Durante décadas, o sorgo ocupou um papel secundário na agricultura brasileira. Nas propriedades rurais, era frequentemente lembrado quando o produtor perdia a janela ideal de plantio do milho, enfrentava previsões de estiagem ou simplesmente precisava reduzir os riscos da segunda safra. O grão carregava o estigma de cultura de substituição — uma espécie de “plano B” para tempos difíceis.

Essa lógica, porém, começa a ficar para trás. Nas principais regiões agrícolas de Goiás, maior produtor nacional da cultura, o sorgo passou a ocupar um espaço que poucos imaginavam há alguns anos. Em vez de entrar na lavoura apenas quando o milho deixava de ser viável, ele passou a ser escolhido por estratégia. O custo de produção mais baixo, a maior tolerância aos períodos de seca, o crescimento das usinas de etanol de cereais, a expansão dos confinamentos bovinos e a valorização do grão transformaram uma cultura historicamente marginal em um dos protagonistas da segunda safra.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Goiás caminha para colher cerca de 2,2 milhões de toneladas de sorgo na safra 2025/2026, em uma área de 631,1 mil hectares, crescimento de quase 60% na área plantada e de 40,3% na produção em relação ao ciclo anterior. O estado responde por 29,3% de todo o sorgo produzido no país e mantém a liderança nacional pelo oitavo ano consecutivo.

Mas limitar essa história aos recordes de produção seria ignorar a transformação que acontece dentro das fazendas. O que mudou, na verdade, foi a forma como o produtor passou a enxergar o sorgo.

Uma decisão que começa antes da colheita

Em Rio Verde e Montividiu, um dos principais polos agrícolas do país, o produtor Felipe Santiago Ribeiro explica que a escolha entre milho e sorgo começa muito antes da semeadura.

Ela depende da soja. Ou, mais precisamente, da data em que a soja será colhida. “Quando você vai plantar a soja, já sabe mais ou menos qual vai ser a data da colheita. Quando isso tende muito para o fim de fevereiro, eu acredito que o sorgo é uma boa cultura”, afirma.

A explicação parece simples, mas ajuda a compreender por que o sorgo ganhou espaço em Goiás. Na segunda safra, o tempo é determinante. Quanto mais tarde o produtor consegue plantar, maior o risco de enfrentar déficit hídrico durante o desenvolvimento da cultura. É justamente nesse cenário que o sorgo passa a apresentar vantagens.

“Quem tem janela boa para plantar milho, planta milho. Só que depois do dia 25 de fevereiro o pessoal procura outra cultura. Aí entram o sorgo e o girassol. O sorgo precisa de menos precipitação e oferece muito mais segurança”, resume Felipe.

A lógica não significa que o milho perdeu importância. Pelo contrário. Quando a janela é favorável, ele continua sendo a primeira escolha.

O sorgo cresce justamente porque oferece uma alternativa economicamente viável quando o risco climático aumenta.

O preconceito ficou no passado

Felipe lembra que, durante muitos anos, o sorgo carregou uma fama injusta. Segundo ele, era comum ouvir que a cultura “estragava a terra” ou apresentava baixo desempenho. Na prática, o problema era outro.

“Antigamente o pessoal plantava sorgo e esquecia da lavoura. Não fazia os tratos culturais necessários. Hoje a tecnificação mudou completamente isso”, afirma.

Além da evolução no manejo, outro fator mudou a percepção dos produtores: o custo. Enquanto a implantação do milho exige um investimento elevado logo no início da safra, o sorgo permite reduzir significativamente esse desembolso.

“Um saco de semente de milho para plantar um hectare custa hoje perto de R$ 1 mil. No sorgo, o gasto fica perto de R$ 300. O custo de produção é muito menor e o risco também”, compara.

Mesmo sendo comercializado tradicionalmente por um valor inferior ao milho, o produtor explica que a diferença diminuiu bastante. “Hoje o sorgo vale cerca de 70% ou 80% do milho, mas o custo de produção é muito mais baixo. No fim das contas, sobra mais segurança para o produtor.”

Na última safra em que cultivou o cereal, Felipe alcançou produtividade de aproximadamente 55 sacas por hectare, resultado que considera satisfatório para uma cultura implantada em condições climáticas menos favoráveis.

