis nem sempre retratam a realidade vivida pelos moradores. Ao trabalhar em um órgão público, a pesquisadora também identificou a dificuldade de reunir informações confiáveis sobre essas localidades.

“Existem dados públicos, mas esses dados não mostram a realidade. Só quem mora na comunidade sabe o que se passa dentro dela”, explica Gleice. Para a pesquisadora, outro problema é que os moradores nem sempre são consultados sobre as informações produzidas por pesquisadores e instituições externas. “Eles não têm autonomia nesses dados, não sabem o que estão publicando sobre aquela comunidade e, muitas vezes, nem são consultados”, afirma.

Comunidades poderão atualizar os próprios dados

Uma das principais características do observatório será a possibilidade de cada comunidade ter uma página individual, com informações sobre sua história, cultura, tradições, território e realidade local. Representantes autorizados poderão acessar a plataforma para inserir e atualizar os conteúdos, ampliando a participação dos quilombolas na construção do conhecimento sobre suas próprias comunidades.

A escolha desses representantes deverá ocorrer, inicialmente, por meio das associações quilombolas. Os presidentes das entidades poderão indicar pessoas para exercer a função, que receberão capacitação para utilizar a ferramenta. Também haverá uma opção para solicitar acesso diretamente pelo portal, nos casos em que a comunidade ainda não tenha um representante cadastrado. A equipe do projeto fará a validação das solicitações antes de liberar o acesso.

Segundo Gleice, o objetivo é que a plataforma não se limite a apresentar informações sobre as dificuldades enfrentadas pelas comunidades. A proposta também é valorizar a identidade, a memória e as experiências desses territórios. “A gente não quer mostrar só a parte das necessidades dos quilombos. Queremos mostrar também a história, a cultura e a tradição. O quilombo pode até passar necessidade, mas é um lugar que também tem muita alegria e companheirismo”, destaca.

Plataforma terá canal para demandas e políticas públicas

Além de reunir dados, o observatório contará com um espaço para o registro de demandas das comunidades. As solicitações poderão ser encaminhadas aos juízes vinculados ao grupo de trabalho do projeto, que poderão direcioná-las aos órgãos responsáveis e orientar os moradores sobre os procedimentos necessários. A iniciativa pretende contribuir para que questões relacionadas à infraestrutura, à regularização fundiária e à preservação cultural e ambiental tenham maior visibilidade.

A ferramenta também deverá disponibilizar relatórios sobre as ações realizadas pelo poder público nos territórios quilombolas. A proposta é permitir que os moradores acompanhem iniciativas, consultas e projetos desenvolvidos por instituições nessas localidades. “Uma das dificuldades que a comunidade tinha era não ter acesso ao que os órgãos estão fazendo dentro dela. No observatório, os órgãos poderão registrar o que estão realizando, e essas informações ficarão públicas”, explica Gleice.

Turismo e economia quilombola

Outro recurso previsto é um espaço para a divulgação de produtos, serviços e atividades turísticas. Artesãos, guias locais, pousadas e associações poderão apresentar seus trabalhos, facilitando o contato com visitantes interessados em conhecer as comunidades. No caso do território Kalunga, por exemplo, a ferramenta poderá reunir informações sobre guias e serviços relacionados às atrações turísticas da Chapada dos Veadeiros.

“Se alguém quiser conhecer a Cachoeira Santa Bárbara, que fica na comunidade de Engenho II, poderá procurar informações no portal sobre onde comprar o ingresso, encontrar um guia ou localizar uma pousada”, exemplifica a pesquisadora. A intenção é fazer com que os próprios moradores sejam responsáveis pela publicação desses dados, fortalecendo a divulgação dos serviços e as oportunidades de geração de renda.

O observatório também utilizará informações de bases públicas, como as do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Fundação Cultural Palmares, incluindo dados sobre a certificação das comunidades. De acordo com Gleice, a plataforma pretende ainda orientar os quilombos que não possuem certificação sobre os procedimentos necessários para obtê-la.

A idealizadora afirma que a proposta se diferencia de outras ferramentas existentes por combinar informações territoriais com a participação direta dos moradores na gestão dos dados. Segundo ela, embora existam plataformas que reúnam informações sobre comunidades quilombolas, o projeto goiano pretende oferecer páginas individuais, espaço para registros históricos e culturais e autonomia para os representantes atualizarem os conteúdos. A plataforma será aberta ao público no dia 6 de novembro, quando ocorrerá o lançamento oficial.

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