“É um reconhecimento da história e da ancestralidade”: Goiás passa de 2 para 13 escolas quilombolas
21 setembro 2026 às 17h49

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A educação escolar quilombola tem ampliado sua presença na rede pública de Goiás a partir do reconhecimento de unidades de ensino, da criação de novas extensões e da oferta de formação específica para professores. As medidas acompanham um movimento nacional de fortalecimento da modalidade, apontado pelo Diagnóstico Equidade 2026, do Ministério da Educação (MEC).
Na Região Centro-Oeste, o índice de institucionalização da educação escolar quilombola (EEQ) passou de 23 pontos, em 2024, para 28 pontos em 2026. O indicador considera a existência e a continuidade de políticas voltadas à modalidade nas redes de ensino.
O levantamento também aponta avanço no índice geral de institucionalização das políticas de equidade. Nas redes estaduais, a pontuação passou de 53 para 64 pontos. Entre as redes municipais, o crescimento foi de 33 para 38 pontos. Em Goiás, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc-GO) aponta como uma das principais mudanças dos últimos anos o reconhecimento administrativo das escolas localizadas em comunidades quilombolas.
Unidades passam a ter identidade quilombola
Ao Jornal Opção, Valeria Cavalcante, da Gerência de Educação do Campo e Quilombola da Seduc-GO, afirmou que a reorganização da rede permitiu que unidades que anteriormente funcionavam como extensões passassem a ser reconhecidas de acordo com as comunidades às quais pertencem.

O processo ganhou dimensão especialmente no território Kalunga. Antes da reorganização, diferentes unidades estavam vinculadas a uma mesma equipe gestora, apesar das grandes distâncias entre as comunidades. Com a mudança, a estrutura administrativa foi redistribuída e novas equipes gestoras passaram a acompanhar as unidades e extensões.
Atualmente, segundo a Seduc-GO, Goiás possui 13 unidades estaduais reconhecidas como quilombolas, sendo oito urbanas e cinco rurais. Essas unidades contam, ao todo, com 20 extensões. Entre as unidades rurais, 19 extensões estão localizadas em comunidades do território Kalunga.
A estrutura também foi ampliada neste ano com a criação de uma nova unidade quilombola, a Januário.
Outro avanço, segundo a equipe da Seduc-GO foi a ampliação do número de escolas formalmente reconhecidas como pertencentes à modalidade. Segundo Valeria, o Estado passou de duas unidades reconhecidas em um período anterior para 13 atualmente.
O reconhecimento também alterou a denominação administrativa das instituições. As unidades passaram a ser identificadas como colégios estaduais quilombolas, incorporando a modalidade ao próprio nome.
Para a representante da Seduc, a mudança ultrapassa uma questão burocrática e representa uma forma de reconhecer a identidade das comunidades. “Reconhecer a escola, na sua identidade, em seu nome, é passar por um processo de reconhecimento também dessa modalidade na perspectiva de educação escolar”, afirma.
A reorganização da rede também buscou considerar estruturas já existentes nas comunidades, como os conselhos escolares. A proposta, segundo a Seduc, é aproximar a gestão da realidade de cada território.
A secretaria também afirma ter ampliado a presença de suas equipes nas unidades, com visitas e ações presenciais. A intenção é fortalecer a relação entre a administração estadual, as escolas e as comunidades quilombolas.
Para Thayane Lima, técnica pedagógica da Seduc, a aproximação é acompanhada pela implementação das normas específicas da modalidade e pelas ações da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq).

A legislação estabelece que a educação escolar quilombola deve considerar as características culturais, históricas, territoriais e sociais de cada comunidade, além de garantir a participação comunitária.
Formação específica para professores
Outro eixo apontado como fundamental é a preparação dos profissionais que trabalham nas escolas quilombolas. A Seduc-GO mantém parcerias com instituições federais e com o MEC para ampliar as oportunidades de formação.
Uma das iniciativas citadas pelas representantes é o programa Escola da Terra, que oferece formação direcionada a profissionais da educação do campo e da educação escolar quilombola. A trajetória inclui cursos de aperfeiçoamento, especialização e, mais recentemente, oportunidades de mestrado.
Também são desenvolvidas ações de formação relacionadas à Pneerq, além de atividades promovidas diretamente pela Secretaria de Educação.
Entre as instituições envolvidas estão o Instituto Federal Goiano, a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade Federal de Catalão (UFCAT) e outras instituições federais parceiras.
Segundo a Seduc, atualmente há oferta de mestrado e especialização pela UFCAT, enquanto novos cursos voltados à atuação de professores da educação básica são estudados em parceria com o Instituto Federal Goiano.
A formação não se restringe aos professores. Anualmente, a secretaria também promove um seminário de equidade que reúne gestores, coordenadores e estudantes, além de atividades com materiais pedagógicos específicos.
Desafio é ampliar reconhecimento
Apesar dos avanços, a equipe da Seduc considera que ainda há espaço para ampliar a institucionalização da educação quilombola. Para Valeria Cavalcante, um dos próximos passos é levar o processo de reconhecimento também para as redes municipais. “Reconhecer as unidades estaduais foi um avanço enorme para o Estado. E eu penso que a gente precisa ampliar esse reconhecimento também para as unidades municipais”, afirma.
A avaliação acompanha o próprio princípio da educação escolar quilombola, que depende da articulação entre diferentes níveis de governo e da participação das comunidades.
O Diagnóstico Equidade 2026 mostra que a institucionalização da modalidade ainda apresenta diferenças entre as regiões brasileiras. O Centro-Oeste passou de 23 para 28 pontos entre 2024 e 2026. No mesmo período, o Nordeste avançou de 37 para 56; o Norte, de 47 para 63; o Sudeste, de 30 para 37; e o Sul, de 28 para 53.
O levantamento foi elaborado pelo MEC durante o segundo ano de acompanhamento da Pneerq. A edição de 2026 teve participação de 100% das redes estaduais e de 97% das redes municipais. Foram aplicadas 44 questões às secretarias de Educação, sendo 12 especificamente relacionadas à educação escolar quilombola.
Os indicadores consideraram aspectos como gestão, formação profissional, materiais didáticos, financiamento, avaliação e monitoramento. As pontuações variam de zero a 100.
Para a gerente, a continuidade desse processo depende de reconhecer não apenas as escolas, mas também a história e as particularidades dos territórios. “É um processo de reconhecimento da história, da ancestralidade, do território, da comunidade, do coletivo mesmo”, completou Valeria.
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