Segurança virou rentabilidade

Em Piracanjuba, o produtor Jucenio Faria acompanha a mesma transformação. Para ele, o maior avanço do sorgo não está apenas na rusticidade da planta. Está no mercado.

Segundo Jucenio, durante muito tempo o produtor tinha receio de investir porque não sabia se conseguiria comercializar a produção. Hoje o cenário mudou completamente.

“Com o aumento do esmagamento para produção de etanol, a gente passou a ter uma opção de mercado muito maior. Então o sorgo deixou de ser apenas uma cultura de segurança. Hoje ele também é uma fonte de retorno pelo investimento.”

É justamente essa frase que resume a nova realidade da cultura. “Hoje o sorgo para nós é uma opção não só de segurança, mas também de rentabilidade.”

Segundo ele, o milho continua oferecendo potencial produtivo superior. Mas isso não significa necessariamente maior lucro.

“O milho exige um investimento maior. O sorgo demanda menos investimento e entrega um resultado muito mais seguro. Talvez ele não alcance a mesma rentabilidade do milho em anos excelentes, mas é um lucro mais certo.”

Jucenio ressalta que a evolução genética também alterou completamente o potencial da cultura.

“Hoje vários híbridos de sorgo já atingem tetos produtivos muito altos. Dependendo da situação, o potencial pode até superar o do milho.”

Na avaliação do produtor, a decisão entre uma cultura e outra deixou de ser automática. Ela depende do mercado, da região, da janela de plantio e da estratégia adotada em cada propriedade.

O preço mudou a conta do produtor

A mesma percepção aparece em Catalão. Produtor de soja, milho, feijão, girassol e sorgo, Renato Ribeiro de Santos explica que a valorização do grão foi decisiva para ampliar sua atratividade.

“No passado, a diferença de preço para o milho chegava perto de 30%. Hoje, em alguns momentos, o preço da saca do sorgo e do milho é praticamente o mesmo.”

Segundo ele, essa aproximação alterou completamente o cálculo econômico feito pelo agricultor.

Além da maior resistência ao estresse hídrico, o sorgo passou a reunir duas características importantes para a segunda safra: menor custo de implantação e maior previsibilidade de retorno.

“É uma cultura muito rústica, tolera melhor a falta de água e hoje ainda tem um preço muito competitivo.” Renato costuma colher entre 80 e 120 sacas por hectare, dependendo das condições climáticas.

Produtor Renato Ribeiro de Santos | Foto: Divulgação

Para anos influenciados pelo El Niño, ele acredita que o sorgo ganha ainda mais importância.

“Quando vem um El Niño mais severo, ele favorece ainda mais o plantio do sorgo porque é uma cultura muito mais resistente ao estresse hídrico do que o milho.”

Essa percepção aparece de forma recorrente entre praticamente todos os produtores entrevistados. O sorgo continua sendo uma cultura complementar ao milho. Mas deixou de ocupar um papel secundário dentro da fazenda. Hoje, ele faz parte da estratégia econômica do produtor.

Os relatos dos produtores mostram como o sorgo passou a ocupar espaço dentro das propriedades rurais. Mas a transformação observada nas fazendas goianas não aconteceu por acaso. Ela é resultado da combinação entre avanços tecnológicos, mudanças climáticas, expansão da agroindústria e um mercado que passou a enxergar o cereal de forma diferente.

Para Lucas Almeida, engenheiro agrônomo e gerente de Expansão e Novos Negócios da Agro Ávila, o crescimento da cultura em Goiás não pode ser explicado apenas pela maior resistência à seca.

Lucas Almeida, Engenheiro Agrônomo e Gerente de Expansão e Novos Negócios da Agro Ávila | Foto: Divulgação

Na avaliação dele, o sorgo amadureceu. “O sorgo já não é uma subcultura. Muito pelo contrário. Hoje ele é uma cultura tão importante quanto outras dentro do sistema de produção.”

Apaixonado pelo cereal, como ele próprio faz questão de dizer durante a entrevista, Lucas explica que a escolha pelo sorgo envolve três fatores principais: localização da propriedade, economia e demanda da cadeia pecuária.

A Agro Ávila, onde atua, está instalada em Jandaia, região com menor altitude e menor índice pluviométrico do que municípios como Rio Verde.

“O milho demanda muito mais água do que o sorgo. Como estamos em uma região que chove menos, o sorgo se encaixa melhor na nossa realidade.”

Além da questão climática, existe um aspecto financeiro. “O sorgo exige menos investimento do produtor. Você imobiliza menos dinheiro para implantar a lavoura e ainda trabalha com uma cultura mais tolerante ao déficit hídrico.”

No caso específico da Agro Ávila, há ainda uma terceira vantagem. O grão abastece diretamente o confinamento da empresa.

“Do ponto de vista zootécnico, ele atende muito bem às necessidades nutricionais dos animais. Para nós, ele faz sentido agronômico, econômico e também dentro da pecuária.”

A tecnologia mudou completamente a cultura

Durante muitos anos, plantar sorgo significava investir pouco e esperar a colheita. Hoje essa lógica ficou para trás.

Lucas afirma que a evolução genética elevou o nível de exigência da cultura. “Antigamente o produtor plantava sorgo e ia para a praia. Hoje isso não existe mais. É uma cultura que exige atenção, manejo e tecnologia, exatamente como acontece com o milho ou a soja.”

Segundo ele, os novos híbridos apresentam produtividade muito superior à observada há poucos anos. Além disso, passaram a incorporar tecnologias que permitem consorciar o sorgo com capins, utilizar herbicidas específicos e até criar um sistema de produção com três safras na mesma área.

Na Agro Ávila, por exemplo, o sorgo é cultivado em consórcio com capim.

Depois da colheita dos grãos, a área recebe animais em pastejo antes da implantação da soja. “Eu colho o sorgo, sobra a palhada, coloco o gado em uma terceira safra e ainda preparo o solo para o plantio direto da soja. É um sistema praticamente fechado.”

Esse modelo, segundo ele, mostra que o sorgo deixou de ser apenas uma cultura comercial. Passou a integrar sistemas agrícolas cada vez mais intensivos e sustentáveis.

O clima acelerou uma mudança que já estava em curso

Embora Goiás tenha tradição na produção de grãos, a irregularidade das chuvas continua sendo um dos principais desafios da segunda safra.

Lucas defende que eventos como o El Niño deixaram de ser exceção e precisam fazer parte do planejamento das propriedades.

“Hoje o produtor precisa considerar essas oscilações climáticas como parte da gestão da fazenda. Não dá mais para tratar isso como surpresa.”

Para ele, três fatores definem o sucesso da lavoura. Conhecer o histórico climático da região. Escolher híbridos adaptados. Construir perfis de solo capazes de armazenar mais água.

“Cada vez mais quem produz bem é quem constrói perfil de solo. Não basta pensar apenas em fertilidade. É preciso construir um solo capaz de reter água e sustentar a planta durante os períodos de veranico.”

Goiás reúne condições únicas

Se dentro da porteira a tecnologia explica parte do crescimento do sorgo, fora dela existe outro elemento decisivo: a própria configuração agrícola de Goiás.

O analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Vilmar Eurípedes, explica que o estado possui regiões onde a segunda safra de milho apresenta maior risco climático.

Nesses locais, o sorgo encontrou espaço para crescer. “Nós temos regiões em que não é possível cultivar milho com segurança na segunda safra. Por isso o sorgo ganhou importância como alternativa de menor risco.”

Analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Vilmar Eurípedes | Foto: Divulgação

Segundo ele, o crescimento de quase 60% da área plantada nesta safra está diretamente relacionado à janela mais apertada para o milho. “Como a janela ficou menor, muitos produtores optaram pelo sorgo pensando justamente na redução de riscos.”

Vilmar, porém, faz um alerta importante. O avanço da cultura não significa que ela substituirá o milho. “Quando o produtor consegue plantar milho dentro da janela e colher acima de 80 ou 100 sacas por hectare, o milho continua sendo mais rentável.”

Por isso, ele prefere definir o sorgo como uma cultura estratégica. Não concorrente. “Ele entra principalmente quando a janela aperta ou quando o risco climático aumenta.”

O mercado finalmente apareceu

Outro fator decisivo para explicar a expansão do sorgo é a mudança na demanda.

Durante muito tempo, um dos maiores receios dos agricultores era a comercialização.

Hoje o cenário é completamente diferente.

Segundo Vilmar, o avanço das fábricas de ração, dos confinamentos bovinos e, principalmente, das usinas de etanol de cereais ampliou significativamente o consumo do grão.

“Esse mercado está em expansão. Temos etanol, nutrição animal e agora também a exportação. Isso vem mudando completamente o cenário da cultura.”

Ele lembra que ainda existem gargalos regionais relacionados à comercialização, mas avalia que essas limitações vêm diminuindo rapidamente.

“O mercado ainda é um desafio em algumas regiões, mas essa realidade está mudando muito rápido.”

Na avaliação do analista, o sorgo continuará crescendo justamente porque oferece ao produtor uma combinação difícil de encontrar em outras culturas.

  • Menor risco.
  • Menor investimento.
  • Mercado em expansão.
  • E boa rentabilidade.

Esses quatro fatores ajudam a explicar por que Goiás consolidou sua liderança nacional e deve continuar ampliando a participação na produção brasileira nos próximos anos.

Se a tecnologia tornou o sorgo mais competitivo e os produtores passaram a enxergá-lo como uma cultura rentável, faltava um último ingrediente para consolidar essa transformação: mercado.

E, nos últimos anos, ele apareceu.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Paulo Antonio Pusch Bertolini, acompanha essa mudança há décadas. Produtor rural de quarta geração, ele resume a trajetória da cultura com uma frase que acabou se tornando o título de uma das apresentações da entidade: o sorgo deixou de ser o “patinho feio” da agricultura para se tornar uma importante fonte de renda.

Na avaliação dele, essa mudança foi impulsionada por uma combinação de fatores.

O primeiro é nutricional. Segundo Bertolini, o sorgo possui características que ainda são subaproveitadas pelo mercado de alimentação animal.

“O sorgo tem características nutricionais muito interessantes. Infelizmente, ele ainda não remunera tudo o que deveria pela qualidade que possui, mas isso já está mudando. Hoje, em algumas regiões de São Paulo, por exemplo, o preço do sorgo já está praticamente igual ao do milho para a produção de ração.”

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Paulo Antonio Pusch Bertolini | Foto: Divulgação

Outro fator decisivo é o avanço das usinas de etanol de cereais. “Muitas usinas que processam milho já estão preparadas para processar sorgo também. Além do etanol, elas produzem o DDG, um coproduto de alto valor nutricional utilizado na alimentação animal. Ou seja, não existe competição entre etanol e ração. Existe uma sinergia.”

Essa integração da cadeia produtiva amplia significativamente a demanda pelo cereal.

Ao mesmo tempo em que abastece as usinas, o sorgo retorna ao campo como alimento para bovinos, aves e suínos.

“O produtor passa a atender vários mercados ao mesmo tempo”, resume Bertolini.

A China mudou o jogo

Se a indústria nacional ampliou o consumo, o mercado externo abriu uma nova perspectiva para o cereal brasileiro. Segundo Bertolini, a autorização para exportação de sorgo para a China representa um divisor de águas para a cadeia produtiva.

“A China abriu a possibilidade de importação do sorgo brasileiro. Isso muda completamente a perspectiva de crescimento do setor.”

O secretário estadual de Agricultura, Ademar Leal, compartilha da mesma avaliação.

Segundo ele, durante muitos anos praticamente todo o sorgo produzido no Brasil era consumido internamente, principalmente pela indústria de ração. Essa realidade começou a mudar recentemente.

“Quando nós começamos a exportar sorgo para a China, através da Cofco, houve uma competição muito forte com o milho. Isso valorizou o preço do sorgo. Antes ele era de 10% a 20% mais barato. Hoje está praticamente igual ao milho em muitos momentos.”

Ademar Leal, secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

Na avaliação do secretário, essa valorização deverá estimular novos investimentos e ampliar ainda mais a área cultivada em Goiás.

“É uma cultura com custo de produção menor e exigência hídrica menor. Goiás tem uma aptidão muito grande para produzir sorgo na segunda safra.”

Mesmo assim, Ademar faz questão de ponderar que o cereal deve ser visto como um complemento dentro do sistema produtivo. “Ele é estratégico, mas complementar. Não vai assumir o protagonismo do milho tão cedo. O produtor ganha mais uma ferramenta para administrar o seu portfólio dentro da fazenda.”

Essa talvez tenha sido uma das respostas mais importantes de toda a apuração.

Nenhum dos especialistas entrevistados aposta em uma substituição do milho. O que eles enxergam é uma agricultura mais diversificada, em que cada cultura ocupa o espaço onde apresenta maior eficiência econômica e agronômica.

O desafio agora está fora da porteira

Embora o cenário seja otimista, Bertolini afirma que o crescimento do sorgo dependerá menos da capacidade dos produtores e mais da infraestrutura disponível.

“O Brasil precisa investir fortemente em armazenagem. Hoje temos um déficit superior a 130 milhões de toneladas. Além disso, precisamos melhorar rodovias, ferrovias e, principalmente, a estrutura dos portos para exportar sorgo.”

Na avaliação do presidente da Abramilho, o produtor brasileiro já demonstrou que sabe produzir.

O gargalo passou a ser logístico. “Se houver mercado, o produtor vai responder. A agricultura brasileira tem condições de expandir rapidamente a produção de sorgo.”

Esse otimismo se reflete em uma projeção ousada da entidade. Segundo Bertolini, o Brasil já ocupa a segunda posição entre os maiores produtores mundiais de sorgo e poderá alcançar a liderança global nos próximos cinco a sete anos.

“Nós acreditamos que o Brasil tende a assumir a liderança mundial da produção de sorgo nos próximos cinco a sete anos.” Se isso acontecer, Goiás deverá permanecer como principal protagonista dessa expansão.

Uma mudança que começa na gestão

Para Lucas Almeida, entretanto, o crescimento da cultura depende de uma transformação que vai além da genética ou da tecnologia.

Ela passa pela gestão das propriedades. “Cada vez mais o produtor precisa agir como empresário rural, e não apenas como agricultor.”

Segundo ele, ainda existe uma preocupação excessiva com produtividade e pouca atenção ao resultado financeiro. “Eu vejo produtores comemorando que colheram 70 sacas de sorgo por hectare. A pergunta que eu faço é outra: quanto sobrou?”

O engenheiro agrônomo afirma que produzir mais nem sempre significa ganhar mais. “Eu prefiro colher 60 sacas gastando 30 do que colher 80 gastando 60. O que importa é quanto sobra no final da conta.”

Essa mudança de mentalidade, afirma, explica por que o sorgo passou a conquistar espaço em propriedades altamente tecnificadas.

Mais do que buscar recordes de produtividade, muitos agricultores passaram a priorizar estabilidade econômica, redução de riscos e previsibilidade.

Uma nova agricultura nasce no Cerrado

Quando se observa apenas os números da safra, Goiás impressiona.

São cerca de 2,2 milhões de toneladas de sorgo.

Quase 30% de toda a produção brasileira.

Oito anos consecutivos na liderança nacional.

Mas talvez esses indicadores não sejam o aspecto mais importante dessa história. A verdadeira transformação acontece dentro das fazendas.

Durante décadas, o produtor perguntava se valia a pena plantar sorgo. Hoje, a pergunta mudou.

Quanto da propriedade faz sentido destinar ao sorgo?

Essa mudança resume a nova realidade da agricultura goiana. O cereal continua sendo uma cultura complementar ao milho. Mas deixou de ser lembrado apenas quando a seca ameaçava a segunda safra.

Passou a integrar o planejamento econômico das propriedades, ganhou tecnologia, mercado, compradores e uma cadeia industrial que cresce ano após ano.

O antigo “patinho feio” da agricultura brasileira encontrou espaço em confinamentos, fábricas de ração, usinas de etanol e até no mercado internacional.

Se as projeções da Abramilho se confirmarem e o Brasil assumir a liderança mundial da produção de sorgo na próxima década, Goiás provavelmente continuará ocupando o centro dessa história.

Não apenas porque produz mais do que qualquer outro estado. Mas porque foi justamente nas lavouras do Cerrado goiano que o sorgo deixou de ser uma cultura plantada por necessidade e passou a ser cultivado por estratégia.

Essa talvez seja a maior transformação da agricultura brasileira nos últimos anos.

E ela está apenas começando.

Veja abaixo os relatórios usados para construção da matéria.

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Goiás deve liderar produção de sorgo pelo oitavo ano consecutivo, com alta de 40,3% na safra